Brasil. Não há novelas nem futebol no país das novelas e do futebol

TV Globo cancela gravações da "novela das oito", uma instituição brasileira, e federações de futebol anunciam suspensão por tempo indeterminado dos principais campeonatos do único país pentacampeão do mundo por causa do coronavírus

"Afinal, quem é o Domênico?".

A pergunta, sem sentido para a maioria, é no entanto uma das dúvidas mais urgentes de todos os brasileiros que seguem - seguiam - a par e passo a trama de "Amor de Mãe", a novela das oito da TV Globo, uma instituição de 50 anos da televisão e da sociedade brasileiras.

Mas os fãs mais apaixonados do folhetim vão ter de esperar por tempo indeterminado para saber quem é o filho de Lourdes, o tal Domênico. É que a emissora do Rio de Janeiro decidiu cancelar as gravações da telenovela em virtude da pandemia conhecida como coronavírus: até sexta-feira, serão emitidos ainda episódios inéditos, já gravados, depois serão re-exibidos capítulos anteriores e ainda não há previsão para a retomada dos trabalhos. A decisão foi tomada numa reunião da direção do canal nesta segunda-feira.

Outras telenovelas em exibição, como a das seis - "Eramos Seis" - terminará as gravações nesta quarta-feira, segundo informações da colunista do jornal O Globo Patrícia Kogut. A das sete - "Salve-se Quem Puder" - , seguirá normalmente os trabalhos mas a sua sucessora no horário - "Nos Tempos do Imperador - teve as gravações interrompidas. "Malhação", novela juvenil que precede as anteriores, foi encurtada e uma minissérie, "O Anjo de Hamburgo", paralisada,

Não há registo de casos de coronavírus nos estúdios da Globo onde estavam em gravação na semana passada oito novelas, cinco séries e uma minissérie, acrescenta Daniel Castro, o especialista em televisão do portal UOL.

"Mas a paralisação das gravações das novelas foi uma medida absolutamente responsável e necessária tomada pela Globo", escreveu Taís Araújo, que interpreta uma das protagonistas de "Amor de Mãe" nas redes sociais.

"A produção de uma novela envolve centenas de profissionais e é de extrema importância que preservemos, em primeiro lugar, a saúde de todos e que evitemos a proliferação do vírus", prosseguiu a atriz.

"Agora é hora de prezar pela saúde daqueles que amamos e daqueles quem não conhecemos. Você, empregador, pense no coletivo e considere dispensar os funcionários durante os próximos dias. E vamos todos compreender que este não é um período de férias. É um período de prevenção. É hora de ficar em casa, em segurança, seguindo as orientações das autoridades de saúde. E que tudo isso acabe logo", finalizou Taís.

Noutros programas históricos de entretenimento da Globo, como "O Domingão do Faustão", por exemplo, a ordem é não ter plateia, ou reduzi-la ao máximo, para diminuir o risco de contágio.

Os brasileiros vão, portanto, ficar sem saber quem é o Domênico por mais uns tempos mas também se o São Paulo vai finalmente conquistar o Paulistão, campeonato estadual local, que lhe escapa há 15 anos. Ou se o atual tricampeão Corinthians desce ou não de divisão. Ou também se alguém consegue parar o Flamengo, do treinador português Jorge Jesus, no Rio de Janeiro.

É que os representantes dos clubes da Série A1, a primeira divisão do estado de São Paulo, decidiram paralisar por tempo indeterminado o Paulistão em função da pandemia do coronavírus, ao início da manhã desta segunda-feira. E, horas depois, foi a vez da Federação do Rio de Janeiro tomar atitude idêntica. Nem Jesualdo Ferreira, treinador do paulista Santos, nem o citado Jesus, têm, por isso, compromissos marcados a partir de agora.

"Argumentos técnicos e de saúde convenceram os clubes. O entendimento de todos era a convergência de opiniões em prol do bem comum", disse Rubens Lopes, presidente da federação do Rio.

Os responsáveis pelos estaduais mineiro e gaúcho, também de enorme tradição, tomaram decisões semelhantes.

E a paralisação desses quatro principais estaduais soma-se à da Copa do Brasil e - até ver - do Brasileirão, o campeonato nacional cujo pontapé de saída está marcado para o primeiro fim-de-semana de maio, determinadas pela Confederação Brasileira de Futebol, o organismo que tutela o desporto rei a nível nacional. A Conmebol, organização do sub-continente sul-americano, já havia, por sua vez, interrompido as suas competições, Taça dos Libertadores da América incluída. Os jogos de seleções de qualificação para o Mundial 2022 também foram adiados.

Como a atriz Taís Araújo, os atores que vão para os estádios elogiaram estas atitudes. Renato Gaúcho, treinador do Grêmio, Jesus, do Fla, e outros recomendaram a paralisação das atividades no único país pentacampeão mundial da modalidade e, por isso, autodenominado "país do futebol".

Há uma voz dissonante, no entanto. Para Jair Bolsonaro a decisão de parar o futebol é "histérica". "No meu entender, não se vai conter a expansão [da pandemia] com estas medidas rígidas", afirmou o presidente da República do Brasil em declarações à recém criada CNN Brasil, horas depois de ter abraçado apoiantes apesar da recomendação contrária do seu ministro da Saúde. Dias antes chamara o coronavírus de "fantasia da imprensa". Sete colaboradores seus, entretanto, contraíram a doença em viagem recente aos Estados Unidos.

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