Lima Duarte: "É Sinhozinho Malta na Presidência e Viúva Porcina na Cultura"

Ator brasileiro, 89 anos, comparou o presidente Jair Bolsonaro com um famoso papel que interpretou em Roque Santeiro e a nova secretária da Cultura, Regina Duarte, ao par dele nessa novela

O ator brasileiro Lima Duarte comparou a provável futura secretária da Cultura, Regina Duarte, e o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, ao famoso casal que ele e a atriz protagonizaram na novela Roque Santeiro (1985): "É perfeito para o Brasil de hoje: Sinhozinho Malta na Presidência e Viúva Porcina na Cultura."

"Claro que é um Sinhozinho Malta, modéstia à parte, sem o charme do próprio. Bolsonaro e charme são duas coisas incompatíveis", acrescentou à Folha de São Paulo o ator de 89 anos, fazendo um paralelismo entre a sua personagem, um coronel da cidade fictícia de Asa branca, e o atual presidente.

"Agora, a Porcina, a Regina... não sei no que ela vai se meter. Não quero emitir opinião sobre ela como pessoa, se vai dar certo, se não vai dar certo. Que seja feliz", prosseguiu Lima Duarte, que diz conhecer mal a atriz com a qual contracenou: "Depois da novela vimos-nos muito pouco. Cada um seguiu a vida para seu lado."

Refira-se que a atriz Regina Duarte aceitou esta segunda-feira substituir o dramaturgo Roberto Alvim, demitido depois de parafrasear o ministro da propaganda nazi, Joseph Goebbels, durante um discurso nas redes sociais, na Secretaria de Estado da Cultura do governo do Brasil. Ela, no entanto, diz que começará nesta terça-feira "um período de testes", uma espécie de "noivado", e que visitará na quarta-feira a secretaria ainda nesse contexto, altura em que, ao que tudo indica, dará o sim definitivo. O presidente da República, Jair Bolsonaro, afirmou que "o noivado com Regina Duarte trará frutos ao país".

Protagonista de sucessos estrondosos, sobretudo em telenovelas, Regina Duarte é uma das raras artistas do país simpatizantes de Bolsonaro, razão pela qual outros atores já criticaram a sua posição.

Regina Blois Duarte, que completa 73 anos no dia 5 de fevereiro, nasceu em Franca, cerca de 450 quilómetros a norte de São Paulo, mas cresceu, sobretudo, em Campinas, a cerca de cem quilómetros da maior cidade do Brasil.

Filha de uma professora de piano, de quem terá herdado a inclinação artística, e de um militar, a quem pode ser atribuído o lado conservador da sua personalidade, estreou-se no teatro aos 22 anos, interpretando Compadecida, personagem que dava nome à peça baseada no Auto da Compadecida, obra de Ariano Suassuna, ao lado de outros gigantes, como Armando Bógus, 17 anos mais velho, ou Antônio Fagundes, dois anos mais novo.

Na televisão, começou ainda mais cedo, completando 55 anos de carreira em 2020. Ganhou a alcunha de "namoradinha do Brasil" depois de interpretar Patrícia na novela Minha Doce Namorada, já na TV Globo, em 1971. Seguiram-se êxitos como a novela Selva de Pedra - que chegou a 100% de audiência - e a série Malu Mulher, em 1979.

Como Malu, a atriz tornou-se um ícone do feminismo no Brasil - e em Portugal, onde a série foi exibida -, abordando temas até então tabu na televisão brasileira, mais ainda durante o período da ditadura militar (1964-1985), como sexo, orgasmo, violência doméstica, divórcio, menstruação, aborto e virgindade. Por causa disso, alguns episódios sofreram ação da Censura Federal e veto.

Em 1985, quando interpretava um dos seus maiores sucessos - Viúva Porcina em Roque Santeiro - a atriz fez a sua primeira intervenção pública numa eleição. Recomendou o voto em Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, de centro-direita, para prefeito de São Paulo em vez de Eduardo Suplicy, do PT, de esquerda. O objetivo, dizia, era concentrar o voto útil contra o favorito Jânio Quadros, visto como um populista de direita com discurso anticorrupção.

Mas foi a sua intervenção antes das eleições presidenciais que elegeriam Lula da Silva, em 2002, que a colocaram no lado contrário da barricada da maioria da classe artística. Ela apoiou José Serra, o candidato da continuidade do governo federal de Fernando Henrique Cardoso.

Mais recentemente, apoiou os movimentos pela destituição de Dilma Rousseff e confessou simpatizar com a candidatura presidencial de Bolsonaro. "Quando conheci Bolsonaro encontrei um cara doce, um homem dos anos 1950, que faz piadas homofóbicas, mas da boca pra fora, um jeito masculino como o [escritor Monteiro] Lobato, que chamava o brasileiro de preguiçoso e dizia que lugar de negro é na cozinha, sem nenhuma maldade."

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