Partido Democrata tenta democratizar-se reduzindo poder dos barões

Reivindicação de Bernie Sanders foi atendida: em 2020, os "superdelegados", ou delegados "por inerência", à Convenção que escolherá o candidato democrata às presidenciais só poderão votar se a nomeação já estiver decidida. Decisão é considerada uma vitória da ala esquerda

"É um passo muito importante na transformação do Partido Democrata num partido mais aberto, mais democrático, e mais atento ao contributo dos americanos comuns." A reação de Bernie Sanders, em comunicado, à decisão tomada este sábado, em Chicago, pelo Comité Nacional Democrata foi entusiástica. O candidato derrotado em 2016 e seus apoiantes desde então que pugnam por isto, já que consideram que o apoio maioritário dos superdelegados a Hillary Clinton foi decisivo no resultado da disputa.

Em contrapartida, superdelegados como o californiano Bob Mullholand, membro do Comité Nacional Democrata, não disfarçavam a fúria: "Aquilo a que assistimos foi um assassínio-suicídio político", afirmou ao site noticioso Politico. "O comité votou a retirada de voto a governadores, membros do Congresso e o seu próprio direito de voto. É absurdo." E o anterior presidente do comité, Don Fowler disse, antes da votação: "Isto vai tornar as coisas confusas, ao afastar do processo de nomeação presidencial a liderança que tem funcionado muito bem há décadas." Fowler defendeu também que retirar o voto aos superdelegados iria prejudicar a representatividade de afroamericanos, pessoas LGBT e deficientes.

Superdelegados nunca decidiram nomeação

Mas a proposta acabou mesmo por passar por uma expressiva maioria dos 447 membros do Comité. Não é porém claro se a alteração é mais do que simbólica, já que desde os anos 1970, quando foi criado o atual sistema de primárias e caucus, o voto dos superdelegados nunca foi decisivo na escolha do candidato democrata. Nem mesmo, apesar dos protestos de Sanders e apoiantes, em 2016: Hillary teve mais quatro milhões de votos nas primárias e caucus que o seu oponente, o que lhe permitiu ter muito mais delegados eleitos para a Convenção.

A importância dos superdelegados na eleição de 2016, como frisa o Washington Post, afirmou-se de outra forma: a maioria declarou desde cedo, ainda antes do início das primárias, o seu apoio a Hillary, permitindo-lhe apresentar-se como favorita. Ora, continuando a existir superdelegados, mesmo que destituídos do poder de voto (porque é basicamente disso que se trata), o seu poder simbólico como barómetros e propiciadores de apoio e financiamento pode manter-se - como de resto sucede com os "barões" de qualquer partido.

A multiplicação dos superdelegados

O sistema do superdelegados surgiu em 1980, após uma dura batalha nas primárias entre os candidatos Ted Kennedy e Jimmy Carter (que concorria ao seu segundo mandato como presidente) na qual as recém criadas regras das primárias e caucus foram discutidas. Instituídas após Humbert Humphrey, que não tinha ganhado uma única primária, ser nomeado pelos "senadores" na Convenção de 1968, as novas regras determinavam que 85% dos delegados eram eleitos nas primárias. Mas assim, constatou-se, ocorria o problema contrário: os seniores do partido e representantes democraticamente eleitos como senadores, governadores, etc., tinham sido quase completamente afastados do processo.

Decidiu-se então que uma parte dos delegados à Convenção - denominados superdelegados - seriam nomeados por estatuto e não por eleição nas primárias. Ainda assim, a maioria seria sujeita a escrutínio: o Caucus Democrata do Senado e a Conferência Democrata da Câmara dos Representantes elegiam três quintos dos seus membros para a Convenção. Adicionalmente, cada presidente e vice presidente do partido em cada estado era também superdelegado.

A partir de 1984, as regras mudaram. A votação terminou e o número de superdelegados aumentou muito: todos os senadores e congressistas passaram a sê-lo por inerência, assim como os membros do Comité Nacional Democrata. Houve tentativas de diminuir o número de superdelegados, mas acabariam por não ser bem sucedidas. São agora 712, correspondendo a 15% dos delegados à Convenção.

"Esta pode ser uma mudança tão importante como a de 1968", escreveu Norman Solomon, delegado por Bernie Sanders à Convenção de 2016 e autor do livro Autopsy: The Democratic Party in Crisis, na véspera da votação, no Huffington Post. "50 anos depois, o Partido Democrata pode dar um grande passo no sentido de merecer o seu nome."

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