Referendo de Erdogan aumenta tensão entre Alemanha e Turquia

Autoridades alemãs cancelaram realização de dois comícios com ministros turcos. Chefes das diplomacias reúnem-se na terça

Ancara acusou ontem Berlim de interferência nos seus assuntos internos e de fazer campanha contra o referendo que dará mais poderes ao presidente Recep Tayyip Erdogan, depois de terem sido cancelados dois comícios de ministros turcos para a diáspora na Alemanha. A chanceler alemã, Angela Merkel, negou qualquer interferência do governo federal, lembrando que a decisão de cancelar os eventos foi das autoridades locais. Os chefes da diplomacia dos dois países reúnem-se na próxima terça-feira para discutir as relações, cada vez mais tensas nos últimos anos.

"Eles não querem que os turcos façam campanha. Trabalham pelo "não". Querem travar o aparecimento de uma Turquia forte", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlüt Cavusoglu - horas antes de confirmado o encontro com o homólogo alemão, Sigmar Gabriel. "É inaceitável que as autoridades alemãs, que constantemente nos tentam dar lições sobre direitos humanos, democracia, estado de direito e liberdade de expressão, não tolerem um encontro organizado pela comunidade turca", indicou o ministro da Justiça, Bekir Bozdag

Este responsável devia participar num comício em Gaggenau - cuja Câmara foi ontem evacuada devido a uma ameaça de bomba. As autoridades locais disseram ter cancelado por temerem que o recinto não fosse suficientemente grande (no dia 18 de fevereiro, cerca de dez mil pessoas foram ouvir o primeiro-ministro turco, Binali Yildirim, a Oberhausen). Contudo, o cancelamento surge após vários políticos e media terem apelado ao governo para não permitir este tipo de comícios. Outro evento para promover o voto no "sim" do referendo de 16 de abril sobre a reforma constitucional estava previsto em Colónia, com o ministro da Economia, Nihat Zeybekçi. Ele diz que não desiste da viagem: "Se não autorizarem vou de café em café, de casa em casa."

A relação entre os dois países remonta a 1791, quando foi assinado o tratado de paz e amizade entre o Império Otomano e o Reino da Prússia, que deu lugar a uma importante cooperação militar, comercial e cultural. Depois, já num período de declínio do império, os otomanos ficaram do lado dos alemães na I Guerra Mundial. A derrota levou à ocupação de parte do território pelos Aliados, culminando na guerra da independência e no nascimento da República da Turquia de Atatürk. Em 1941, os dois países assinaram um tratado de não agressão, mas quando a derrota alemã já era certa, em 1945, a Turquia declarou a guerra.

Após o conflito, devido à falta de mão de obra, as portas da República Federal da Alemanha abriram-se aos turcos. Atualmente, é a maior comunidade imigrante no país, com três milhões de pessoas - das quais 1,5 milhões podem votar no referendo entre 27 de março e 9 de abril. Depois de um período de esfriamento das relações, o apoio do então chanceler Gerhard Schröder à candidatura da Turquia à União Europeia voltou a aproximar os dois países. Já Merkel é contra a adesão turca e isso deteriorou as relações.

Nos últimos anos, os problemas têm sido constantes entre os dois aliados da NATO, devido à resposta de Ancara aos protestos da praça Taksim, em 2013, e ao tema dos refugiados. Em março de 2016, gerou-se uma crise diplomática depois de um humorista alemão, Jan Böhmermann, ter feito um poema a insultar Erdogan. Para piorar a situação, em junho, o parlamento reconheceu o genocídio arménio às mãos do Império Otomano durante a I Guerra Mundial.

Um mês depois, Ancara criticou a falta de solidariedade de Berlim após a tentativa de golpe militar contra Erdogan , acusando agora a Alemanha de dar apoio aos seus inimigos. Por seu lado, Berlim tem criticado a purga de cem mil funcionários públicos e esta semana condenou a detenção do jornalista Deniz Yucel, correspondente do jornal Die Welt com dupla nacionalidade.

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