Sabe quem foi Sardar Patel? É dele a maior estátua do mundo

A Índia inaugura nesta quarta-feira uma construção com 182 metros de altura e 58 metros de base. A Estátua da Unidade tem o dobro do tamanho da Estátua da Liberdade.

Em outubro de 2013 Narendra Modi era ministro-chefe do estado de Gujarate quando presidiu à cerimónia da primeira pedra da Estátua da Unidade. "Quero que as pessoas de todo o mundo olhem para esta estátua tal como vão ver a Estátua da Liberdade nos Estados Unidos ou a Torre [Eiffel] de Paris", disse então.

Cinco anos depois, agora como primeiro-ministro da Índia, Modi inaugura a construção situada nas margens do rio Narmada, no seu estado natal.

O homem de ferro

A Estátua da Unidade é inaugurada no dia de nascimento do homenageado, Vallabhbhai Patel. Conhecido como Sardar Patel, foi um dos principais dirigentes da luta pela independência e da Índia pós-colonial. Desempenhou as funções de vice-primeiro-ministro (de Nehru), de ministro da Administração Interna e de comandante da Força Aérea entre 1947 e 1950, ano em que morreu.

Em 2014 o governo indiano estabeleceu o Rashtriya Ekta Diwas, o dia da unidade nacional, em sua honra. É feriado no estado de Gujarate

O seu papel enquanto unificador do país, ao convencer os rajás a cederem o seu poder à administração central, valeu-lhe o cognome de "homem de ferro". Um nome apropriado se tivermos em conta que, segundo a Reuters, a estátua é formada por 700 toneladas de ferro.

A construção da estátua empregou mais de quatro mil trabalhadores, divididos em dois turnos, e tem um custo estimado de 370 milhões de euros. No futuro incluirá um hotel e um museu, para atrair visitantes. O governo prevê 2,5 milhões por ano e a criação de 15 mil postos de trabalho.

Sem unidade

A estátua de Patel é também, nas palavras de Modi, "um símbolo da Índia a erguer-se". Mas nem todos estão de acordo com o projeto (segundo a ABC australiana, o próprio Patel seria o primeiro a vetar a ideia, pois era contra a construção de estátuas e de memoriais).

Os agricultores da região (setor principal da economia) são os principais contestatários. "Queremos perguntar ao governo: porque não podem financiar um projeto para apoiar os agricultores e melhorar os nossos padrões de vida?", disse Lakhan à BBC."Prometeram-nos água para irrigação, mas a situação continua na mesma."

Junto à estátua de Patel, os agricultores recorrem ao desvio ilegal de água. Um dos agricultores disse à BBC que instalou um cano subterrâneo e que é prática corrente na região. "Não temos outra opção senão desviar a água ilegalmente, pois não há fontes de água para nós."

Chotu Vasava, líder da comunidade local, queixou-se à AFP: "Não sou contra Sardar, mas qual é a utilidade da estátua se as pessoas sofrem e são obrigadas a mudar-se?" Segundo o governo de Gujarate, citado pela agência noticiosa francesa, 185 famílias tiveram de sair da área em que a estátua foi construída, tendo recebido em troca 475 hectares de terra.

Preocupadas com a possibilidade de se realizarem manifestações, as autoridades mobilizaram mais de cinco mil polícias para a cerimónia de inauguração.

Recorde tem prazo

A estátua de Sardar Patel é a maior do mundo, mas não por muito tempo. Também na Índia, mas na costa de Bombaim, numa ilha artificial, irá nascer uma estátua de Shivaji, o Chhatrapati (monarca) fundador do império Maratha, no século XVII.

O memorial, com inauguração prevista em 2021, vai ter 212 metros de altura e representar a figura histórica a cavalo e a brandir uma espada. À volta será construído um museu, uma praça de alimentação e um anfiteatro, num projeto orçado em 425 milhões de euros.

Também aqui já se levantaram vozes contra o projeto. "Isto é dinheiro dos contribuintes e tenho a certeza de que todos gostaríamos que fosse gasto em algo melhor, como educação, infraestruturas e alimentação", escreveu o jornalista Khrisma Upadhyay numa petição online que se opõe à ideia.

Exclusivos

Premium

Primeiro-secretário da Área Metropolitana de Lisboa

Carlos Humberto: "Era preciso uma medida disruptiva que trouxesse mais gente ao transporte coletivo"

O novo passe Navegante abriu aos cidadãos da Área Metropolitana de Lisboa a porta de todos os transportes públicos, revolucionando o sistema de utilização dos mesmos. A medida é aplaudida por todos, mas os operadores não estavam preparados para a revolução e agudizaram-se problemas antigos: sobrelotação, tempos de espera, supressão de serviços, degradação de equipamentos.

Premium

Viriato Soromenho Marques

Berlim, junto aos Himalaias

Há 30 anos exatos, Berlim deixou de ser uma ilha. Vou hoje contar uma história pessoal desse tempo muralhado e insular, num dos mais estimulantes períodos da minha vida. A primeira cena decorre em dezembro de 1972, no Sanatório das Penhas da Saúde, já em decadência. Com 15 anos acabados de fazer, integro um grupo de jovens que vão treinar na neve abundante da serra da Estrela o que aprenderam na teoria sobre escalada na neve e no gelo. A narrativa de um alpinista alemão, dos anos 1920 e 1930, sobre a dureza das altas montanhas, que tirou a vida a muitos dos seus companheiros, causou-me uma forte impressão. A segunda cena decorre em abril de 1988, nos primeiros dias da minha estada em Berlim, no árduo processo de elaboração de uma tese de doutoramento sobre Kant. Tenho o acesso às bibliotecas da Universidade Livre e um quarto alugado numa zona central, na Motzstrasse. Uma rua parcialmente poupada pela Segunda Guerra Mundial, e onde foram filmadas em 1931 algumas das cenas do filme Emílio e os Detectives, baseado no livro de Erich Kästner (1899-1974).Quase ao lado da "minha" casa, viveu Rudolf Steiner (1861-1925), fundador da antroposofia. Foi o meu amigo, filósofo e ecologista, Frieder Otto Wolf, quem me recomendou à família que me acolhe. A concentração no estudo obriga a levantar-me cedo e a voltar tarde a casa. Contudo, no primeiro fim de semana almoço com os meus anfitriões. Os dois adolescentes da família, o Boris e o Philipp, perguntam-me sobre Portugal. Falo no mar, nas praias, e nas montanhas. Arrábida, Sintra, Estrela... O Philipp, distraidamente, diz-me que o seu avô também gostava de montanhas. Cinco minutos depois, chego à conclusão de que estou na casa da filha e dos netos de Paul Bauer (1896-1990), o autor dos textos que me impressionaram em 1972. Eles ficam surpreendidos por eu saber da sua existência. E eu admirado por ele ainda se encontrar vivo. Paul Bauer foi, provavelmente, o maior alpinista alemão de todos os tempos, e um dos pioneiros das grandes montanhas dos Himalaias acima dos 8000 metros. Contudo, não teria êxito em nenhuma das duas grandes montanhas a que almejou. As expedições que chefiou, em 1929 e 1931, ao pico de 8568 metros do Kanchenjunga (hoje, na fronteira entre a Índia e o Nepal) terminaram em perdas humanas. Do mesmo modo, o Nanga Parbat, com os seus 8112 m, seria objeto de várias expedições germânicas marcadas pela tragédia. Dez mortos na expedição chefiada por Willy Merkl, em 1934, e 16 mortos numa avalancha, na primeira expedição comandada por Paul Bauer a essa montanha paquistanesa em 1937. A valentia dos alpinistas alemães não poderia substituir a tecnologia de apoio à escalada que só os anos 50 trariam. Bauer simboliza, à sua maneira, esse culto germânico da vontade, que tanto pode ser admirável, como já foi terrível para a Alemanha, a Europa e o mundo. Este meu longo encontro e convívio com a família de Paul Bauer, roça o inverosímil. Mas a realidade gosta de troçar do cálculo das probabilidades.