Nova era em Angola: "o mais difícil começa agora"

Politólogo lembra que MPLA, no poder desde 1975, tem vindo a perder eleitores e que um país também se faz com a oposição

Quarenta e oito horas depois das eleições, os holofotes do jogo político viraram-se para um jogo de basquetebol. Ao final da tarde, a televisão pública angolana substituiu a emissão dos debates, análises e comentários dos últimos dias pela partida de apuramento para as meias-finais do Campeonato Africano das Nações. Na rua, a rádio está sintonizada no Girabola, o programa que faz o relato da partida. Frente-a-frente, as seleções nacionais femininas de Angola e Moçambique, num dos sinais de regresso à normalidade, após a apreensão que se vivia desde a passada quarta-feira, dia da votação.

Quando estavam contados mais de 99% dos votos, a Comissão Nacional Eleitoral (CNE) confirmou a vitória do MPLA, com 61,51% dos votos, mantendo-se a UNITA como segundo partido mais votado, com 26,60%. "Está tudo na normalidade neste país, são mais cinco anos", comentava uma jovem, sem surpresas. Em Luanda, os mercados, os candongueiros (pequenas carrinhas de transporte de passageiros), as zungueiras (vendedoras que carregam a mercadoria em bacias na cabeça) e o trânsito retomaram o ritmo de outros dias. Mas a partir de agora, nada será como dantes em Angola.

O politólogo Gildo Matias, mestre em Ciência Política, alerta que "mais do que ganhar eleições, o mais difícil vai começar agora", com o MPLA a precisar de reconquistar o seu eleitorado. O partido, no poder há mais de 40 anos, "continua a vencer de forma descendente e não é por acaso que tem vindo a perder em eleições consecutivas". Entre os desafios do futuro governo, destacam-se a economia e o poder autárquico, "uma promessa falhada de 2012", mas que foi retomada por João Lourenço durante a campanha.

O MPLA "elevou a fasquia, com um conjunto de exigências que vai ter de resolver", considera Gildo Matias, que antevê uma equipa governativa equilibrada, com políticos "experimentados e com traquejo", ao lado de uma nova geração. "João Lourenço vai querer firmar novas lealdades", procurando enviar um sinal para a sociedade", diz o politólogo que acumula a direção do jornal Vanguarda com o trabalho na Casa Civil da presidência.

Gildo Matias salienta o crescimento da oposição, com mais 19 mandatos para a UNITA, e o resultado assinalável da CASA-CE, de Abel Chivukuvuku, que ficou acima do partido do galo negro nas províncias de Cabinda, Namibe e Kwanza Norte. "Um país não se faz só com o governo, faz-se também com oposição", lembra Gildo Matias, convicto do fim da era de José Eduardo dos Santos. O presidente que abandona o Palácio da Cidade Alta "está mesmo a retirar-se da vida política. Sai de forma limpa, com o seu próprio pé, o que é raro em África, onde estamos habituados a assistir a transições muito conturbadas. Deixa um país acima de tudo, estável e faz uma transição pacífica e democrática." Será a primeira vez que Angola terá uma passagem de poder "entre dois presidentes vivos e com o voto democrático", lembra Gildo Matias, para realçar a "dimensão histórica" do momento que se vive no país.

O exemplo angolano mereceu o elogio dos observadores internacionais, que consideraram as eleições livres, justas e credíveis. O chefe da missão da CPLP, o ex-presidente de São Tomé e Príncipe, Miguel Trovoada, felicitou o povo angolano por uma eleição que "reforça a coesão" no espaço dos países de Língua Portuguesa. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Tanzânia, Augustine Mahiga, em nome dos observadores da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, deixou no entanto, várias recomendações, como o registo de eleitores pela Comissão Nacional Eleitoral, em lugar do Ministério da Administração do Território angolano; uma "antecedência adequada na divulgação de lista de eleitores" e dos locais de voto, aspetos que mereceram críticas da oposição durante a campanha.

A UNITA continuou a contagem dos votos, sem assumir a derrota. Em nota enviada ao DN e TSF, o secretariado executivo do Comité Permanente salientou que os seus comissários na CNE não estiveram presentes no encontro que produziu os primeiros resultados provisórios, uma denúncia partilhada pela coligação CASA-CE, a terceira força partidária nestas eleições.

Enviada DN/TSF a Luanda

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