Silvana Koch-Mehrin: "Precisamos de homens a advogar a causa feminina"

Deixou a vida partidária em 2014 e diz não sentir saudades. Para essa decisão terá contado o escândalo de plágio da sua tese de doutoramento, que a levou a abandonar a liderança dos liberais alemães no Parlamento Europeu, bem como a vice-presidência do PE. Mas também porque decidiu que era altura de dar novo impulso às mulheres na política. Foi este o tema que a levou ontem a proferir uma conferência na Universidade Católica, em Lisboa, a convite de Durão Barroso, diretor do Centro de Estudos Europeus.

Quando é que se interessou pela política?

Durante a guerra dos Balcãs. Os meus pais envolveram-se muito, e eu também, na ajuda aos refugiados. Aderi ao partido alemão com que me identificava mais, o FDP. Mas nunca pensei ir para a política. Até que no ano anterior às eleições europeias de 2004 o meu líder partidário [Guido Westerwelle] desafiou-me. Nas duas eleições anteriores, o FDP não tinha conseguido os 5%, barreira que garante a eleição. É um daqueles momentos em que se pede para as mulheres avançarem porque parece não haver esperança [risos]. Nenhum dos pesos-pesados do partido queria chegar-se à frente porque perder uma eleição ao nível nacional não era bom para as suas pretensões.

Foi uma surpresa?

Sim e não. Estava a seguir as discussões do meu partido, mas nunca tinha sido candidata nem feito qualquer campanha e foi uma surpresa porque fui a cabeça-de-lista [elegeram sete deputados].

Em 2013 criou a Women in Parliaments (WIP). Qual é o objetivo?

É levar mais mulheres para a política e aumentar a influência e o poder delas. Focamo-nos em áreas em que a diversidade é a mais baixa: paz e segurança; finanças, revolução digital, energia e recursos naturais. Há uma correlação entre a importância e o dinheiro que é atribuído à área e o número de mulheres presentes.

E existe também uma correlação entre a corrupção e a ausência de mulheres?

Vamos dizer da seguinte forma: as mulheres são recém-chegadas à política em comparação com os homens. É um fenómeno relativamente recente. Não existem as velhas redes que os homens têm, e por extensão as redes que exigem favores. Os países que têm números mais elevados de mulheres na política estão bem em muitos outros números, como o da esperança de vida, educação ou corrupção, é um dos sintomas de um país a funcionar bem.

Não parece um pouco estranho que o administrador executivo da WIP seja um homem?

Não, é extremamente importante que não haja só mulheres. O núcleo da rede é constituído só por mulheres, mas na nossa equipa temos homens em funções diferentes, no conselho consultivo temos uma quota de homens de 30%, como José Manuel Durão Barroso, Pascal Lamy ou Muhammad Yunus.

Não é um clube exclusivo para mulheres.

Para mudar as coisas a uma velocidade mais rápida precisamos de homens a advogar a causa [feminina]. O primeiro-ministro [canadiano Justin] Trudeau, o presidente [francês Emmanuel] Macron, que têm um governo paritário, ou o primeiro-ministro sueco [Steffan Löfven], que diz ser feminista. Não há só mulheres a dizerem-se feministas, é importante envolver os homens.

Apesar de na Alemanha a palavra feminista estar associada à luta das radicais e das lésbicas, considera-se feminista?

Sim, subscrevo totalmente o termo feminista. As palavras têm sempre problemas subjacentes. O termo liberal na Alemanha tem um significado diferente de liberal nos EUA. O melhor é explicar o que se quer dizer.

Na Alemanha foi aprovada legislação que garante 30% de mulheres nos conselhos de supervisão das empresas e igualdade salarial. Estas medidas são suficientes?

É preciso fazer mais para criar uma mudança nas mentalidades, para que a harmonização do trabalho com a vida familiar seja prioridade, para homens e mulheres. Vou dar um exemplo positivo do que a lei pode fazer. Na Islândia, quando a licença de maternidade mudou para três meses para a mãe e três meses para o pai, sem poderem trocar, mudou tudo. Os empregadores passaram a olhar para homens e mulheres da mesma forma. E também o trabalho em casa passou a ser partilhado de forma diferente. Há muitas mulheres em posições de destaque, muitas diretoras de empresas. A diferença salarial está algures entre os 2% e os 5%. Não é perfeito, mas é o mais perto que temos.

É favorável às quotas?

Deixe-me esclarecer que a WIP não toma posições a favor ou contra quotas. Como mulher que esteve na política, não gosto das quotas mas sem quotas demorará demasiado tempo a chegar à mudança. Na Alemanha, o número de mulheres eleitas para o Parlamento voltou a descer por causa da entrada da AfD, que tem poucas mulheres. No Ruanda há uma quota de 30% no Parlamento, mas há 60% de mulheres porque a quota ajudou a mudar a perceção do que é uma mulher enquanto líder.

Fez parte da delegação das relações com o Magrebe. Como vê a situação das mulheres na política nesses países?

Nalguns países registaram-se avanços, noutros, como o Egito ou a Líbia, a situação está difícil. O Banco Mundial faz um relatório anual sobre como homens e mulheres são tratados de forma diferente pela lei. Só cerca de 20 países no mundo tratam homens e mulheres de forma igual.

A União Europeia tem 28 países...

Exato, nem todos os países da UE estão conforme. Por exemplo, em França há leis que não permitem as mulheres levantarem pesos. Mas as enfermeiras têm de pegar em pessoas. Na realidade a lei não é aplicada em toda a sua extensão, mas uma mulher que queira trabalhar nas obras não pode.

A escritora turca Elif Shafak disse que os direitos das mulheres não são um dado adquirido.

Sem dúvida. O que está a acontecer nalguma legislação nos Estados Unidos é um ataque ao direito das mulheres ao seu próprio corpo. O Fórum Económico Mundial mede anualmente os anos que faltam para homens e mulheres estarem em pé de igualdade salarial em termos globais. Há dois anos calculava-se que faltavam noventa e tal anos, no ano passado mais de 140 e este ano passámos para os 170. Estamos a regredir.

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