Polícia indiana tenta recuperar o corpo de John Chau, morto na ilha de Sentinela

Foi aberto um processo mas a polícia tem dúvidas de que possa sequer entrar no território onde vive a tribo isolada.

Até há pouco mais de cinco meses, Dependra Pathak era um coordenador da polícia de trânsito em Nova Deli, a capital indiana. Desde então ocupa a direção da polícia das ilhas Andamão. E agora está no centro do mundo.

É dele a responsabilidade por um dos casos mais difíceis: como recuperar os restos mortais do jovem norte-americano John Allen Chau, que foi morto no passado dia 16 de novembro na ilha de Sentinela do Norte - onde vivem cerca de cem pessoas, hostis a contactos com o exterior.

Pathak está a consultar antropólogos para avaliar as possibilidades que tem de recuperar o corpo do missionário do estado de Washington, que pretendia contactar a tribo. Mas a polícia indiana tenta também perceber se pode acusar algum membro da tribo pelo assassínio.

"É certamente o caso mais singular da minha carreira", confidenciou Dependra Pathak ao jornal inglês The Guardian.

A polícia tentou já sobrevoar a ilha de helicóptero e fazer aproximações, por duas vezes, de barco. Mas fê-lo sempre com prudência. A tribo de Sentinela, que ali vive isolada há pelo menos 30 mil anos, costuma lançar setas a qualquer barco ou avião que se aproxime.

Na passada sexta-feira, um barco da polícia esteve a 300 metros da costa da ilha, onde recolheu um dos pescadores que terão ajudado Chan, sendo uma das testemunhas oculares do que se passou.

"Localizámos o lugar do crime e fizemos um mapa - o que é obrigatório numa investigação criminal", explica Pathak. "Durante cerca de três horas observámos a ilha e vimos cinco ou seis habitantes a andar na praia. Levavam arcos e flechas e estavam a observar o mar. Diria que estavam atentos."

Por isso, a polícia precisa da mediação de antropólogos, que têm estudado ou interagido com a tribo, que terá aproximadamente cem pessoas. Essa é a única forma de conseguir pistas para lidar com o caso.

"Como mataram alguém de fora, devem estar a sofrer um choque psicológico", admite o chefe da polícia. "Perceber isso ajudar-nos-á a entendê-los e a pensar numa estratégia de ação."

"Segundo a lei, ninguém pode entrar na ilha, nem mesmo a polícia."

Em 2006, quando um barco de pescadores encalhou perto da ilha, a tribo matou os dois ocupantes e, de seguida, enterrou-os na areia da praia. Cerca de uma semana depois, revelam os arquivos policiais, a tribo desenterrou os corpos dos pescadores e pendurou-os em canas de bambu, virados para o mar.

Se fizerem o mesmo com o corpo de Chau, essa pode ser a única oportunidade de identificar e recolher o corpo.

Mais difícil ainda é dar andamento ao processo-crime aberto contra "membro desconhecido da tribo". Pathak não considera que seja de todo claro que a polícia disponha de mandato para prender alguém na ilha. "Segundo a lei, ninguém pode entrar na ilha, nem mesmo a polícia", explica.

"Temos a obrigação e a responsabilidade de lidar com este caso com muita sensibilidade porque se trata de um pequeno grupo de pessoas, numa pequena ilha, que tem a sua própria civilização e visão do mundo. Não temos nenhum plano para invadir a ilha e confrontar as pessoas", garante Pathak.

Kanchan Mukhopadhyay, investigador de Antropologia que viveu nas Andamão, considera que a recuperação do corpo de Chau cria demasiados problemas.

"O último reduto de Satã."

Crítico da atitude de Chau, que pretendia evangelizar a tribo para o cristianismo, o antropólogo considera que isso era uma violação da vontade da tribo. "E esta recolha do seu corpo será de novo uma violação da vontade daquelas pessoas."

Já foram detidas sete pessoas, incluindo cinco pescadores, por terem ajudado Chau a chegar à ilha - que o norte-americano apelidava no seu diário, a 14 de setembro, de "último reduto de Satã".

Mais tarde, depois de ter escapado a uma perseguição dos membros da tribo, Chau escreveu no diário: "Eu não quero morrer. Seria mais sensato desistir e deixar que alguém continuasse esta tarefa? Não. Penso que não."

Na tarde seguinte, Chau voltou à ilha. Dois pescadores viram membros da tribo arrastar o seu corpo, que foi enterrado na manhã seguinte.

Os habitantes de Sentinela do Norte são uma das comunidades mais isoladas do mundo. Resistiram à colonização britânica e, mais tarde, à administração indiana. Em 1996, o governo de Nova Deli criou uma zona de proteção em redor da ilha para garantir o seu direito ao isolamento.

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