Morreu Stanley Ho. Magnata do jogo que ajudou a construir Macau tinha 98 anos

Em Portugal, estava ligado ao Grupo Casino Estoril - que inclui o Casino Estoril, mas também o Casino Lisboa e o Casino da Póvoa.

O magnata do jogo de Macau Stanley Ho morreu esta terça-feira aos 98 anos, em Hong Kong, noticiou a imprensa local. Em Portugal, estava ligado ao Grupo Casino Estoril - que inclui o Casino Estoril, mas também o Casino Lisboa e o Casino da Póvoa.

A família confirmou a morte, declarando que, apesar de saberem que este dia viria, tal "não diminui o [seu] sofrimento".

Em julho de 2009, Stanley Ho sofreu um traumatismo na sequência de uma queda em casa, de acordo com a família, que o confinou a uma cadeira de rodas e ao afastamento dos negócios do jogo, uma época marcada por acirradas disputas entre as "famílias".

Cinco meses depois, aparece em público, pela primeira vez, para a cerimónia de investidura de Fernando Chui Sai On como chefe do Executivo de Macau.

Desde então, raramente foi visto. Surgiu em eventos esporádicos, em fotografias rodeado da família pelo aniversário, bem como, todos os anos, em vídeos exibidos na gala de Ano Novo Chinês da SJM, nos quais mantinha o seu característico sentido de humor.

O incidente pôs um fim efetivo à carreira de empresário, apesar de só muito mais tarde ter vindo a abdicar da presidência das 'holdings' dos seus casinos, em junho de 2018, com 96 anos, em favor da filha Daisy Ho, passando a ser presidente emérito.

Família fala em "uma figura maior do que a vida"

Em nome das quatro mulheres que partilharam a vida com Ho, Clementina Leitão Ho (já falecida), Lucina Laam King Ying, Ina Chan Un Chan e Angela Leong On Kei, bem como de todos os seus filhos e netos, a família fala numa "profunda tristeza" pelo falecimento do "amado patriarca", numa nota enviada à agência Lusa.

"Cercado por todos os membros da sua família, Dr. Ho faleceu pacificamente" em Hong Kong, "uma figura maior do que a vida, cuja visão sem paralelo, espírito empreendedor, desenvolto e temerário foram amplamente reconhecidos e respeitados", salientou o mesmo texto.

"Para nós, ele foi e sempre será o nosso modelo inspirador. Passou-nos valores importantes. Ensinou-nos a ver possibilidades em territórios novos e desconhecidos, a abraçar desafios com tenacidade e resiliência, a ser compassivo e empático, a retribuir à sociedade, a apreciar a nossa herança cultural e, acima de tudo, a sermos patrióticos no nosso país", sublinhou a família.

Entre as "muitas vitórias que conquistou nos 98 anos de vida, o carisma do Dr. Ho, o seu sentido de humor e o amor pela dança estarão entre as muitas qualidades pelas quais os seus pares se lembrarão dele com carinho", referiu.

"Mas para nós, sua família, o seu legado será o amor incondicional que demonstrou. Embora soubéssemos que esse dia chegaria, nenhuma palavra poderia expressar adequadamente a consciência da nossa perda. A sua falta será sentida por todos os membros da família e por todas as vidas que ele tocou", acrescentou.

Figura incontornável no antigo território administrado por Portugal, e um dos homens mais ricos da Ásia há décadas, a fortuna pessoal de Ho foi estimada em 6,4 mil milhões de dólares (5,9 mil milhões de euros), quando se reformou em 2018, apenas alguns meses antes do 97.º aniversário, referiu o jornal South China Morning Post, de Hong Kong, cidade onde vivia.

Stanley Ho fica para a história como o magnata dos casinos de Macau, terra que abraçou como sua e cujo desenvolvimento surge indissociavelmente ligado ao seu império do jogo.

"Muito mais do que o homem dos casinos"

O presidente da Associação de Advogados de Macau disse à Lusa que o amigo e magnata do jogo era "mais do que os casinos, o homem que ajudou a mudar" o território.

"É uma notícia muito triste para mim e para todos os amigos que deixa, para a sua família, porque estamos a falar de um homem superior, um homem inteligente, culto, que fez muito por Macau desde os anos 60, responsável por muita da transformação, e que se soube adaptar ao longo da sua longa vida", afirmou Jorge Neto Valente.

"A verdade é que foi muito mais do que o homem dos casinos: político, financeiro, comercial, pioneiro em muitas vertentes, sobretudo em Macau, de onde foi muitas vezes ponte entre a administração portuguesa e a China", acrescentou.

Neto Valente conheceu Stanley Ho há mais de 40 anos. "Eu era muito jovem, ele já mais maduro. Sempre me estimou. Sempre me tratou bem, era de resto uma pessoa de uma memória prodigiosa, que se recordava das relações com as pessoas, e cruzámo-nos muitas vezes em fundações e sociedades, para além de ter sido seu advogado, de ter tratado de algumas coisas a nível pessoal", recordou.

Agora, concluiu, "o pensamento das pessoas que o estimavam vai para a família e para os amigos que deixou".

"O turismo moderno chegou a Macau com Stanley Ho"

Também o economista e presidente do Instituto dos Estudos Europeus de Macau, José Sales Marques, disse à Lusa que Stanley Ho foi "o grande empreendedor" do território.

"Stanley Ho não era 'um', mas 'o' grande empreendedor de Macau", salientou, argumentando que "essa ideia é aquela que melhor consegue materializar", descrever "com sucesso" a figura do multimilionário.

O seu empreendedorismo "foi fundamental para transformar a economia de Macau numa verdadeira indústria" ligada ao jogo e ao turismo, defendeu.

Ou seja, sublinhou, "é o industrial do jogo e dos serviços, aquele que transformou a indústria de Macau, muito ligada à manufatura", redimensionando-a à escala internacional.

O Casino Lisboa ficou como o grande ícone do impulso inicial para a internacionalização do jogo em Macau, mas a forma como Ho encarou esta indústria num "modelo de integração vertical", onde as agências de viagens, a introdução dos barcos rápidos de ligação entre Hong Kong e Macau, bem como a participação na constituição da companhia aérea Air Macau são a prova de como "foi pioneiro" nesta área, frisou Sales Marques.

"A forma como reduziu, com a introdução dos barcos rápidos, de três para menos de 90 minutos o tempo de ligação entre Macau e Hong Kong, por exemplo, foi uma autêntica revolução", assinalou.

Ou seja, disse, "o turismo moderno chegou a Macau com Stanley Ho", que se tornou num "marco indelével na história" do território que passou "pelas atividades culturais, pelo entretenimento, pela fundação da televisão" no antigo território administrado por Portugal.

O economista sustentou que Ho "foi uma figura que marcou uma época em Macau e que fazia muita falta neste novo mundo do entretenimento do jogo".

Um "amigo de Portugal e dos portugueses"

O último governador de Macau, Vasco Rocha Vieira, considerou hoje que o mundo perdeu, com a morte do empresário Stanley Ho, um "amigo de Portugal e dos portugueses".

"Recordo um homem inteligente, versátil, agradável no trato, respeitador das suas posições e das suas competências", disse Rocha Vieira.

No quadro do contrato, o empresário apoiou vários projetos no período de transição, com destaque para o aeroporto, mas ajudou também várias causas sociais no território e o projeto do Centro Científico e Cultural de Macau, em Lisboa.

"Foi uma personalidade de uma época", esteve "casado com uma portuguesa de Macau e tinha uma relação afetiva com Portugal", salientou Rocha Vieira.

Já os seus filhos, que gerem os negócios, com destaque para Pansy Ho, que tem participação no Casino do Estoril, "não têm a mesma ligação a Portugal e aos portugueses, embora haja uma continuidade das relações económicas".

"São épocas diferentes, relações e ligações afetivas diferentes", disse.

Quanto ao empresário, Stanley Ho sabia "estar em cada situação de acordo com aquilo que lhe compete: era um homem com quem se podia jogar ténis e no dia seguinte de manhã estar a discutir assuntos importantes para Macau e Portugal".

O acordo que lhe concedeu exclusividade nos casinos foi assinado ainda durante o Estado Novo e foi respeitado até ao fim, mas Stanley Ho "esteve para lá da sua obrigação do contrato do jogo", mostrando-se sempre disponível para os pedidos da administração portuguesa.

A Portugal cabia o papel de "retirar o melhor proveito desse contrato", com apoios em várias ordens enquanto a Stanley Ho o objetivo era "explorar as virtualidades do contrato de jogo", disse.

Houve sempre um "respeito mútuo muito grande porque havia um resultado positivo" para as duas partes, numa relação fácil, acrescentou Rocha Vieira.

O nono filho de uma família de empresários

Nascido a 25 de novembro de 1921 em Hong Kong, Stanley Ho fugiu à ocupação japonesa para se radicar na então portuguesa Macau, onde fez fortuna ao lado da mulher macaense, oriunda de uma das mais influentes famílias da altura.

Na década de 1960, conquista, com a Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, o monopólio de exploração do jogo, que manteve por mais 40 anos, até à liberalização, que trouxe a concorrência dos norte-americanos, ainda assim longe de lhe roubar a hegemonia.

Stanley Ho viria a deixar o seu 'cunho' na transformação do território -- desde a dragagem dos canais de navegação -- uma das imposições do próprio contrato de concessão de jogos -- à construção do Centro Cultural de Macau, do Aeroporto Internacional ou à constituição da companhia aérea Air Macau.

Ao longo da sua vida de empresário ligado ao sector do jogo, Stanley Ho nunca se cansou de explicar as suas origens: um pai bem instalado na vida que perde a fortuna na guerra, um filho ambicioso que troca os estudos pelos negócios, que troca a britânica Hong Kong pela portuguesa Macau e que na cidade faz fortuna ao lado da mulher Clementina.

Apesar de ter negado dezenas de vezes seguir orientações de mestres de feng-shui, Stanley Ho era apontado como alguém que não tomava uma decisão sem consultar os adivinhos chineses, mas certo é que a vida do magnata está recheada de conceitos e preconceitos que o ligam à geomancia chinesa.

Ninguém se lembra de passar no hotel Lisboa sem ver obras e ninguém se recorda de alguma palavra menos carinhosa a Clementina Leitão Ho, a sua "adorada esposa" como mandou escrever nos ramos de flores que levou ao funeral da sua única, pelo menos conhecida, verdadeira mulher, apesar de serem conhecidas outras três mulheres e 13 filhos fora do casamento.

Mesmo depois da morte de Clementina, Stanley Ho dizia querer continuar a cumprir os seus desejos de apoio aos mais desfavorecidos e à educação em português na cidade, valorizando a condição de macaense da esposa.

Com quatro "famílias" e 17 filhos - Robert, filho de Clementina, morreu com a mulher num acidente na marginal em Lisboa deixando duas filhas que ficaram a cargo de Stanley Ho - o magnata está ligado ao desenvolvimento de Macau e Macau ao crescimento da sua fortuna.

Ganhou milhões, mas também investiu milhões e durante anos foi o principal empregador privado da cidade.

De nacionalidade chinesa, britânica e portuguesa, Stanley Ho era um produto de Macau, de Hong Kong e da China, um patriota que ia a leilão comprar antiguidades roubadas à mãe-pátria.

Cascais tem uma rua com o seu nome

Em 1998, foi dado o seu nome a uma avenida e Stanley Ho tornar-se-ia no primeiro chinês na História de Macau a receber tal honra em vida. Dez anos mais tarde, por ocasião do 50.º aniversário da Estoril Sol, Cascais prestou-lhe igual homenagem, a primeira outorgada em Portugal, e em vida, a um cidadão chinês.

Além das mais altas condecorações em Macau e em Hong Kong, Stanley Ho, de nacionalidade chinesa, britânica e portuguesa, foi agraciado por Portugal, nomeadamente com a Grã-Cruz da Ordem do D. Infante D. Henrique, e em diversos pontos do mundo, como França, Reino Unido ou Japão.

Stanley Ho também desempenhou importantes funções políticas nos processos de transição de Macau e de Hong Kong, foi membro do Comité Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, sendo-lhe também reconhecida a veia de filantropo.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG