"UE fornece munições aos populistas", diz provedora de justiça europeia, dando como exemplo Barroso

Provedora de justiça da União Europeia, Emily O'Reilly, diz-se frustrada "por não existir o reconhecimento da ligação que existe entre condutas condenáveis e o facto de se permitir que os populistas critiquem de forma injusta a UE"

A União Europeia tem dado aos seus atacantes as munições necessárias para eles a atacarem. Quem o diz é a provedora de justiça da UE, Emily O'Reilly, numa entrevista à agência AFP e citada por sites europeus como o Euractiv e o EUObserver.

"A UE tem, regra geral, padrões muito elevados, mas há muitas pessoas por aí que estão dispostas a atacá-la, tanto externamente como internamente. É uma pena que a UE dê munições aos populistas", declarou a provedora, eleita em 2013.

Antiga jornalista, ex-provedora de Justiça da Irlanda, O'Reilly admitiu que "há uma frustração por não existir o reconhecimento da ligação que existe entre condutas condenáveis e o facto de se permitir que os populistas critiquem de forma injusta a UE".

Também ex-comissária para a Informação Ambiental na Irlanda, a provedora de justiça dá como exemplo os casos de Martin Selmayr, ex-chefe de gabinete de Jean-Claude Juncker, bem como o de Durão Barroso, ex-presidente da Comissão Europeia.

O primeiro, de 48 anos, foi promovido a secretário-geral da Comissão, no ano passado, passando automaticamente a mandar em 30 mil funcionários que trabalham para aquela instituição comunitária.

O segundo, de 63 anos, deixou a presidência da Comissão em 2014 e foi para presidente do Conselho de Administração da Goldman Sachs. A nomeação gerou polémica, dada a prestação do ex-primeiro-ministro português na gestão da crise financeira e económica que, desde 2008, assolou a UE. Porém, em 2016, o Comité de Ética da UE considerou que Barroso não violou as regras de ética da UE ao ser contratado pela Goldman Sachs.

"Os casos Selmayr e Barroso tiveram ampla cobertura mediática em todo o mundo e particularmente nos media dos Estados membros e de países não membros que são hostis à UE e eu, pela minha parte, considero isso lamentável", disse O'Reilly , depois de, tanto num caso como noutro, as suas dúvidas e protestos não terem sido acolhidas. Quase todas as recomendações do seu gabinete têm sido aceites pelas instituições europeias, mas, nota a responsável, "as que são relativas aos altos cargos podem fazer estragos maiores por captarem a atenção dos eurocéticos".

O mandato de O'Reilly, de 62 anos, termina depois das eleições europeias de 23 a 26 de maio, mas segundo a AFP, que cita fontes do seu gabinete, a irlandesa pensa candidatar-se a um terceiro mandato.

Esta quinta-feira, Dia da Europa, Barroso esteve em Lisboa e convidou o ex-primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, do PSD, a dar uma aula, fechada à comunicação social, na Universidade Católica Portuguesa.

À entrada para esta iniciativa, o ex-presidente da Comissão, citado pela agência Lusa, declarou-se "mais preocupado com a ausência de defesa do projeto europeu pelos europeístas do que propriamente com a subida dos populismos" na UE.

"Talvez até a subida dos extremismos seja a forma de acordarem os pró-europeus, porque muitos dos pró-europeus, digamos, do centro-esquerda, do centro-direita, até hoje têm dado a Europa como adquirida", considerou Barroso, enquanto Passos Coelho, por seu lado, manifestou a certeza de que "a Europa não se vai desmoronar".

"Que haja debate político, que venham os populistas, e que os moderados, os pró-europeístas tenham a coragem de ganhar esse debate", desafiou o chefe do governo dos tempos da troika, à entrada para a iniciativa, que se intitulou "Conversas sobre a Europa: José Manuel Durão Barroso em diálogo com Pedro Passos Coelho". Promovida pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, o evento, em que segundo a Lusa os jornalistas não puderam entrar, contou com o apoio da Fundação Millenium BCP.

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