Portugueses em Bruxelas: "Não morreram todos por 15 minutos"

Lopo Carvalho conta como a família escapou ao atentado no aeroporto de Zaventem. Depois, passou pela estação de metro de Maelbeek à hora da explosão

Vive há seis meses em Bruxelas, cidade para onde se mudou para trabalhar no corpo técnico do Parlamento Europeu. Toda a família de Lopo Carvalho acabara de chegar para a Páscoa esta terça-feira de manhã. "Vieram visitar-nos. A minha mãe, os meus irmãos, a minha cunhada. Não morreram todos por 15 minutos. Não foi tudo à vida porque não calhou. Vivo a 15 minutos de carro do aeroporto. Quando chegámos a casa, já tinham sido os atentados. Foi uma coisa de dez, 15 minutos." Nas duas explosões do aeroporto morreram 14 pessoas.

Quando saiu para trabalhar - há uma semana que se mudou para uma empresa ligada à Agricultura e Comunicação - foi de bicicleta e "não de metro, por causa de toda a situação". Quando passou pela estação de Maelbeek - onde morreriam 10 pessoas - ocorria a terceira explosão a que Bruxelas assistiu nesta terça-feira. "Estava tudo no chão, imenso fumo a sair de dentro do túnel, um senhor estendido no chão, caixotes do lixo todos rebentados. . Umas pessoas fugiam, outras filmavam...Os carros ainda estavam a passar com normalidade."

Graças a Deus estou vivo, a minha família também

"Aquilo que pensei foi: graças a Deus estou vivo, a minha família também, vou sair daqui para não estar sujeito a uma situação mais complicada, e rezar pelas pessoas. Foi o que eu fiz", conta Lopo Carvalho, de 27 anos. Diz que, ao assistir na sexta-feira à detenção de Salah Abdeslam, o principal suspeito dos atentados de novembro em Paris, pensou: "Alguma coisa vai acontecer, e eu não gosto muito de andar de metro nesta cidade um pouco por causa disso. As pessoas têm medo. Ontem estava no metro, naquela estação [Maelbeek], o metro parou cinco minutos e lembro-me que houve um homem que começou a falar altíssimo e com medo. Isto foi ontem. As pessoas têm medo."

Todavia, diz, "uma pessoa não pode deixar de viver. A questão de ter havido atentados no imediato não pesa na minha situação de ficar ou de vir embora. Mas somos uma família, no dia em que a minha mulher se sentir cheia de insegurança, pegamos nas malas e vamos embora."

Nesta manhã, depois do atentado, "os militares à porta [do trabalho] estavam a carregar as metralhadoras. São barulhos que fazem impressão, não é? Não estamos habituados." No centro de Bruxelas, conta, "as ruas estão desertas."

Estávamos todos em estado de choque. E ainda estamos

Cátia Dâmaso é açoriana e vive em Bruxelas há dois anos e meio. Trabalha numa empresa de arrendamento de apartamentos e vive em Koekelberg, a 500 metros de Molenbeck, onde Salah Abdeslam esteve escondido. "Gosto da zona onde vivo e não me sinto insegura."

Estava a caminho do trabalho quando foram conhecidas as primeiras explosões. "Horrível... Estávamos todos em estado de choque. E ainda estamos. A nível do trabalho já se sente de novo uma vaga de anulações de estadias para os próximos 4 meses. A a situação de novembro [mês dos atentados em Paris] e dezembro repete-se. Sente-se que o medo vai-se instalar de novo."

A jovem de 26 anos não pensa em sair de Bruxelas, mas, "assustada", diz ter "de repensar, de novo, os meus hábitos e rotinas. Não frequentar as grandes superfícies comerciais. Não utilizar o metro nas horas de ponta. Nas horas de ponta, fazer um percurso maior e utilizar o elétrico ou o autocarro. Não frequentar as zonas turísticas. Esse tipo de coisas..."

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