Jacinda Ardern: "Muito pouco do que fiz foi planeado. Foi intuitivo."

Primeira-ministra da Nova Zelândia explica que a sua reação ao ataque terrorista de Christchurch não seguiu qualquer estratégia política: "Temos que fazer o que sentimos que é correto."

Na manhã de 15 de março, uma sexta-feira, a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, estava numa carrinha com o presidente da câmara de New Plymouth, uma pequena cidade na costa norte da ilha. Quando soube do ataque terrorista que matou 50 pessoas em Christchurch, Ardern teve pouco tempo para preparar a sua comunicação ao país. Pegou numa folha que tinha o programa do evento em que tinha participado na noite anterior e nas costas dessa folha anotou algumas ideias: "Uma pessoa em prisão preventiva, mas pode ser outro o atacante", "ato de extraordinária violência, não tem lugar na NZ." "Eles são nós."

"Sabia exatamente aquilo que queria dizer", explicou agora, numa entrevista ao jornal britânico The Guardian , dez dias depois do ataque. "Quando soube que uma mesquita tinha sido atacada foi imediatamente claro para mim o que queria dizer sobre isso. Mas, não, não pensei em palavras específicas. Pensei apenas em sentimentos e naquilo que queria transmitir às pessoas."

Poucas horas depois do acontecimento, Ardern não teve dúvidas em classificá-lo como um ato de terrorismo e recusou-se a referir o nome do atacante. No dia seguinte, a primeira-ministra voou para Christchurch, onde se encontrou com elementos da comunidade muçulmana e levou um lenço na cabeça, que tinha pedido a uma amiga: "Se estivesse em casa, teria sido diferente, eu teria lenços. Mas como não estava, tive que pedir emprestado um lenço, porque para mim é um sinal de respeito. É o que se faz, naturalmente. Não pensei muito nisso", revela agora.

"Muito pouco do que fiz foi planeado. Foi intuitivo. Penso que é essa a natureza de um acontecimento destes", explicou Jacinda Ardern ao The Guardian. "Há muito pouco tempo para nos sentarmos e pensarmos. Temos que fazer o que sentimos que é correto."

Logo a seguir, uma comissão de inquérito foi nomeada para investigar o caso e o parlamento iniciou a reforma da lei de posse de armas. Ainda há coisas por fazer. Por exemplo, no que toca às redes sociais que permitem a propagação dos discursos de ódio. "Mas esse é um problema global, não é um problema da Nova Zelândia", admite, apelando aos responsáveis pelas várias plataformas que tomem medidas para evitar esse tipo de linguagem que apela à violência.

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