Nelson e Tango: Os gatos soldados de Churchill

De Winston Churchill, a História guardou a capacidade de liderança em tempo de guerra, mas também o temperamento difícil. No entanto, os muitos gatos que teve ao longo da vida sempre souberam como chegar-lhe ao coração.

"Nunca tantos deveram tanto a tão poucos", declarou Winston Churchill num dos históricos discursos que pronunciou nos anos dramáticos da Segunda Guerra Mundial. O elogio dirigia-se aos jovens pilotos da Royal Air Force que, a bordo de Spitfires e Hurricanes, tinham travado a chamada Batalha de Inglaterra e impedido a invasão alemã. Mas o líder político tinha também a sua base de apoio íntima, constituída pela sua mulher, Clementine, os cinco filhos de ambos, os funcionários mais próximos e os animais domésticos que nunca deixou de ter por perto, quer em Londres, quer na casa de família em Chartwell.

Ao chegar a Downing Street, 10, em maio de 1940, para chefiar o governo, Churchill levou consigo um vasto staff, no qual se incluía um gato cinzento, de nome Nelson. A quem o interrogava sobre o porquê de tão heroico nome, o primeiro-ministro não hesitava em falar da valentia de que o felino dera provas em vários momentos da sua nova existência, como o encontro com um enorme cão de um Lord do Almirantado ou a marcação de território face a outro habitante da residência oficial, o gato herdado do antecessor de Churchill, Neville Chamberlain, maldosamente alcunhado de Munique (em alusão ao acordo celebrado pelo seu dono com Hitler, em 1938).

Temperamental e frequentemente irascível, o homem que dirigiu a Grã-Bretanha na sua "hora mais negra" tinha para Nélson atenções e cuidados que não dedicava a humanos. Chegava a pedir-lhe desculpa, coisa de que não há memória ter feito a alguém, fosse a sua mulher ou o próprio Rei. Nos (preciosos) diários que manteve do quotidiano em Downing Street ao longo da Guerra, um dos secretários políticos de Churchill, John Colville, recorda em particular um almoço com o Primeiro-ministro, em que o gato esteve sempre com eles. Estava-se a 3 de junho de 1941 e o mundo parecia ir cair-lhes em cima da cabeça: os britânicos tinham evacuado a Grécia, a ilha de Creta estava prestes a cair e a Marinha Real perdera vários navios importantes. Enquanto discorria sobre a resposta a dar a tão graves acontecimentos, Churchill ia limpando amorosamente os olhos de Nélson com um lenço e lamentava que o racionamento o impedisse de lhe dar o fiambre e as natas frescas a que fora habituado. Mas sempre que a ocasião se proporcionava não deixava de o brindar com lascas de salmão.

No mesmo período também Tango, um gato de pelo entre o amarelo e o laranja, despertou a veia carinhosa do estadista. Em cartas enviadas à mulher, referia-se às muitas preocupações que o ocupavam, mas não deixava de descrever o quotidiano dos animais: "Tango vem sempre ver-me com muita graciosidade. Mostra a sua intenção de dormir na minha cama, o que eu consinto. E ao jantar, se estou sozinho, fica a meu lado, a fazer-me companhia." Para Churchill havia duas coisas que nunca estavam a mais numa casa: livros e gatos. Sabendo disso, um vizinho seu em Chartwell levou-lhe, certa vez, uma ninhada num cesto: cinco minúsculas, mas irrequietas, bolas de pelo. Aflita, a sua secretária pessoal, Grace Hamblin, advertiu que, havendo já tantos gatos na propriedade, era melhor que esta não passasse de uma visita de cortesia. Uma hora depois, quando os pequenos já trepavam pelos cortinados e destruíam os papéis na escrivaninha, Churchill, consternado com a ideia de os perder de vista, chamou a secretária e ter-lhe-á ordenado: "Leve-os antes que me apaixone".

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