Oposição bloqueia ruas e já planeia o dia depois da Constituinte

Presidente Maduro não recua nos planos para a eleição de amanhã mas opositores prometem lutar até conquistar a liberdade

Nem a chuva fraca nem a proibição de manifestações decretada pelo governo venezuelano impediram que a partir do meio da tarde de ontem começassem a surgir barricadas nas principais vias de Caracas. Nas redes sociais, a oposição apressou-se a denunciar o uso de violência por parte das autoridades para acabar com os protestos que se repetem há quase quatro meses. "Esta luta começou antes da Assembleia Constituinte. Esta luta é para conquistar a liberdade e lutaremos até vencer", disse o vice-presidente da Assembleia Nacional, Freddy Guevara, avisando que a eleição de domingo não irá travar a oposição .

A Mesa de Unidade Democrática (MUD), que reúne os opositores ao presidente Nicolás Maduro e tem a maioria no parlamento, lançou um apelo para que as ruas fiquem fechadas até domingo, de forma a mostrar a rejeição popular à eleição dos 545 membros da Constituinte. Mas Guevara lembrou que o protesto não acabará nessa altura: "O que vem depois de segunda-feira? Vamos anunciar uma agenda", indicou, citado no Twitter da MUD. "Vem aí um panorama que nos vai complicar tudo, mas muito mais à ditadura", acrescentou.

Se fosse vivo, Hugo Chávez teria feito ontem 63 anos. Nas redes sociais, houve muitos que recordaram o presidente venezuelano, que morreu vítima de cancro em 2013. Uns para lembrar o seu legado, outros para criticar o facto de ter deixado Maduro à frente do país. "Não só não penso ir votar, como vou sair com a minha T-shirt de Chávez para protestar contra Maduro", escrevia ontem o "chavista fiel" no Twitter.

Os bloqueios surgem após algumas zonas da capital terem estado parcialmente paralisada nas 48 horas de greve geral convocadas pela oposição. Na quinta-feira, face aos planos de uma grande marcha em Caracas, o governo anunciou a proibição de manifestações até depois da eleição da Constituinte e avisou que quem for apanhado pode ser condenado a penas entre os cinco e os dez anos de prisão. Para a oposição o processo para reescrever a Constituição é fraudulento e destina-se a perpetuar Maduro no poder. Para Maduro é a única forma de garantir o regresso da paz ao país.

A Conferência Episcopal da Venezuela reiterou a sua rejeição à Constituinte, "por considerá-la inconstitucional, mas além disso desnecessária, inconveniente e prejudicial para o povo venezuelano". Num comunicado lembram que esta "não foi convocada pelo povo" e "só estarão representados os partidários do governo". Na opinião da Igreja Católica venezuelana, "será um instrumento parcial e tendencioso que não resolverá, mas agravará, os agudos problemas do alto custo de vida, a escassez de alimentos e medicamentos que sofre o povo, e aprofundará e piorará a profunda crise política que vivemos atualmente".

As Nações Unidas expressaram também a sua preocupação, lembrando que "devem respeitar-se os desejos do povo venezuelano de participar ou não" nesta eleição. A porta-voz do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, Liz Throssell, lembrou que "ninguém deve estar obrigado a votar e quem decidir livremente participar deveria poder faze-lo em total liberdade".

O Programa Venezuelano de Educação-Ação em Direitos Humanos (Provea) revelou ontem, de forma anónima, testemunhos de cidadãos que são obrigados a votar para a Constituinte. "Estão a obrigar-nos a votar na Assembleia, disseram-nos que se não votarmos nos despedem", indicou um funcionário do Instituto Nacional de Transportes Terrestres, segundo indicou a Provea no Twitter. "Obrigam-nos a votar, a tirar o cartão da pátria [que regula o acesso a alimentos e bens de primeira necessidade que são distribuídos pelos programas do Estado] e vão-nos levar a votar a 30 de julho", terá dito outro funcionário, da Ferrominera del Orinoco, a empresa estatal de mineração de ferro.

Apoio português a Maduro

"A República Bolivariana da Venezuela é vítima de uma violenta campanha desestabilizadora e golpista promovida pelos EUA e a oligarquia venezuelana, parte de uma ofensiva contra os povos e os processos de afirmação soberana e de sentido progressista e anti-imperialista na América Latina e as Caraíbas, que tem como objetivo impor o domínio económico e político norte-americano nesta região", lê-se num "texto de solidariedade" subscrito por 17 organizações portuguesas.

Para as signatárias, entre as quais se inclui o Conselho Português para a Paz e Cooperação, a central sindical CGTP-IN e a Juventude Comunista Portuguesa, as "imensas riquezas naturais da Venezuela", como as reservas de petróleo, "são alvo da cobiça das grandes corporações multinacionais", que "nunca aceitaram o processo de mudanças e transformações iniciado pelo presidente Hugo Chávez há 18 anos".

O chefe da diplomacia português, Augusto Santos Silva, reiterou ontem ser "totalmente falso" que Portugal se opôs à criação de um consenso dentro da União Europeia sobre a Venezuela - referindo-se à notícia de que teria sido contra a instauração de sanções. Os EUA já seguiram por esse caminho, assim como Colômbia ou México.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...