Novo ministro da Educação de Bolsonaro defende que pais causem dor aos filhos

Pastor evangélico Milton Ribeiro, terceira escolha para substituir Abraham Weintraub, diz ainda que os homens é que devem "apontar o caminho da família".

Milton Ribeiro, o pastor evangélico, professor, advogado e militar na reserva escolhido por Jair Bolsonaro para liderar o ministério da educação, defende que os pais inflinjam dor física aos filhos. Logo depois de ter sido nomeado, numa escolha atribulada por ter sido precedida da confirmação de outros dois nomes, os vídeos das pregações mais controversas do reverendo da Igreja Presbiteriana de Santos, cidade a 100 km de São Paulo, passaram a ser partilhados na internet.

Segundo Ribeiro, as crianças nem sempre são sensíveis aos argumentos dos progenitores. "Talvez uma percentagem de crianças muito pequena, de crianças precoces, superdotadas, é que vai entender o seu argumento. Deve haver rigor, desculpe, severidade. E vou dar um passo a mais, talvez algumas mães até fiquem com raiva de mim: devem sentir dor", disse o pastor.

As declarações foram imediatamente partilhadas nas redes sociais com comentários de repúdio. Especialistas lembraram mesmo que, de acordo com o artigo 18-A do Estatuto da Criança e do Adolescente, estes "têm o direito de ser educados e cuidados sem o uso de castigo físico ou de tratamento cruel ou degradante, como formas de correção, disciplina, educação ou qualquer outro pretexto"

E o artigo 136 do Código Penal prevê que pais ou responsáveis que abusarem dos "meios de correção ou disciplina" estão sujeitos a pena de detenção de dois meses a um ano ou multa.

Outra intervenção do ministro causou reações indignadas. Para ele, "o pai é que impõe os caminhos em casa".

"Quando o pai não está em casa, o inimigo ataca. Quando o pai não impõe - impõe! essa é a palavra, me desculpem - a direção que a família vai tomar, não é que ele é o mandatário, que sabe tudo, mas ele, o pai, o homem dentro de uma casa, segundo a bíblia, o cabeça do lar é que aponta o caminho para que a família vai".

Além de pastor, de militar na reserva, de advogado e de professor, Milton Ribeiro foi o primeiro membro a ser nomeado por Bolsonaro para a Comissão de Ética Pública da presidência da República.

De acordo com seu currículo oficial, é formado em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul, doutor em educação pela Universidade de São Paulo e mestre em direito constitucional pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, da qual foi vice-reitor.

Depois da "ala psiquiátrica" e da" ala militar", a "ala evangélica"

O percurso académico de Milton Ribeiro também está a ser alvo de intenso escrutínio, depois de o primeiro escolhido pelo presidente para o cargo, Carlos Decotelli, ter apresentado uma sucessão de falsidades e inconsistências no currículo. Acabaria até por se demitir antes de tomar posse na sequência do episódio.

A seguir a Decotelli, foi convidado Renato Feder, secretário de educação do Paraná, que agradeceu o convite mas declinou o cargo. O seu nome tinha gerado muitas críticas entre os apoiantes mais radicais de Bolsonaro por causa, entre outros motivos, da ligação pessoal e política do secretário a João Doria, governador do estado de São Paulo que passou de aliado a inimigo do presidente nos últimos meses.

Esses apoiantes mais radicais, chamados de "ala ideológica" ou "ala programática" - os seus detratores preferem usar a expressão "ala psiquiátrica" - e liderados pelo guru, Olavo de Carvalho, e pelos filhos do presidente da República Carlos e Eduardo Bolsonaro, têm forte influência no governo em geral e na pasta da educação em particular.

Ricardo Vélez, o primeiro titular do ministério, foi apontado por Olavo. Abraham Weintraub, o segundo, além de ex-aluno do filósofo auto-didata radicado nos Estados Unidos, é íntimo dos filhos de Bolsonaro. Vélez caiu depois de se envolver em episódios polémicos, como o de classificar os brasileiros em viagem no estrangeiro como "autênticos canibais" e de determinar que os alunos cantassem o hino e repetissem o slogan de campanha de Bolsonaro.

Mais controverso ainda foi Weintraub, que além de criticado por escrever com erros ortográficos constantes, fez brincadeira racista a propósito do suposto sotaque dos chineses e chamou os integrantes do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional de "vagabundos".

Após a sua saída, Bolsonaro começou por tentar agradar desta vez à "ala militar" do governo, uma vez que Decotelli havia sido aconselhado pelos generais que o rodeiam no Palácio do Planalto. Dada a demissão precoce do ministro, o presidente ouviu a recomendação da "ala política", isto é, dos deputados ligados ao "centrão", grupo de parlamentares disposto a trocar apoio ao governo numa eventual votação de impeachment em troca de cargos na máquina estatal, e convidou Feder.

Como Feder também caiu, acabou por ser a "ala evangélica" - a população neopentecostal brasileira votou maciçamente em Bolsonaro e líderes, como Edir Macedo, Silas Malafaia e outros bispos, ainda o apoiam - a aumentar a sua influência no executivo com a nomeação do pastor Milton Ribeiro.

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