Bruxelas, ou não saber o que dizer

Muitas lojas fechadas, revistas à porta das gares, velas, flores e abraços numa praça cercada de câmaras: a normal liturgia pós-terror

"Nesta manhã o comboio para Bruxelas estava vazio. E está muito menos gente aqui do que de costume. Se estivessem tantos como normal, não seria possível fazer isto." Isto é a revista de toda a gente que, na hora de ponta das cinco da tarde, vai apanhar o comboio na estação central de Bruxelas.

Anne, de 34 anos, arquiteta, vai para Liège (a 90 quilómetros) e não esperava ficar meia hora à espera na fila de centenas de pessoas, enquadradas por carros de polícia e das Forças Armadas. "Não tinha refletido muito sobre isso, confesso. E em Liège não havia nada, ninguém estava a revistar à entrada da estação." Sorri. "Não sei quanto tempo vão manter estas medidas. Mas não será possível por muito tempo. Temos de continuar a nossa vida. Até porque se se controla a entrada na gare podem atacar à frente, ao lado." Aqui, por exemplo. No meio desta fila. "Sim. Pode ser em qualquer sítio. Aliás, quando aconteceu em Paris pensei que nos podia acontecer a nós." Tem medo? Medo de andar de comboio, por exemplo? Anne sorri de novo, um sorriso triste. "Tenho. Claro. Mas que hei de fazer? Não tenho carro, se tivesse talvez preferisse usá-lo. Mas assim, que remédio."

Ao longo da fila, as respostas pouco variam. Ninguém contesta as medidas de segurança. "São justificadas pela situação excecional", diz Paul, de 28 anos, funcionário do Tribunal de Contas, que "já sabia que isto estava a acontecer". Joel, que só se identifica como "empregada", de 58 anos, ri. "É compreensível, claro. Mas não pode acontecer muito mais tempo. Em termos logísticos é impossível."
"O risco é muito grande"

Sim. Há soldados de camuflado e metralhadoras e gente a revistar sacos. Mas não é o controlo de segurança de um aeroporto. Ninguém se descalça, não há detetor de metais nem interdição de líquidos. Não pode ser, não pode haver. Seria preciso chegar à estação uma hora antes. E duplicar isto em cada entrada de metro? Surreal. Serão, afinal, medidas de segurança ou securizantes?

Por exemplo para Antoine, de 33 anos, que vai para Charleroi e trabalha "em política", justifica-se: "O nível de ameaça ainda é muito elevado, o risco é muito grande, é para nossa segurança." E quando se considerar que o nível de ameaça baixou e se diminuir o nível de segurança, não será nessa altura que o risco aumenta? O rosto de Antoine exprime uma perplexidade irritada ante o dilema. Não é talvez, no dia seguinte ao dos atentados, o momento de confrontar os membros de uma sociedade livre com os paradoxos da liberdade e o preço que estamos ou não dispostos a pagar por ela. Ou, ao contrário, o preço que estamos dispostos ou não a pagar pela segurança - e se mesmo pagando-o ela estará alguma vez garantida.

De Paris para Bruxelas

E como compara a reação belga com a francesa? À primeira vista, num primeiro dia de reportagem, ressaltam várias diferenças. Aqui o discurso parece menos pronto, menos afirmativo. Não se ouve "A Bélgica é forte", não se vê aqui e ali o "même pas peur" (há um cartaz na Praça da Bolsa a dizer "A Bélgica permanece de pé", OK, mas é exemplar único), não se ouve o discurso da bravata e de um patriotismo que raia o nacionalismo. Se calhar por se tratar de um Estado com uma identidade mais fluida; se calhar porque o ter acontecido também aqui, o ter acontecido tantas vezes em tão pouco tempo, faz a reação desafiante dos franceses parecer infantil, temerária, irrefletida.

E certamente não se ouve o governo anunciar bombardeamentos e decretar estado de guerra e o Parlamento cantar um hino que fala de "banhar a terra com o sangue impuro" dos invasores. Nem, tão-pouco, teorias, em cada transeunte, sobre o que fazer agora, e sobre o que causou isto. Ou acusações sobre o que o governo devia ter feito, sobre o que a comunidade muçulmana deve fazer para se demarcar, sobre a culpa do Ocidente.

O que se repete é a liturgia: velas, frases escritas no chão a giz, bandeiras, poemas, mensagens que falam do poder do amor sobre a raiva. E pessoas a oferecer abraços grátis à multidão, aqui, nesta praça que emula, à sua muito menor dimensão, a feira mediática e celebratória da parisiense Republique. Câmaras por todo o lado, fios, tripés, repórteres, e quem venha também por isso, numa espécie de clima de festa.

Como Martine e Justine, de 20 anos, estudantes de Jornalismo com cartazes a dizer "abraços grátis", que de grandes sorrisos nos rostos lisos vieram "oferecer amor às pessoas porque o amor é a resposta." Isto combate-se com amor? Martine fica séria. "Claro que sabemos que isto não se resolve assim. Mas caramba, temos 20 anos. Que podemos fazer?"

A educação como arma

Steven tem mais do dobro e também não sabe. Veio com o filho Achiles, nome de herói quase invencível, à praça pouco antes do jantar - vivem a cem metros - para que este acendesse umas velas. Com 7 anos, Achiles esteve na escola a discutir os atentados e viu na TV as pessoas na praça. Quis vir ver, participar. O que ele pensa disto tudo o pai não sabe: "Se calhar melhor perguntar-lhe." E se perguntar ao pai? Com responsabilidades no ensino na região de Bruxelas, Steven acha que é aí que reside o caminho: "Temos de investir muito na escola. Insistir na criação de valores." Mas não tem muito mais para dizer. "Não sei como vamos evitar mais coisas destas. É difícil dar uma opinião 24 ou 36 horas depois de um incidente destes."

Ah, o grande inimigo das reportagens sobre acontecimentos: a capacidade de resistir às ondas e às declarações de circunstância, a capacidade de dizer "não sei", "não tenho respostas", "não vejo caminho". A capacidade de não fingir que se sabe o que não se pode saber. A capacidade de pensar antes de falar. A capacidade do silêncio.

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