O britânico que traz D. Sebastião de volta no primeiro romance

Jornalista e fotógrafo, Chris Graeme chegou a Lisboa em 1998. Formado em Estudos Russos, trabalhou durante quatro anos entre Moscovo e São Petersburgo.

Ao chegar a uma Lisboa mergulhada na euforia da Expo 1998, Chris Graeme achou os portugueses "muito parecidos com os russos em termos de personalidade". Jornalista e fotógrafo, o britânico viveu quatro anos na Rússia, entre Moscovo e São Petersburgo, onde foi editor de Artes de três jornais em língua inglesa. Depois de uma passagem pela comunicação do Harrods, foi uma relação que o trouxe a Portugal, onde se espantou com um povo que lhe pareceu ter pouco de latino. "Os portugueses eram muito humildes, conservadores, mais tranquilos e modestos" do que os "expansivos" brasileiros ou os "barulhentos" espanhóis.

Nas duas décadas que passou no nosso país, Chris garante que muito mudou. Sobretudo nos últimos cinco anos em que viveu "uma transformação incrível". Hoje, Lisboa é "uma cidade dinâmica, cheia de autoconfiança, cheia de riqueza", afirma o britânico, sentado num dos sofás do hotel Tivoli em plena avenida da Liberdade.

Foi essa mudança que o inspirou para a escrever um romance. Terminou-o em março e está à procura de editora. "É uma aventura, é um romance sobre como um pequeno país que não tinha autoconfiança conseguiu dar a volta e acreditar em si novamente", conta. Chris até criou uma personagem inspirada em D. Sebastião que no fim volta para dizer ao povo: "Veem? Sempre tiveram o que era preciso! Eu não sou um rei salvador. Sou um ser humano como vocês."

Aos 51 anos, Chris orgulha-se de ter trabalhado para toda a imprensa estrangeira em Portugal e de ter fotografado "toda a gente". Foi colaborador do extinto Anglo Portuguese News, editor da People and Business e trabalha para o Algarve Resident e para a Magazine Imobiliário. "Trabalho muito no turismo e imobiliário, que é onde está o dinheiro", explica. Durante dois anos e meio esteve envolvido no marketing dos vistos gold. "Lidávamos sobretudo com russos e com clientes do Médio Oriente."

Como jornalista, Chris teve de ir a todas as conferências de imprensa de Gonçalo Amaral após o desaparecimento de Maddie McCann. Mas não esquece o dia em que entrevistou uma pouco conhecida Mariza na pastelaria Mexicana. "Lembro--me dos arrepios. Percebi logo que aquela cantora tinha pernas para andar. Tinha uma voz!", exclama. Depois de nos últimos anos ter fotografado "toda a gente" na política portuguesa, Chris não contém umas gargalhadas quando recorda a entrevista que fez a Marcelo Rebelo de Sousa antes das presidenciais. "Ele é muito intenso. Estava a falar com ele e a pensar: este homem não pode ser presidente. Ele não dorme! Mas tem feito um excelente trabalho. As pessoas adoram-no."

Nascido na Riviera inglesa - "não se ria, há uma!", exclama, na zona de Torquay, "onde foi gravada a série Fawlty Towers" -, Chris admite que não teve uma infância fácil, com os pais sempre ocupados no restaurante que dirigiam, deixando o filho entregue a "uma sucessão de nannies e colégios internos". Mas explica que se sentia só e, por isso, se tornou independente. Formado em Estudos Russos e após um curso de Jornalismo no Harlow College começou no jornalismo local, antes de se mudar para Londres. Aí fez de tudo, da queda de um bebé de uma janela até entrevistar duas sobreviventes do Titanic.

Mas foi a experiência na Rússia uma das que mais o marcou. "Conheci Gorbachev, conheci Ieltsin. Havia clubes a abrir, restaurantes a abrir todos os dias. Foi uma experiência mágica." Mas garante que hoje não voltaria. Homossexual, Chris não pode aceitar a forma como o governo russo agora vê as coisas. "Quando lá vivi toda a gente sabia quem era gay e quem não era, mas cada um levava a sua vida."

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