Juncker despede-se dizendo que houve "razões obscuras" no fim do processo do spitzenkandidat

Na última conferência na sala de imprensa na sede da Comissão Europeia, em Bruxelas, o presidente cessante, Jean-Claude Juncker, despediu-se com alertas e críticas à nomeação de Ursula Von der Leyen.

Jean-Claude Juncker "não é homem de despedidas", mas compareceu esta sexta-feira, uma última vez, na sala de imprensa do edifício Berlaymont, para uma derradeira ronda de respostas aos jornalistas. Ora num tom irónico, ora num tom emotivo, o único presidente da Comissão Europeia eleito nas urnas lamentou, em tom sério, o processo de nomeação da sua sucessora, Ursula von der Leyen, com o "erro" do fim do processo designado como Spitzenkandidat.

"A ideia de fazer campanha em 2014 sendo Spitzenkandidat foi boa, a ideia de não repetir o processo em 2019 foi um erro", afirmou Juncker, admitindo gostar "desta situação particular, de ter sido o único que não teve sucessor nas funções".

"Mas, digo que é também com tristeza que devo expressar que foi um pequeno avanço democrático que foi suprimido, por razões obscuras", deixando no ar a crítica enigmática, sem esclarecer se se referia às supostas pressões dentro do Conselho Europeu. Da parte dos governos de um grupo de países, - entre os quais a Polónia e a Hungria -, em litígio com Bruxelas, acusados de violações ao Estado de Direito.

Antes, Juncker abordou o tema conduzido pelo comissário para a política da Regulação do Estado de Direito, Frans Timmermans, - que chegou a ser apontado como o Spitzenkandidat com maior consenso, entre Estados e famílias políticas, para a presidência da Comissão, depois de vários anos em rota de Colisão com Varsóvia e Budapeste.

"Tive um amigo, - que continua a ser um bom a migo - Jean-Claude Trichet, [ex-presidente do] Banco Central [Europeu], que sempre que no Eurogrupo queria que os ministros o ouvissem, dizia: 'estou extremamente preocupado'. Depois disso, os ministros paravam de ler os respetivos papéis. Quando Trichet dizia 'estou muito preocupado', o assunto era grave", contou Juncker, acrescentando que diz agora "o mesmo no que diz respeito ao Estado de Direito, estou extremamente preocupado".

As afirmações feitas no encerramento do mandato deixam claro que Juncker não ficou satisfeito com a reviravolta no processo de escolha de um sucessor, quando a 2 de julho, numa cimeira marcada por um longo impasse, os 28 deixaram cair o processo que na Comissão e no Parlamento era tido com um avanço democrático.

O mandato de Ursula é "um problema dela"

Em declarações ao DN na última cimeira europeia em que participou, o presidente cessante já deixava subentendido o desconforto com o fim do processo. Sobre as expectativas em relação ao futuro mandato da sua sucessora, Jean-Claude Juncker respondeu de forma lacónica dizendo que isso "é um problema dela e não meu".

"Vou ajudá-la", tinha, porém, respondido, e acrescentou: "espero que ela cuide da Europa", falando no final da "última" de 148 cimeiras. Hoje, reiterou a ideia, dizendo; "não vou deixar recados a Von der Leyen, a não ser o de que cuide da Europa".

"O euro e eu somos os únicos sobreviventes do tratado de Maastricht, com a minha partida fica só o euro", afirmou na despedida de um mandato único que assumiu depois de concorrer em 2014 às eleições europeias como cabeça de lista do Partido Popular Europeu.

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