Pés de galinha e cabeças de porco no menu da guerra comercial

EUA e China lançaram-se na "maior guerra comercial da história". À entrada em vigor das tarifas de 25% sobre a importação de uma lista de produtos chineses, Pequim retaliou na mesma moeda: a lista de produtos inclui automóveis, mas também produtos menos óbvios.

Às 00:00 de Washington entraram em vigor tarifas de uma lista de 1300 produtos importados da China, num valor de 34 mil milhões de dólares. Poucas horas depois, o Ministério das Relações Exteriores chinês anunciou que medidas retaliatórias entraram em vigor imediatamente depois. Em específico, "taxas alfandegárias adicionais de 25%" foram impostas a uma quantia igual de produtos dos EUA.

Pequim já havia alertado sobre a imposição de taxas alfandegárias relativas a 34 mil milhões de dólares de importações americanas, em resposta a Washington.

Quais são os produtos norte-americanos visados?

Em termos de valor, a soja, os produtos da indústria aeronáutica e automóvel e chips de computador estão no topo da lista. Mas há mais.

As miudezas dos suínos, por exemplo. Nos EUA não têm grande saída, mas têm muita procura na China: no ano passado, cabeças e pés de porco valeram 251 milhões de dólares (215 milhões de euros) de vendas.

"A qualidade dos pés de porco americanos é boa, mas é o preço em especial que é competitivo", diz à AFP Zhu, um importador que trabalha para a empresa Dongguan Qianteng. A empresa estuda canais alternativos de importação, mas "o preço será um fator determinante".

Outro produto alimentar menosprezado pelo consumidor americano são os pés de galinha. Na China é uma iguaria que passa a estar sob a alçada das taxas alfandegárias, o que se traduz em mais uma perda de receitas para os agricultores.

Os frutos secos, como por exemplo os pistácios (metade das exportações vão para a China), ou o whisky também são atingidos.

Tombo da soja


De acordo com uma lista que o Ministério do Comércio chinês já havia disponibilizado, a lista de mais de 100 produtos norte-americanos atinge em especial os produtores de soja. Investigadores das universidades de Illinois e da Ohio State preveem que os agricultores do estado de Illinois, ao fim de quatro anos de tarifas, vejam o rendimento cair 87%, conta o Washington Post .

Já à espera das consequências para os agricultores, muitos deles apoiantes de Donald Trump, o secretário da Agricultura, Sonny Perdue, lembrou que o Departamento do Tesouro tem uma linha de crédito de 30 mil milhões à disposição dos agricultores. Uma iniciativa datada do tempo da Grande Depressão.

Quais são os produtos chineses taxados?

A lista de produtos chineses alvo de tarifas é extensa. Para já entraram em vigor 818 numa lista de 1300 e tenta atingir algumas das indústrias nas quais a China domina: semicondutores, veículos elétricos, turbinas, painéis solares e produtos para a indústria hospitalar.

Um assessor do banco central da China disse que as tarifas em 50 mil milhões de bens chineses - os atuais 34 mil milhões mais uma lista de 16 mil milhões noutros produtos, a entrar em vigor nas próximas semanas - reduzirão o crescimento económico da China em 0,2 pontos percentuais, adiantou a agência Xinhua.

A administração Trump iniciou a guerra em abril, ao anunciar as tarifas e ao acusar a China de usar táticas "injustas" para construir um grande superávit comercial com os EUA e apropriar-se da tecnologia norte-americana.

O presidente norte-americano afirmou que as "guerras comerciais são boas".

A Casa Branca também pressionou o Congresso no sentido de apertar as regras sobre o investimento chinês na tecnologia dos EUA.

"As tarifas são essenciais para evitar novas transferências injustas de tecnologia e de propriedade intelectual americanas para a China, o que protegerá os empregos americanos", disse Trump.

China lamenta e apresenta queixa

"A guerra comercial nunca é uma solução", reagiu o primeiro-ministro chinês Li Keqiang, em conferência de imprensa com o primeiro-ministro búlgaro, Boyko Borissov, em Sófia.
"A China nunca iniciaria uma guerra comercial, mas se alguém incorrer num aumento de tarifas, a China tomará medidas para proteger os os seus interesses de desenvolvimento".
O Ministério do Comércio, por seu turno, indicou que Pequim apresentou uma queixa dos Estados Unidos junto da Organização Mundial do Comércio.

Que consequências?

O presidente norte-americano ameaçou multiplicar por dez as tarifas - para um valor astronómico de 500 mil milhões de dólares, caso a China responda na mesma moeda.

Que consequências poderão ter esta disputa? "Não podemos descartar uma guerra comercial completa e indutora de recessão", lê-se numa nota do Bank of America Merrill Lynch, embora preveja uma "escalada modesta".

"Se isto terminar nos 34 mil milhões terá um efeito marginal nas duas economias, mas se aumentar para 500 mil milhões, como Trump disse, terá um grande impacto para os dois países", prevê Chen Feixiang, professor de Economia em Xangai, em declarações à Reuters.

"Quanto maior o tamanho [das importações taxadas], maior o potencial de o impacto do PIB ser maior do que uma extrapolação linear sugere", disse à Reuters Aidan Yao, economista na AXA Investment Managers em Hong Kong.

Isto porque, explica o economista, há efeitos secundários a ter em conta, na confiança, no investimento e nas cadeias globais de fornecimento, além do impacto na economia através dos mercados financeiros, nos efeitos de riqueza e no financiamento das empresas.

Num inquérito feito em março pela Reuters, a esmagadora maioria dos economistas ouvidos criticou a ideia da administração Trump em impor taxas aduaneiras: 80% dos 60 especialistas afirmou que a medida faz mais mal do que bem à economia norte-americana.

Donald Trump, contudo, mantém-se irredutível.

"A economia está provavelmente muito melhor do que no passado, antes de resolvermos o problema dos acordos comerciais injustos com cada país", escreveu no Twitter na terça-feira.

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