Kim inaugurou mega-cidade. E levou a gabardina de cabedal preta

Chamada Samjiyon, a cidade tem uma pista de esqui e pode receber quatro mil famílias. O projeto é apresentado como o "epítome da civilização moderna". Mas a indumentária do líder norte-coreano também está a dar que falar.

Vestido com a sua gabardina preta de cabedal, Kim Jong-un cortou a fita vermelha e inaugurou a cidade de Samjiyon, apresentada pelos media estatais da Coreia do Norte como o "epítome da civilização moderna".

Com capacidade para acolher quatro mil famílias, a cidade é constituída por blocos de apartamentos novos, infraestruturas médicas e culturais, bem como uma pista de esqui. A cidade - um projeto que se tornou na imagem de marca de Kim - fica situada junto ao monte Paektu, a montanha sagrada que os norte-coreanos acreditam ser o local de nascimento de Kim Jong-il, o pai e antecessor no poder.

"É o seu significado como local de nascimento de Kim Jong-il que tornam o projeto de construção da cidade tão importante", explicou à BBC Colin Zwirko, correspondente da NK News.

Apesar de a cidade estar a ser apresentada como um modelo pelas autoridades e media oficiais norte-coreanos, no exterior não faltam críticas à opulência de uma obra num país onde "muitos sofrem com a falta de alimentos, de combust​​​​​ível, de eletricidade, de água corrente e de outras necessidades básicas", como denuncia a ONG National Committee on North Korea. A mesma fonte denuncia ainda o recurso a trabalho escravo durante a construção da cidade.

A obra - descrita como uma "utopia socialista"- começou há dois anos. Na verdade já existia nesta zona uma localidade, o que permitiu remodelar alguns dos edifícios aos quais se juntaram outros novos. A construção acabou por sofrer vários atrasos, sobretudo por falta de materiais e de mão-de-obra, devido às sanções internacionais a que a Coreia do Norte está submetida em retaliação contra o seu programa nuclear.

À procura de um estilo próprio

Sorridente, com os edifícios nevados em fundo, no momento de cortar a fita em Samjiyon, Kim Jong-un exibia o seu novo visual de estimação: a gabardina preta, de cabedal, com o cinto apertado. O líder norte-coreano, que habituou o mundo aos seus sobretudos pretos, aos casacos à Mao e aos óculos de massa pretos - um estilo herdado do pai - parece agora decidido a deixar a sua marca no estilo da política norte-coreana.

A primeira vez que Kim exibiu a sua gabardina foi na semana passada, durante o teste de uma rampa de lançamento de rockets. O penteado, esse é que se mantém: rapado dos lados e mais comprido em cima.

Passados oito anos sobre a sua chegada ao poder, em dezembro de 2011 quando sucedeu ao pai por morte deste, Kim estará a tentar afirmar o seu poder através da moda. Na altura, o jovem e inexperiente líder destacou-se pelas purgas - que incluíram a execução do seu tio - bem como pela promoção dos que lhe eram fiéis, como a irmã mais nova, Kim Yo-jong.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...