Isolar idosos e doentes. Plano de Bolsonaro saiu da cabeça do "gabinete do ódio"

Ao abraçar plano do grupo de radicais liderados pelo seu filho Carlos, presidente brasileiro ignorou os avisos do ministério da Saúde e os conselhos da ala militar do governo. Mas os cidadãos brasileiros, mantendo-se em quarentena, ignoraram-no a ele.

Jair Bolsonaro afirmou nesta quarta-feira que quer que o confinamento no Brasil por causa do coronavírus seja reservado apenas a doentes e a idosos, os grupos de maior risco. A ideia do "isolamento vertical", como lhe chamou, partiu do núcleo de conselheiros informais conhecido como "gabinete do ódio", liderado pelo seu filho Carlos Bolsonaro. Com o plano, o presidente acredita conseguir minimizar a crise económica decorrente da pandemia e aglutinar os seus apoiantes no combate sempre intenso das redes sociais. Em contrapartida, ao contradizer a Organização Mundial de Saúde (OMS), chocou a opinião pública nacional - e internacional -, a classe política, o poder judicial e até setores do seu próprio governo.

"Cara, você tem que isolar quem você pode. Você quer que eu faça o quê? Eu tenho o poder de pegar cada idoso e levar para um lugar? É a família dele que tem que cuidar dele no primeiro lugar (...) os responsáveis pela minha mãe de 92 são os seus meia dúzia de filhos​", disse Bolsonaro, em frente ao Palácio do Alvorada, onde mora, em comentário ao seu discurso transmitido em direto nas televisões na noite de terça-feira.

Luiz Henrique Mandetta, ministro da saúde de Bolsonaro, que tem sido o rosto da luta contra a propagação do Covid-19, com discurso alinhado à OMS e à maioria dos países, não reagiu ainda ao plano. "Vou conversar com ele [sobre o plano] e tomar a decisão", disse o presidente. Mais tarde, Mandetta disse que só sai do executivo demitido mas fontes próximas dele avisaram que o ministro não está de acordo com o "isolamento vertical".

Enquanto Bolsonaro defende a teoria do "isolamento vertical" em todo o Brasil, a maioria dos governadores estaduais vem praticando medidas muito mais restritivas. Nomeadamente, João Doria, de São Paulo, e Wilson Witzel, que governam os dois únicos estados com mortes por coronavírus contabilizadas. "Alguns poucos governadores e prefeitos, não todos, estão cometendo um crime, rebentando com o Brasil e destruindo empregos" e citou Doria e Witzel, seus ex-aliados mas hoje rivais políticos. "Fazem demagogia barata para se colocarem como salvadores da pátria e esconderem outros problemas", afirmou.

Ao longo do dia, em reunião por videoconferência, Bolsonaro e Doria trocaram acusações.

Outra consequência do isolamento geral da população para Bolsonaro, que no seu discurso ao país pediu o regresso das atividades escolares, a reabertura do comércio e outras medidas, pode ser "a instabilidade democrática". "O Brasil pode ainda sair da normalidade democrática que vocês [imprensa] tanto defendem (...) Não é da minha parte não, fique tranquilo", afirmou o chefe de estado, atribuindo esse risco à oposição de esquerda.

Bolsonaro não se importou com as críticas que o seu discurso recebeu. "Críticas de quem nunca fez nada pelo Brasil até me deixam feliz".

Uma chuva de críticas

Um dos primeiros a manifestar-se foi o presidente do Senado Davi Alcolumbre, infetado com coronavírus: "Neste momento grave, o país precisa de uma liderança séria, responsável e comprometida com a vida e a saúde da sua população".

Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados lembrou que vem pedindo "sensatez, equilíbrio e união". "O pronunciamento do presidente foi equivocado ao atacar a imprensa, os governadores e especialistas em saúde pública".

Ambos são do partido de centro-direita DEM, o mais representado no executivo.

"A pandemia do Covid-19 exige solidariedade e co-responsabilidade. A experiência internacional e as orientações da OMS na luta contra o vírus devem ser rigorosamente seguidas por nós. As agruras da crise, por mais árduas que sejam, não sustentam o luxo da insensatez", afirmou Gilmar Mendes, juiz do Supremo Tribunal Federal.

"A manifestação em cadeia de rádio e televisão do presidente da República contraria as determinações da OMS. Nós continuaremos firmes, seguindo as orientações médicas, preservando vidas. Eu peço a você, por favor, fique em casa", reagiu Wilson Witzel, governador do Rio, do PSC, de direita..

Para Rui Costa, governador da Bahia pelo PT, de esquerda, Bolsonaro devia "acordar". "Não é gripezinha. Vou continuar trabalhando em defesa da vida. Olhar nos olhos das pessoas e dizer: estamos numa guerra. Acorda. Temos que vencê-la. Chega de discurso vazio e delírios. Vamos trabalhar mais e mais. Responsabilidade. Todos contra o coronavírus".

Bolsonarista de primeira hora, o governador de Goias, Ronaldo Caiado, médico de profissão, rompeu colm o presidente. "Ponto final", afirmou.

"Eu não ia voltar ao tema, mas o presidente repetiu opiniões desastradas sobre a pandemia", defendeu Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, presidente de 1995 a 2003. "O momento é grave, não cabe politizar, mas opor-se aos infecciologistas passa dos limites. Se não calar estará preparando o fim. E é melhor o dele que de todo o povo. Melhor é que se emende e cale."

"Vimos em rede nacional um presidente desqualificado mentir, debochar e provocar um país que, apesar dele, luta bravamente e se une para enfrentar umas das maiores crises da história", afirmou Marcelo Freixo, do esquerdista PSOL.

O liberal Kim Kataguiri, do DEM, disse que "o presidente dobrou a aposta do discurso lunático e colocou em xeque as políticas de isolamento defendidas pelo seu próprio ministro da Saúde (...) Em vez de propor soluções, preferiu atacar a imprensa, os governadores e fazer piada em rede nacional. Tragédia anunciada."

Associações médicas juntaram-se ao longo das últimas horas ao coro.

"Gabinete de ódio"

Bolsonaro garantiu que o discurso que motivou reações unânimes de descontentamento foi redigido pelo próprio. Mas a escolha do tom e a iniciativa de o comunicar na noite de terça-feira partiu do "gabinete de ódio", como é chamado, até pelo próprio presidente, o grupo que trabalha num anexo do Planalto.

Composto por Carlos Bolsonaro, segundo filho de Bolsonaro, e por três bolsonaristas remunerados, de 31, 26 e 25 anos, o gabinete tem como prioridade manter viva a chama do confronto com a oposição de esquerda, encarnada sobretudo pelo PT e por Lula da Silva, e com isso deixar a militância bolsonarista em ponto de rebuçado nas redes sociais e nas conversas de bar. Além disso, acusam deputados que entretanto romperam com a família presidencial, como Joice Hasselman, do PSL, ex-partido de Bolsonaro, o "ministério da raiva", outro dos seus epítetos, encarrega-se também de destruir as reputações de quem discordar do presidente.

Foi após reunião com esse núcleo, cujo guru comum é Olavo de Carvalho, filósofo amador radicado nos Estados Unidos, que o discurso à nação foi redigido. A ala militar do governo - seis ministros são generais - opôs-se e sugeriu uma declaração "em tom conciliatório". E o ministro da saúde não foi ouvido.

"Carluxo", umas das alcunhas de Carlos Bolsonaro, subiu para o topo dos assuntos mais comentados no Brasil logo na manhã desta quarta-feira. Antes de ser protagonista neste episódio, já levara à demissão de dois ministros próximos do pai, Gustavo Bebianno e Santos Cruz, e mantivera ataque cerrado a Hamilton Mourão, o vice-presidente do Brasil.

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