Português viveu caos no aeroporto. Protestos seguem no centro da cidade

Os manifestantes que protestaram no aeroporto de El Prat contra a condenação de dirigentes independentistas da Catalunha abandonaram a zona depois de o protesto ter sido desconvocado pelo movimento Tsunami Democrático. Novos protestos serão. Um passageiro português descreveu ao DN o "caos" que viveu no aeroporto.

Os Mossos d'Esquadra dispararam balas de borracha, no aeroporto de Barcelona, contra as centenas de manifestantes que ali protestam contra a condenação de dirigentes independentistas da Catalunha.

A ação policial destinou-se a evitar que os manifestantes forçassem a entrada no aeroporto de El Prat, onde centenas de manifestantes pró-independentistas gritam palavras de ordem e procuram obstruir o acesso aos terminais.

Segundo a polícia regional catalã, a ação de contenção permitiu "ganhar espaço de segurança" em zonas críticas do aeroporto.

Já ao início da tarde, os Mossos d'Esquadra tinham feito uma investida contra os manifestantes, no acesso à estação de metropolitano do principal aeroporto de Barcelona, e pediram mesmo o auxílio de forças policiais nacionais.

Os manifestantes protestam contra a decisão do Tribunal Supremo, que condenou esta segunda-feira os principais dirigentes políticos envolvidos na tentativa de independência da Catalunha a penas que vão até 13 anos de prisão.

O protesto convocado no El Prat provocou o cancelamento de 108 dos 1066 voos previstos para esta segunda-feira, divulgou a gestora aeroportuária Aena.

A Vueling, principal companhia aérea que opera no aeroporto de Barcelona decidiu anular 100 dos voos previstos para hoje e adiou outros 20 para terça-feira.

A empresa já tinha adiantado, ao início da tarde, que tinha cancelado 20 voos, mas o bloqueio dos acessos ao terminal, devido à presença de milhares de manifestantes convocados pelo movimento Tsunami Democrático, levou a companhia a anular mais 80.

A empresa admitiu que o protesto está a dificultar seriamente a circulação do aeroporto, tanto em relação às saídas como às chegadas de aviões.

Apesar da situação, a Aena assegurou que, neste momento, não prevê encerrar o aeroporto, referindo que os problemas que estão a afetar o espaço aéreo "não põem em risco a operação aérea".

O governo espanhol rejeitou que haja um "colapso" nos aeroportos e estações de caminhos-de-ferro da Catalunha embora admita que a situação no El Prat é "muito delicada".

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, as informações recolhidas até às 18:45 locais (17:45 em Lisboa) referiam terem sido cancelados 67 dos 1.066 dos comerciais programados para o dia em El Prat, o que representava 6% do total.

O executivo adiantou terem sido adotados procedimentos alternativos para transferir passageiros entre terminais e para zonas onde pudessem aceder aos transportes públicos.

O governo assegurou ainda que os comboios AVE (Alta Velocidade Espanhola) entre Madrid e Barcelona estão a funcionar normalmente, mas referiu a suspensão de serviços em 30 ligações de comboio.

Mais de 50 pessoas tiveram que ser assistidas na sequência das cargas policiais no aeroporto da capital catalã, que se intensificaram no final da tarde.

Passageiro português descreve a confusão: "Estamos completamente isolados"

Ricardo Oliveira, 30 anos, médico, foi passar o fim de semana a Barcelona e tem voo de regresso a Lisboa marcado para as 20:00 desta segunda-feira. Dada a situação, resolveu deslocar-se para o aeroporto às 14:00, com seis horas de antecedência. Apanhou o metro e saiu numa estação antes do aeroporto para evitar a confusão e teve de percorrer os últimos 3,5 quilómetros a pé.

Conseguiu chegar ao Terminal 2, com os manifestantes independentistas a bloquear zonas do aeroporto e a impedir a circulação. Ninguém deu orientações aos passageiros e, às 17:00, o passageiro português alcançou o Terminal 1, de onde vai partir o avião para Lisboa. Mas ainda conseguiu entrar na zona reservada ao embarque, uma vez que ficou retido na entrada no aeroporto.

"Os manifestantes chegaram primeiro do que a polícia ao Terminal 1 e bloquearam todas as entradas e saídas, não deixam entrar nem sair ninguém. A polícia está no meio, entre os manifestantes e os passageiros, e parece que não sabe o que fazem nem que decisão tomar. Estamos completamente isolados, numa zona onde nem sequer temos o que comer", disse o jovem português ao DN.

Como forma de protesto, os manifestantes sentam-se nas escadas que dão acesso ao aeroporto para impedir a circulação de passageiros. A polícia retira à força os ativistas que estão a impedir a passagem, como mostra o vídeo que Ricardo Oliveira enviou ao DN:

"Os manifestantes são jovens, entre 20 a 30 anos, e parece que estão em festa. Quem está pior são os passageiros, alguns com crianças, e ninguém lhes diz o que fazer", relata Ricardo Oliveira.

"Estamos presos, não conseguimos ir para outro terminal ou voltar para a cidade. Isto está um caos. Os ânimos estão a ficar exaltados entre manifestantes e polícia", adianta ainda o passageiro português.

Protestos avançam para outras cidades ao início da noite

De acordo com o jornal La Vanguardia, os manifestantes pró-independentistas avançaram já para outras cidades, como Terragona e Lleida, onde cercaram as delegações do governo regional.

De acordo com as autoridades, este protesto juntou mais de seis mil pessoas. Em Terragona, os manifestantes cortaram também o trânsito junto à delegação regional do governo, mas a circulação já foi restabelecida.

Em Barcelona, ao início da noite o foco principal de tensão concentrava-se na Via Laietana, onde a Polícia Nacional teve de cercar a zona com carrinhas e formar um cordão com Mossos d' Esquadra para dispersar os manifestantes.

Na sua edição ao minuto, o jornal catalão La Vanguardia avança pelas 22.00 horas em Portugal (23.00 locais) que os manifestantes começavam a abandonar o aeroporto, dirigindo-se ao Terminal 2 para apanhar um transporte público.

No Terminal 1, os Mossos d' Esquadra empurravam os manifestantes obrigando-os a abandonar o local.

Pelas 23:30 locais, menos uma hora em Portugal, os manifestantes abandonaram o aeroporto El Prat depois de o movimento Tsunami Democrático ter desconvocado o protesto. No entanto, o movimento já anunciou que irá marcar a partir de amanhã novos protestos.

Segundo o La Vanguardia, os passageiros também começavam a conseguir sair da zona, apanhando transporte público em direção à cidade, porque os voos durante a tarde foram cancelados.

Feridos: Pelas 23:00 as autoridades faziam a atualização dos feridos, referindo que até esta hora tinham recebido assistência médica 78 pessoas.

Pep Guardiola faz apelo à sociedade civil internacional. "Isto é inaceitável"

Entretanto, em Manchester, Inglaterra, Pep Guardiola leu um comunicado do grupo de ativistas Tsunami Democràtic a criticar a decisão judicial que condenou os dirigentes da Catalunha a penas de prisão. "Esta luta não violenta só vai terminar quando a repressão parar e quando se encontrar uma solução pacífica e democrática. Pedimos à sociedade civil internacional que pressione os governos a encontrar uma solução", afirmou Pep Guardiola, o antigo treinador do Barça.

O técnico do Manchester City referiu que em Espanha existe "uma tendência autoritária na qual a lei antiterrorista" é usada para perseguir os dissidentes. "Isto é inaceitável na Europa do século XXI", afirmou.

Para Pep Guardiola, a sentença ataca "os direitos humanos", como "o direito da reunião e manifestação, o direito da liberdade de expressão e o direito de um julgamento justo".

No comunicado que leu, o treinador defendeu a causa da Catalunha ao afirmar que "os líderes que foram hoje condenados representam os partidos políticos maioritários, assim como as entidades mais importantes da sociedade civil".

A manifestação pela independência da Catalunha é, segundo Guardiola, um movimento "plural e inclusivo" e não "xenófobo ou egoísta".

Guardiola reservou também algumas palavras para o primeiro-ministro espanhol. Considera que Pedro Sánchez não tem a coragem de enfrentar o problema da Catalunha.

Só há um caminho para encontrar uma solução para a crise que se está a viver, defende o treinador catalão: "Sentar e conversar".

Antes de Guardiola, já o FC Barcelona tinha emitido um comunicado defendendo que "prisão não é a solução", expressando o seu apoio e solidariedade com as famílias dos detidos e defendendo a resolução do confltio na Catalunha através do "diálogo político".

Manifestantes no aeroporto de Madrid

O aeroporto de El Prat é um dos principais alvos dos manifestantes, mas o grupo de ativistas Tsunami Democràtic anunciou também uma mobilização no aeroporto de Madrid (Barajas). Estarão a caminho do aeroporto da capital cerca de 1200 carros, refere o grupo em comunicado.

Dirigentes políticos condenados a penas de prisão

Os manifestantes protestam contra a decisão do Tribunal Supremo, que condenou esta segunda-feira os principais dirigentes políticos envolvidos na tentativa de independência da Catalunha a penas que vão até 13 anos de prisão.

O ex-vice-presidente da Generalitat, Oriol Junqueras, foi condenado, por unanimidade, a 13 anos de cadeia por delito de sedição e má gestão de fundos públicos.

Foram condenados a 12 anos de cadeia os ex-conselheiros Jordi Turull (ex-conselheiro da Presidência), Raul Romeva (ex-conselheiro do Trabalho) e Dolors Bassa (ex-conselheira para as Relações Exteriores) por delitos de sedição e má gestão.

O antigo titular do cargo de conselheiro do Interior, Joaquim Forn e Josep Rull (Território) foram condenados a 10 anos de cadeia.

Jordi Cuixart, responsável pela instituição Òmnium Cultural, foi condenado a nove anos de prisão por sedição.

Os factos reportam-se a 2017 sendo que os magistrados entendem que os acontecimentos de setembro e outubro do mesmo ano constituíram crime de sedição visto que os condenados mobilizaram os cidadãos num "levantamento público e tumultuoso" para impedir a aplicação direta das leis e obstruir o cumprimento das decisões judiciais.

"Os acontecimentos do dia 1 de outubro" (2017)" não foram apenas uma manifestação ou um protesto. Foi um levantamento tumultuoso provocado pelos acusados", referem os juízes do Supremo espanhol.

Sentenças "injustas e antidemocráticas", diz Quim Torra

Perante esta decisão judicial, o líder da Generalitat, Quim Torra, referiu que condenar os dirigentes políticos "é um insulto à democracia e um desprezo pela sociedade catalã".

"O governo e eu rejeitamos estas sentenças, por serem injustas e antidemocráticas, e por fazerem parte de um julgamento político e de uma causa contra o independentismo", acrescentou durante um discurso rodeado dos restantes membros do executivo catalão.

Torra pediu uma amnistia para os líderes independentistas que esta segunda-feira conheceram a sua sentença. Lembrou que fazer um referendo "não é um crime" e que este "não está contemplado no Código Penal".

E pede uma reunião urgente com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e com o rei Felipe VI. O teor da carta foi divulgado mais tarde. "A democracia espanhola perde com esta sentença do Supremo Tribunal toda a sua credibilidade", lê-se na missiva divulgada pelo jornal ABC.

Juiz reativa mandado de captura europeu contra Puigdemont

No Twitter, o ex-presidente da Generalitat autoexilado na Bélgica, Carles Puigdemont, reagiu à sentença. "100 anos de prisão no total. Uma barbaridade. Agora mais do que nunca, ao vosso lado e das vossas famílias. Toca a reagir, como nunca. Pelo futuro dos nossos filhos e filhas. Pela democracia. Pela Europa. Pela Catalunha".

O juiz de instrução Pablo Llarena já reativou o mandado de captura contra Puigdemont, que fugiu de Espanha a 30 de outubro de 2017 para não ter que enfrentar as mesmas acusações que os restantes ex-membros do governo catalão. É o terceiro mandado de captura europeu que é emitido pela justiça espanhola contra o ex-presidente da Generalitat, mas desta vez não inclui a acusação de rebelião.

Numa declaração institucional a partir de Waterloo, na Bélgica, Puigdemont afirmou: "Condená-los a eles é condenar dois milhões de pessoas que votaram no referendo". Defende que não há nem houve crime em propor aos cidadãos que decidissem o seu futuro.

"A sentença confirma a via da repressão", disse o ex-presidente da Generalitat, explicando que "hoje se reforça mais do que nunca a necessidade de viver num país verdadeiramente livre".

"Apesar das condenações injustas e inumanas, não nos vão afastar das nossas convicções. Pelo contrário, hoje fica mais claro que nunca a necessidade de viver num estado verdadeiramente democrático", afirmou.

"Naufrágio de um projeto político", afirma o primeiro-ministro espanhol

O primeiro-ministro, Pedro Sánchez, mostrou o respeito pela sentença, dizendo que o processo decorreu com todas as garantias e independência. "Todos os cidadãos somos iguais diante da lei. Ninguém está acima da lei", diz Sánchez, lembrando que "acatar a sentença significa a total conformidade".

"Numa democracia ninguém é julgado pelas suas ideias, mas por crimes", disse Sánchez, lembrando que a Constituição espanhola segue três princípios: o da igualdade dos cidadãos no cumprimento da lei, a diversidade territorial e a inviolabilidade da integridade territorial. "A violação destes três princípios é a base da sentença", referiu.

"O autogoverno catalão apoia-se no Estatuto [da Catalunha] que foi atropelado", defendeu o primeiro-ministro, que fala de uma sociedade catalã dividida pelo independentismo. "Hoje acaba um processo judicial exemplar. Hoje confirma-se o naufrágio de um projeto político, também a nível internacional. Só deixou dor à sua passagem", afirmou.

"Responderemos com prudência e serenidade. Esperamos contar com a cooperação de todas as forças leais à Constituição", disse Sánchez.

Mais tarde, a ministra do Trabalho, Migrações e Segurança Social, Magdalena Valério, disse ter esperança que a situação na Catalunha se "tranquilize", depois do aumento dos movimentos de desordem pública ocorridos na sequência da condenação dos dirigentes independentistas catalães.

"A Catalunha faz parte de Espanha, que é um país com um Estado de direito onde as sentenças devem ser acatadas", afirmou a governante.

À Lusa, a ministra do Trabalho espanhola referiu que "é legítimo que possa haver manifestações". "Mas elas têm de ser pacíficas e respeitar a lei de um Estado democrático de direita".

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