Primeira deputada negra de Espanha é sobrinha de ex-procurador de Franco

Tio de Rita Bosaho Gori, eleita por Alicante pelo Compromís-Podemos, foi procurador do ditador espanhol na ilha de Fernão Pó, atual Bioko, na Guiné Equatorial

Quando no próximo dia 13 for constituído o novo Parlamento espanhol 138 dos 350 deputados serão mulheres. Este aumento, relativamente às legislaturas iniciadas em 2004, 2008 e 2011 deve-se sobretudo ao facto de partidos como o PSOE e o Podemos terem nas respetivas listas eleitorais muitos mais rostos femininos. No caso do segundo metade dos 69 eleitos que conseguiu nas legislativas de 20 de dezembro são mulheres. Entre elas está também aquela que é a primeira deputada negra de Espanha: Rita Bosaho Gori.

Eleita por Alicante nas listas do Compromís-Podemos, conseguiu recolher 200 885 votos (e que o partido passasse de 3% para 22%). Há anos que esta mulher de cabelo às tranças e sorriso rasgado, mãe de um filho de 23 anos, trabalha em projetos sociais. Muitos deles estão ligados aos maus tratos a mulheres ou imigrantes. Auxiliar de enfermagem durante 20 anos, tem uma licenciatura em História, tirada na Universidade de Alicante entre dois turnos que fazia no hospital, tem um master em Identidades e Integração na Europa Contemporânea e prepara agora uma tese de doutoramento sobre o impacto do colonialismo europeu em África.

Nascida há 50 anos em Santa Isabel, atual Malabo, quando a Guiné Equatorial era uma colónia espanhola em África, Rita Bosaho Gori não é, porém, o primeiro elemento da sua família a servir Espanha. Enrique Gori Molubela, o tio que diz nunca ter conhecido, foi procurador do ditador espanhol Francisco Franco em Fernão Pó (ilha batizada com o nome do navegador português que a descobriu e agora chamada Bioko).

Aí nasceu Enrique a 13 de novembro de 1923. Nos anos de 1940 entrou no seminário de Banapá, onde participou num protesto contra as condições existentes, a nível da alimentação ou de férias. Acabou por seu expulso e em 1952 rumou a Espanha, onde se matriculou para cursar Direito. Regressou a Fernão Pó em 1964, um ano antes de a sobrinha nascer. Ali foi procurador do Parlamento espanhol e presidente da Assembleia Geral do Governo Autónomo da Guiné Equatorial. Fez parte de um conjunto de intelectuais equatorianos ao serviço da ditadura franquista e chegou a reunir-se e a receber distinções por parte do generalíssimo Franco.

Defensor de uma solução de "autonomia progressiva" face à "independência prematura", Enrique afirmou em entrevista ao 'La Vanguardia Española', que agora foi citada pelo 'El Mundo', que era preciso "contar com os capitalistas honestos pois deles depende uma parte do futuro". Chave na independência da Guiné-Equatorial, caiu em desgraça após esta ter sido proclamada em 1968. As primeiras eleições do novo país foram ganhas por Francisco Macías Nguema, que depois acusou Enrique de tentativa de golpe de Estado e fez com que fosse condenado a 25 anos de prisão após ser julgado por um tribunal militar. Acabou por ser morto na cadeia, em 1972, a golpes de machete por um dos guardas. Deixou viúva Esperanza Dougan. Quanto ao ditador Macías, acabou deposto por um sobrinho em 1979. Esse sobrinho é Teodoro Obiang, que ainda hoje é o presidente da Guiné-Equatorial.

Sobre Enrique Gori, a deputada e sobrinha Rita Bosaho escreveu na sua página de Facebook: "A casualidade histórica uniu-me ao meu tio, o qual, infelizmente, não pude conhecer uma vez que foi assassinado pelo primeiro regime do terror instaurado na Guiné-Equatorial desde 1968. Guardo na memoria o que me transmitiu a minha família, memórias emotivas, que constituem, sem dúvida, uma referência tanto para mim como para todos os bubis que sentiram a sua luta pela liberdade." Bubi é a etnia a que pertencem Rita e Enrique.

Mulher afincadamente de esquerda, ao contrário do tio, a deputada por Alicante deixa ainda indiretas ao regime de Obiang, o homem que conseguiu tornar a Guiné-Equatorial membro da Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP). "O meu tio foi um produto do seu tempo, como tanta gente deste país durante a época franquista. Os regimes ditatoriais e totalitários (...) há que reconhecê-los e combatê-los para não repeti-los no futuro." Rita termina o seu 'post' sublinhando: "Não é minha intenção ser um ícone mas apenas representar uma era de normalização. O verdadeiramente importante são os problemas das pessoas, para os quais é preciso arranjar solução: garantir o bem estar e ampliar os direitos. Essa é a minha maior preocupação neste momento e é por esse motivo que estou no Podemos".

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