Rei de Marrocos perdoa jornalista presa por aborto ilegal

Também o companheiro de Hajar Raissouni, o ginecologista e outros dois funcionários da clínica vão ser libertados num processo que indignou a sociedade marroquina e internacional.

O rei de Marrocos, Mohamed VI, indultou a jornalista Hajar Raissouni, condenada no dia 30 de setembro por aborto ilegal e relações fora do casamento. No mesmo gesto, o monarca perdoou o seu companheiro, o professor universitário Rifaat al-Amin, o ginecologista Jamal Belkeziz, que havia sido condenado a dois anos de encarceramento; bem como o anestesista e um administrativo da clínica, que receberam penas de prisão suspensas.

Uma fonte governamental avançou à AFP que a mulher de 28 anos, bem como os restantes condenados, serão libertados nas próximas horas.

A jornalista do Akhnar Al Yaoum recusou ter realizado uma interrupção da gravidez e disse que já estava casada em cerimónia religiosa. Por seu lado, o ginecologista explicou em tribunal que a paciente foi atendida porque tinha sofrido uma hemorragia interna.

Se 470 marroquinos assinaram um texto de opinião no francês Le Monde, escrito pela escritora Leila Slimani e pela cineasta Sonia Terrab a criticar as "leis injustas e obsoletas", Hajar Raissouni afirmou que o julgamento era um "processo político", uma vez que o jornal para o qual escreve é dirigido por um tio, Suleiman Raissouni, uma das vozes mais críticas do regime.

Numa entrevista publicada no dia 14 no Libération, a politóloga especialista em Marrocos Mounia Bennani-Chraibi afirma que o país sofreu uma revolução mental nos últimos anos e que a repressão já não resulta. "O regime está a tentar restaurar o medo através da repressão, mas o muro caiu. E se os marginalizados do passado saíram às ruas sob o impulso de atores políticos mais estruturados, os de hoje são capazes de se organizar autonomamente e a longo prazo. Isso foi muito visível durante a revolta do Rif (2016-2018) e os movimentos sociais que ocorreram em Jerada (2018) e noutros lugares. No ano passado, o movimento de boicote generalizado contra o custo de vida tomou de surpresa os decisores e os atores políticos", afirma a professora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade de Lausanne.

Exclusivos