"Rússia já é grande exportadora alimentar e quer duplicar números"

Entrevista ao ministro russo do Desenvolvimento Económico, Maxim Oreshkin, que está de visita a Portugal. Flutuação do preço do petróleo já afeta menos a economia e diversificação passa pela agricultura mas também pela tecnologia.

Estas recentes notícias da OPEP decidir reduzir a produção de petróleo para fazer subir o preço do barril são de grande importância para a economia russa?

Não, já não é totalmente o caso. Porque, se olhar para os números-chave da economia russa, estes mudaram radicalmente para melhor nos últimos anos. Fizemos várias reformas estruturais macro-económicas, como a implementação da flutuação da taxa de câmbio, controlo da inflação, novas leis fiscais, e um novo mecanismo que isola a economia doméstica do preço volátil do petróleo. E escolhemos os 40 dólares como preço de referência do barril de petróleo para todos os cálculos fiscais, por exemplo. Este ano teremos um superávite fiscal de 2,5% do PIB, com o preço médio do petróleo em 70 dólares.

O que me está a dizer é que a economia russa está já ser diversificada de modo a escapar à dependência do petróleo que acontecia até há bem poucos anos?

Olhámos para a experiência de outros países, por exemplo a Noruega, fomos buscar o melhor dessas experiências e implementámo-lo na Rússia. Isso significa que apesar de toda a volatilidade que persiste no preço do petróleo, o impacto na nossa economia doméstica é mesmo baixo.

O grande modelo foi a Noruega?

Sim. E, por exemplo, nos meses de setembro e outubro, acumulámos no nosso fundo soberano seis a sete mil milhões de euros por mês. Por causa do aumento do preço do petróleo e por causa de estarmos a absorver todo o valor extra que traz. E quando o preço do petróleo cai, aquilo que acontece agora é apenas que acumulamos um pouco menos no nosso fundo soberano.

Há quem diga que a agricultura pode ser em breve um grande recurso da economia russa. Neste momento, o que vale o sector?

Se recuarmos dez anos veremos que a Rússia importava então uma grande quantidade e variedade de produtos agrícolas, sobretudo dos países europeus. De Portugal importávamos muitas peras, por exemplo. O que acontece hoje é que a nossa produção agrícola já é de 20 mil milhões de euros acima do necessário, exportamos assim 20 mil milhões de euros de produtos alimentares por ano. Milho, trigo, diferentes tipos de cereais e nos próximos anos este valor na exportação agro-alimentar poderá mesmo duplicar. Porque estamos a melhorar muito na produção de carne, de diferentes tipos de carne.

Esse desenvolvimento extraordinário da produção agro-alimentar foi uma resposta às sanções internacionais?

Isso também ajudou, porque a competição vinda dos mercados externos diminuiu, mas é menos uma história de sanções e mais uma história de adopção de políticas internas com o objetivo de trazer a produção para novos patamares.

Qual é a previsão de crescimento do PIB russo para o ano de 2018?

Depois de um período muito difícil, sobretudo em 2015 e 2016, quando a quebra no PIB rondou os 3%, um conjunto de reformas macro-económicas ajustou a economia russa para um preço mais baixo do petróleo. Por exemplo, em 2013, para o equilíbrio orçamental, era necessário o barril de petróleo a mais de 100 dólares, hoje basta ser 45 a 50 dólares. Por isso a nossa preocupação em relação ao petróleo, e daí a importância desta decisão da OPEP, tem mais que ver com a estabilidade do mercado a longo prazo do que em atingir um valor específico no imediato. Um preço na ordem dos 45 a 50 dólares por barril, neste momento, é confortável para nós.

E em relação à previsão de crescimento este ano?

Voltámos a crescer no ano passado e este ano esperamos entre 1,5% e 2%. Um dos aspetos que nos condiciona e é menos falado do que o preço do petróleo é a dinâmica demográfica. O influxo das novas gerações no mercado de trabalho tem sido baixo, por causa da profunda quebra da natalidade nos anos 1990. Assim, no futuro prevemos melhoria no desempenho económico graças a uma nova dinâmica demográfica e também pela aposta na digitalização da economia russa e na introdução de novas tecnologias.

Os produtos tecnológicos podem vir a tornar-se também uma grande exportação russa?

Bem, bem já temos grandes companhias, como a Kaspersky e a Yandex, presentes no mercado global, e acredito que ainda temos margem para aumentar as exportações nessa área, mas mais importante para nós é implementar a digitalização na economia doméstica. Porque se comparar a produtividade da economia russa com a da União Europeia, com a dos Estados Unidos ou com alguns dos pesos-pesados asiáticos, há ainda um fosso significativo. Confiamos que através da digitalização a Rússia conseguirá taxas de crescimento económico mais altas graças a maior competitividade nos mercados globais.

Desta sua visita a Portugal, em que se encontrou com o ministro da Economia, o que se pode esperar em termos de relações comerciais e investimento?

É curioso que se olhar para as relações da Rússia com os diferentes países da União Europeia, há casos em que as relações políticas são más mas as económicas boas. Ora, o que é interessante nas relações com Portugal é que são muito boas a nível político, muito boas nos Negócios Estrangeiros, mas ainda há muito por fazer a nível económico. Estas reuniões de trabalho têm como objetivo definir áreas em que podemos progredir em ternos de relação. Desde o turismo às infra-estruturas, também o fabrico de material de aviação, em que há várias empresas portuguesas envolvidas na cadeia de fornecimento e do nosso lado há novidades em termos de aviões a serem colocados no mercado. No próximo ano procuraremos concretizar algumas destas possibilidades.

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