O professor da Brown que sabe tudo sobre a L(USA)lândia

Não há quem tenha escrito mais abundantemente sobre a relação entre os Estados Unidos e a comunidade luso-americana e por isso não admira que Onésimo Teotónio Almeida seja visto como um embaixador oficioso de Portugal. Desta vez, mais do que falar dele, o académico açoriano quis contar o que torna especial Brown, a sua universidade. Neste verão o DN republica algumas das reportagens integradas na rubrica sobre portugueses e luso-americanos de sucesso Pela América do Tio Silva. Este artigo foi publicado originalmente a 23 de fevereiro de 2018

Gastei mais 20 minutos mas bastantes menos dólares ao escolher na South Station o comboio regional em vez do expresso que liga Boston a Washington. E mesmo assim, por ter madrugado, acabo por chegar à estação de Providence antes da hora marcada com Onésimo Teotónio Almeida, para mim um velho nome admirado por livros vários - L(USA)lândia e (Sapa)teia Americana são os que me vêm logo à cabeça - mas com quem só falei até agora por e-mail.

O académico aceitou logo alinhar nestas reportagens do DN sobre portugueses na América, e até prometeu apresentar-me algumas pessoas da comunidade em Rhode Island, mas no seu caso combinou comigo falar sobretudo do que é a Brown University e o que tem sido feito nela em termos de estudos portugueses. "Já estão fartos de ouvir falar de mim, de quando vim para os Estados Unidos ou porque me chamo Onésimo. Vamos fazer diferente desta vez", reafirma quando chega com o carro à porta da estação ferroviária da capital do mais pequeno estado dos 50, fruto da divisão entre grupos de protestantes do Massachusetts no século XVII.

"Vamos lá beber um café ali à universidade", desafia-me, simpático, Onésimo, tratamento pelo primeiro nome que aceita sem problemas. Já agora, informo o leitor de que o nome Onésimo veio da recusa do pai, Manuel, filho também de um Manuel, de batizá-lo igualmente como Manuel. E, depois de pedir ao padre a lista dos nomes, escolheu Onésimo, que "era o mais arrevesado", como o próprio, com humor, contou em entrevistas. Este episódio passou-se nos Açores de há sete décadas, pois o professor nasceu em São Miguel em dezembro de 1946.

Fazemos uma curtíssima viagem de carro até à Brown, que não só parece uma pequena cidade como à medida que se expande vai-se confundindo cada vez mais com College Hill, o bairro de Providence onde se sente uma atmosfera que nos remete para outros tempos, como esse 1764 em que a universidade foi fundada, tendo-se meia dúzia de anos depois instalado aqui por ação da influente família Brown (daí o nome). Já a pé, procuramos um sítio onde beber o tal café. E aproveito para perguntar a Onésimo, que aqui chegou para fazer mestrado e doutoramento em 1972, o que é que representa Brown para uma cidade como Providence? "Brown é um grande motor económico da cidade, porque há uma grande atividade que se desenvolve à volta da universidade. E é também o maior empregador da cidade." Não escondo a surpresa com a universidade dar mais emprego que a própria câmara, mas Onésimo diz que é assim mesmo. E explica-me melhor a tal atividade à volta da Brown: "Há uma quantidade de gente que visita a universidade por variadíssimas razões. São os investigadores, são os pais que vêm com os alunos fazer prospeção das universidades e ficam um fim de semana, são os pais dos alunos que vêm visitar os filhos, são os antigos alunos que passam constantemente, são os convidados que a universidade traz para conferencistas. Gente de todo o mundo, que vem a toda a hora e, portanto, os hotéis e a restauração da cidade vivem muito à volta da universidade. Há ainda os alugueres de casas, o aluguer de quartos, etc."

Depois de um primeiro café falhado por não haver mesas disponíveis, lá damos com outro onde nos sentarmos mas antes temos de ir para a fila. Noto grande variedade de gente entre os alunos, rapazes e raparigas brancos, negros, asiáticos, etc., mesmo assim talvez menos diversidade étnica do que seria de esperar numa escola americana. Onésimo diz-me que há uma política de promoção de oportunidades para as minorias e que Brown, em termos de diversidade, até está bem classificada. Estamos a falar numa universidade de excelência, uma das oito da seleta Ivy League, onde se incluem também Harvard e Yale.

"Temos um total de oito mil alunos, 5500 de licenciatura e 2500 de mestrado e doutoramento. Princeton, por exemplo, não chega a três mil alunos de licenciatura. Estas universidades fazem questão de selecionar qualidade e não querem formar em quantidade", explica Onésimo, enquanto voltamos a caminhar pelo campus, agora para subir ao ponto mais alto. Com os 15 andares, o edifício da Biblioteca de Ciências destoa numa universidade onde sobrevivem ainda casas térreas de madeira ou de tijoleira dos séculos passados, mas de facto é de onde se vê melhor College Hill e o resto de Providence, cidade onde há uma forte comunidade luso-americana, grande admiradora, pude comprovar, do ilustre professor português da Brown.

"São 1500 alunos que entram. No ano passado concorreram 35 mil e aceitámos 1500. Os alunos já sabem que não vale a pena concorrer se não tiverem notas excelentes, até porque têm de pagar pelo processo de admissão. Já uma primeira seleção é feita aí, só concorrem os alunos que têm hipótese de ganhar, que sabem perfeitamente a média das notas e qual é o perfil de aluno de Brown. E sabem se vale a pena gastar aquele dinheiro, porque eles vão concorrer para cinco, seis, sete universidade e, se vão pagar a cada uma, é muito dinheiro. Então já só concorrem alunos distintos. E concorrem do mundo inteiro, a seleção é dificílima. A competição é altíssima para de 35 mil excluir mais de 33 mil", explica.

Vamos agora ao gabinete de Onésimo, no Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros, para cuja reputação internacional contribuiu. Fica numa das tais construções mais tradicionais. Nas paredes, cartazes de iniciativas antigas, como o de uma conferência sobre literatura açoriana em 1983. E sobre as mesas de apoio, salvando-se só a secretária onde está o computador, há um mar de livros, um mar agitado, com títulos vários de Onésimo a coexistir com obras de José Rodrigues Miguéis ou Eduardo Mayone Dias. Recebo vários como oferta, sem hipótese de recusar. Um deles é a edição em inglês do clássico de Vitorino Nemésio Mau Tempo no Canal, traduzido como The Stormy Isles - An Azorean Tale. É uma edição da Gavea-Brown, logo com dedo de Onésimo.

Aproveito que o professor já acabou de responder a alguns e-mails mais urgentes para perguntar como é que começou a ligação a Brown, sabendo já eu que a conexão com a América era familiar e tem que ver com uma avó que até nasceu nos Estados Unidos apesar de aos 5 anos ter ido para os Açores, quando os pais decidiram voltar. "Eu dou aulas desde 1975. Vim em 1972 para fazer o meu doutoramento, mestrado-doutoramento, mas quando era aluno de doutoramento fui recrutado por um amigo que foi o pai dos assuntos portugueses na Brown, que era o professor George Monteiro, um luso-americano professor de literatura. E depois meteu isso na cabeça: que era tempo de esta universidade ter um Centro de Estudos Portugueses e eu fiquei com um papel duplo. Continuei a fazer o meu doutoramento em filosofia e comecei a lecionar em 1975, a tempo inteiro, no Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros, que passou a departamento em 1991."

Onésimo continua, cheio de entusiasmo, apesar de me estar a fazer de guia de luxo a Brown há quase duas horas. Reservou toda a manhã para a reportagem do DN e já me avisou que marcou mesa para dois no restaurante que a universidade tem para os professores levarem convidados. "No departamento nós temos uma grande oferta de cursos e cadeiras por ano. Uma média de quarenta e tal cadeiras por ano em Portugal, Brasil e África, África lusófona. Nós cobrimos a área da língua, da literatura, da cultura, da história e chegamos um pouquinho a alguns cursos especiais de ciências sociais. Mas o interesse a nível de licenciatura é sobretudo pela história. E depois temos em média 12 alunos de doutoramento em simultâneo. Entram dois por ano, ficam na universidade seis anos, com bolsa inteira paga pela universidade e podem vir de qualquer parte do mundo. Já tivemos alunos até da China, tudo pago pela universidade, bolsa inteira, porque, segundo a mentalidade americana, os pais pagam para a licenciatura, mas, depois, quando as boas universidades vão caçar alunos para doutoramento e lhes dão bolsa completa, ninguém espera que sejam os pais a pagar." Ou seja, pergunto eu, o doutoramento não é uma forma da universidade ganhar dinheiro? "Não, de maneira nenhuma, a universidade é que dá a toda a gente... Ninguém entra ali porque se paga menos para fazer o doutoramento. As pessoas vão, a universidade é que dá. Quer dizer, pode ser. O aluno pode concorrer e não precisar de dinheiro e pode pagar. Mas não é o normal - pagar -, mas só será admitido se tiver qualidade. Nunca ninguém fica na universidade só por pagar, isso é impossível. Não é por ter dinheiro que vai fazer o doutoramento. Nem pensar." Entre valor para pagar as propinas, salário para se manter e seguro de saúde, o investimento num bolseiro pode ir até 120 mil dólares por ano, explica-me Onésimo

Recentramos a conversa na parte editorial, um dos pontos fortes do departamento. Não deixo, porém, de reparar numa foto de Onésimo com o presidente Bill Clinton e também uma em que está sentado com Mário Soares, quando o nosso antigo presidente e primeiro--ministro veio a Brown em 1987 para ser doutorado honoris causa no mesmo dia do cantor Stevie Wonder, o que deu azo a uma foto de ambos de braço dado que foi publicada no DN por iniciativa do académico, então nosso colunista. "Temos quatro revistas. Uma do grupo brasileiro que tem a Brasil/Brazil, revista de literatura. Nós temos três revistas e uma editora, a Gávea-Brown, que eu fundei em 1980 e já publicou 34 livros. O último que publicámos é um livro de poemas de José Saramago traduzido para inglês, Os Poemas Possíveis. Também já publicámos traduções de Miguel Torga, até de Camilo Castelo Branco. Além disso nós temos as tais três revistas, e dessas eu tenho à minha conta uma dedicada aos estudos luso-americanos, que se chama também Gávea-Brown. Esta é impressa, mas as outras são eletrónicas. A única revista de história de Portugal em inglês é o E-journal of Portuguese History, e que publicamos aqui mas é um trabalho de colaboração do grupo de editores da Universidade do Porto, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, da Universidade de Évora e da Universidade de São Paulo. E temos agora a revista Pessoa Plural, a única revista do mundo dedicada só aos estudos pessoanos."

Damos mais uma caminhada pelo campus e falamos também do espólio de José Rodrigues Miguéis, que está na Brown por iniciativa da viúva desse escritor português que se exilou por causa do salazarismo e morreu nos Estados Unidos. "Existe um microfilme do espólio todo na Biblioteca Nacional em Lisboa, mas os originais estão aqui. E volta e meia vem gente de qualquer parte do mundo investigar", sublinha Onésimo que começa a acenar a um rosto que creio reconhecer. Sim, é o historiador Diogo Ramada Curto, que está à porta da Biblioteca John Carter Brown, de estilo neoclássico. Onésimo apresenta-nos e fico a saber que o português está com uma bolsa a fazer a sua investigação na Brown. "Tem aqui a melhor coleção de livros portugueses fora de Portugal sobre os Descobrimentos. É uma biblioteca especializada em livros do Novo Mundo até ao século XVIII. Tem a primeira edição d"Os Lusíadas, a primeira edição da Peregrinação", descreve-me Onésimo. Há também um livro oferecido anonimamente por um ex-aluno, e que terá custado umas centenas de milhares de dólares. "É um livro sobre o ouro do Brasil e que D. João V mandou apreender porque revelava demasiado sobre a opulência do Brasil", explica.

Almoçamos então no restaurante para os professores da Brown receberem convidados e, apesar do requinte da sala, cada um serve-se e só as bebidas são trazidas à mesa. Falamos um pouco sobre o DN, que Onésimo nota que teve alguns diretores açorianos ao longo do século e meio de história. E terá sido quando um desses açorianos, Mário Mesquita, foi diretor que Onésimo colaborou mais estreitamente com o jornal. Voltamos a abordar com gosto o episódio de 1987 em que Soares passou num ápice de nem sequer saber quem era Stevie Wonder a suporte do cantor cego.

Regressamos ao carro e vamos até uma lojinha portuguesa em Providence. Como prometido, Onésimo apresenta-me o Manuel Pedroso, de 97 anos, que já foi motivo de reportagem nesta série. Percebe-se que Onésimo é uma figura respeitadíssima da comunidade, um homem que pelo seu percurso numa das melhores universidades da América serve de prova de que nem os portugueses emigrados devem deixar de ambicionar os estudos para os filhos nem manter a ligação ao país de origem.

Foi um dia em cheio. Incansável, Onésimo ainda foi tratar de assuntos familiares (é casado como a académica Leonor Simas-Almeida e pai de três filhos, incluindo uma filha de um primeiro casamento com uma grega) enquanto eu entrevistava o senhor Pedroso e depois o senador estadual Daniel da Ponte, regressando a meio da tarde para me dar boleia até Fall River, para mais um entrevistado, e depois deixando-me na estação para o regresso a Boston. Jornalista agradecido, percebo que Onésimo Teotónio Almeida gosta mesmo de ser uma ponte entre a América e Portugal, temas omnipresentes na sua obra.

Em Providence

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