Quando os jornalistas se unem para caçar mentiras

Em ano de ida a votos na Alemanha e em França, até que ponto a desinformação espalhada nas redes sociais pode influenciar o eleitorado? As notícias falsas são uma ameaça?

A ilha Maiote, situada entre Moçambique e Madagáscar, pertence à França. Apesar da longa distância até Paris, o pequeno território ultramarino deu que falar recentemente na campanha para as presidenciais. Segundo uma alegada notícia publicada a 30 de março no site Resistance Republicaine, o candidato centrista Emmanuel Macron, caso seja eleito, pretende implementar a charia - ou lei canónica muçulmana - em Maiote, legalizando assim a "poligamia, o repúdio das mulheres e o crime de blasfémia". Sendo verdade seria uma boa história, mas não passa de uma mentira, uma notícia falsa.

Este tipo de desinformação tornou-se, para David Schraven, "uma das principais ameaças para a sociedade ao longo do último ano". Este jornalista, fundador do alemão Correctiv - um coletivo de investigação que também se concentra na tarefa de desmascarar notícias falsas -, explica ao DN que o problema é cada vez mais grave porque "as pessoas aprenderam a utilizar as redes sociais para desestabilizar as sociedades através de mentiras".

Perante a proximidade das eleições legislativas de setembro, o Correctiv, que já emprega 30 pessoas, irá aumentar a sua equipa e está em processo de recrutamento. Desde o início de abril há uma equipa de quatro a cinco pessoas apenas dedicada a encontrar notícias falsas que possam eventualmente ter influência sobre o eleitorado.

Também em França os jornalistas procuram combater a epidemia das notícias falsas amplificadas e disseminadas através das redes sociais. O Les Décodeurs - um coletivo que pertence ao jornal Le Monde e que foi fundado em 2014 com o objetivo de fazer verificação de factos sobre vários temas - lançou em fevereiro uma nova ferramenta. O Le Décodex é um motor de pesquisa que permite averiguar a fiabilidade de alguns sites de informação. Ao entrar na página online está disponível um espaço para inserir o site que pretendemos verificar. No caso, por exemplo, do Resistance Republicaine - que publicou a notícia sobre Macron e a charia - o veredicto é um sonoro torcer de nariz: "Difunde um número significativo de informações falsas e de artigos enganadores. Fique vigilante e faça o cruzamento com outras fontes de informação mais fiáveis."

De acordo com os responsáveis pelo projeto não se trata de fazer juízos de valor catalogando os sites como bons ou maus, mas sim de facilitar uma ferramenta para ajudar à leitura. "O fluxo de informação é tão grande que nos questionámos como poderíamos ajudar os leitores a defenderem-se contra uma vaga cada vez maior de notícias falsas", pode ler-se no Les Décodeurs.

As batalhas políticas são terreno fértil para a proliferação das fake news. "Na Alemanha, a maior parte do material inventado vem de extremistas de direita, populistas, eurofóbicos e estações de propaganda russas, como a Russia Today (RT)", explica Schraven. Em relação ao RT, o Le Décodex aconselha "prudência" e sublinha que se trata de um meio "financiado pelo poder com o objetivo de melhorar a imagem de Vladimir Putin no exterior".

Maxime Vaudano, um dos jornalistas do Les Décodeurs, explica ao DN que em França o problema não tem dimensões tão graves como, por exemplo, nos EUA: "Aqui não temos sites de notícias falsas a atuar apenas por objetivos financeiros, tentando gerar conteúdos virais para receber publicidade." Vaudano acrescenta que os principais atores em matéria de fake news são "grupos de extrema direita que apoiam Marine Le Pen".

Ainda assim, o jornalista francês diz ao DN que não está preocupado com possíveis consequências eleitorais: "Não é algo que seja massivo e tem vindo a ser bem denunciado. Mas gera mau ambiente político."

Portugueses confiam

De acordo com o Parlamento Europeu, as "notícias falsas" foram muito mais lidas e partilhadas do que a informação verdadeira durante os últimos três meses da campanha para as eleições norte-americanas. À medida que cada vez mais gente consome informação através das redes sociais, o risco de contaminação cresce. Os dados divulgados pelo PE atestam que seis em cada dez publicações partilhadas nas redes sociais não foram lidas por quem as partilhou.

Segundo um estudo do Reuters Institute da Universidade de Oxford, a percentagem de cidadãos europeus que consome as notícias através das redes sociais ascende a 46% - no caso português é de 66%. Na confiança depositada nas notícias, entre os 26 países analisados, Portugal aparece no segundo lugar, apenas atrás da Finlândia: 60% dizem que em regra confiam nas notícias.

O PE, preocupado com a evidência de que são cada vez mais os estudantes que não conseguem distinguir notícias falsas, aconselha cinco passos para identificar e combater o fenómeno: verificar o meio de comunicação e o autor do texto, avaliar as fontes citadas, pensar antes de partilhar e procurar estar a par dos truques mais recentes utilizados por quem quer divulgar notícias falsas.

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