"O Japão está determinado a reforçar a aliança com os EUA"

Entrevista a Jun Niimi, novo embaixador do Japão em Portugal. Fala sobre a democracia japonesa 150 anos depois da Revolução Meiji, da atual ameaça nuclear-norte-coreana, do simbolismo do imperador e também do manga e do anime.

Embaixador do Japão em Portugal desde finais do ano passado, Jun Niimi conhecia já o país de umas férias antigas, durante uma das suas missões como diplomata na Europa, e recorda-se de muito jovem ter visto uma equipa portuguesa com Eusébio a jogar numa ida ao arquipélago nipónico. Nesta entrevista, fala da ameaça nuclear da Coreia do Norte, define como muito sólida a aliança militar com os Estados Unidos e reafirma a candidatura do Japão a um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Em 2018 assinalam-se os 150 anos da Revolução Meiji. Devemos datar a tradição democrática no Japão do pós-Segunda Guerra Mundial ou podemos ver a sua origem logo na segunda metade do século XIX?

Sobre a tradição democrática na sociedade japonesa, já nos tempos mais antigos havia o sentimento de que os problemas deviam ser resolvidos pela concertação, mas no sentido moderno da palavra democracia penso que a Restauração Meiji, a Revolução Meiji de 1868, é o ponto de partida.

Então pode dizer-se que quando, após a derrota de 1945, o país adota uma Constituição democrática, está a regressar a um caminho que conhecia?

Sim. A Restauração Meiji é feita no sentido da modernização. Assim, trouxe o fim do feudalismo e a introdução do sistema democrático moderno. Por exemplo, elaborámos uma Constituição e criámos um Parlamento. Tínhamos um governo e introduzimos a independência do sistema judicial. Nisso seguimos o exemplo democrático do Ocidente. Mas havia certas limitações, como só poderem de início votar os mais ricos e abastados. Em 1925, introduzimos o sufrágio universal masculino. E o voto das mulheres chegou logo depois da Segunda Guerra Mundial. Sintetizando, tínhamos um sistema democrático, mas não a cem por cento, isso só aconteceu com a atual Constituição e hoje estamos orgulhosos de termos construído uma sociedade tão democrática.

O Japão é também a terceira economia mundial, mas nos últimos anos com fraco desempenho em termos de crescimento. Quais são os grandes desafios económicos para o seu país?

Se olharmos para a história da economia japonesa, tivemos taxas de crescimento muito elevadas nas décadas de 1960, 1970 e 1980, mas infelizmente acabaram. Hoje enfrentamos uma diminuição da população e o envelhecimento da sociedade e com estas condicionantes demográficas é muito difícil voltar a ter elevadas taxas de crescimento económico. O nosso objetivo agora é ter uma economia sustentável que possa acomodar o envelhecimento da sociedade japonesa e a redução do número de nascimentos.

Quão grave é o envelhecimento da população japonesa? Como vai isso afetar o país não só por haver menos gente a trabalhar como pelos custos de suportar uma grande população idosa? A sociedade japonesa está consciente do problema, que aliás vai afetar muitos outros países em breve?

Os japoneses estão bem informados da realidade do envelhecimento da sociedade. E por isso temos vindo a preparar-nos. O atual governo advoga a chamada Abenomics, que além de ser um slogan positivo tem outra dimensão, que passa pelas políticas fiscal e económica. E também por reformas estruturais, que são indispensáveis para garantir a tal economia sustentável. Também temos apostado nas políticas sociais, por exemplo tentando travar o declínio na natalidade através de legislação que garanta as licenças de maternidade ou aumentando o número de creches para que as mulheres possam conciliar trabalho e filhos. Também têm sido feitos esforços para reduzir os custos educacionais. E ainda procuramos incentivar a produtividade dos mais idosos. Como noutros países, infelizmente o envelhecimento da sociedade obriga a subir a idade mínima para ter acesso à pensão. É este conjunto de políticas que nos faz estar confiantes.

Em termos de segurança regional, até que ponto o Japão se sente ameaçado pelo poderio nuclear da Coreia do Norte e pelos crescentes gastos militares de vizinhos como a China?

A Ásia Oriental é bastante instável em termos de segurança, sobretudo se comparada com a Europa Ocidental. A Europa tornou-se homogénea depois do fim da Guerra Fria, com os países a partilharem o ideal de democracia liberal. E também, depois da reunificação alemã, não restam países divididos. Já no caso da Ásia Oriental, há países que não adotaram a democracia, como a Coreia do Norte ou a China, que continuam com sistema de partido único. E subsistem os problemas de Taiwan e das duas Coreias, ainda heranças da última guerra mundial. Neste contexto, a grande ameaça de segurança neste momento é o desenvolvimento de armas nucleares e mísseis pela Coreia do Norte. Toda a comunidade internacional condena a Coreia do Norte e impôs sanções através das Nações Unidas. Assim, o governo japonês exerce pressões e favorece o diálogo em simultâneo e só se os norte-coreanos tomarem atitudes positivas é que devem ser recompensados. O governo japonês defende que as fortes pressões sobre a Coreia do Norte devem prosseguir para que esta mude de atuação e renuncie às armas nucleares.

O recente diálogo entre as duas Coreias em vésperas dos Jogos Olímpicos de Inverno de PyeongChang muda alguma coisa, do ponto de vista do Japão?

Não. Entendemos que é um diálogo centrado nos Jogos Olímpicos, sobre se desfilam sob a mesma bandeira e se há atletas do Norte a competir no Sul, e por isso limitado. Como os Jogos Olímpicos são um símbolo de paz acolhemos bem esse diálogo, mas é assunto totalmente diferente da questão do desenvolvimento de armas nucleares e mísseis.

O presidente Donald Trump chegou a acusar parceiros como o Japão de gastarem pouco em defesa e dependerem demasiado dos Estados Unidos, mas depois do encontro com o primeiro-ministro Shinzo Abe e a visita a Tóquio a aliança parece sólida. É assim?

Sem dúvida. Os dois líderes repetidamente confirmaram a importância da aliança entre o Japão e os Estados Unidos. Partilhamos a convicção de que esta aliança é essencial para estabilidade na Ásia Oriental e para o mundo por acréscimo. Estamos, pois, determinados não só a manter como a reforçar a aliança entre os dois países.

Qual é a importância estratégica para o Japão de uma revisão do artigo 9 da Constituição, um dos que afirmam o carácter pacífico do país após a Segunda Guerra Mundial?

O artigo 9 é o âmago da política de defesa do Japão, e nele advogamos o pacifismo, mantendo forças de autodefesa. Portanto, estas forças, como o nome diz, são para proteção. Não temos armas de longo alcance, mísseis ou porta-aviões que permitam fazer guerra à distância. São só para defesa, não para atacar outros países. É verdade que hoje há um debate na opinião pública sobre uma possível emenda do artigo 9 mas, caso seja eventualmente emendado, quem toma a decisão é o Parlamento e o povo japonês. Portanto, não me compete julgar precipitadamente se haverá ou não revisão. O argumento principal de quem apoia a possível emenda é para harmonizar a cláusula de renúncia de forças armadas com o facto de forças de autodefesa ser apoiado pela maioria do povo.

O Japão continua firme na candidatura a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU?

Sim. O princípio da cooperação internacional é o âmago da Constituição japonesa, como expresso no preâmbulo. E nesse sentido o Japão é o segundo financiador das Nações Unidas, além do grande esforço na ajuda ao desenvolvimento e do contributo para as operações de manutenção da paz. É pois natural que o Japão queira assumir um papel mais ativo e acreditamos que fazendo parte do Conselho de Segurança poderemos fazer mais.

O soft power japonês impressiona cada vez mais, desde o manga e o anime à moda do sushi que se impõe no Ocidente. É uma fonte de satisfação para si este entusiasmo pelo Japão?

Sem dúvida. E é um grande milagre para os japoneses. Eu faço parte de uma geração que cresceu a ver os desenhos animados da Walt Disney ou os filmes de Hollywood e a ir comer hambúrgueres ao McDonald"s. E esta experiência será partilhada por muita gente mundo fora. Claro que fico feliz quando vejo afinidade pelo Japão através deste soft power. Manga, anime, jogos de computador, sushi, às vezes chamamos a isto Cool Japan. E tem havido boa colaboração entre o governo e as empresas a promover este soft power noutros países. Quanto a Portugal, os fãs da cultura japonesa vão ter em Lisboa a Festa do Japão a 16 de junho. No Parque das Nações.

A Revolução Meiji seguiu-se a uma reabertura do Japão ao mundo. Mas os primeiros europeus a chegarem ao Japão foram os portugueses em 1543 e até vos deixámos algumas palavras como kopo ou botan. É um dado histórico que o comum dos japoneses conheça? Aprende-se na escola, como acontece no nosso caso?

Sim, temos memória dessa chegada. Os japoneses aprendem logo na escola primária que os portugueses foram os primeiros europeus a contactar connosco. E além das palavras legadas, também temos um bolo, o castela. Portugal é pois um país com que temos afinidade. Claro, depois fechámos o país aos estrangeiros entre os séculos XVII e XIX e só depois restabelecemos relações, que temos querido sempre amigáveis e próximas.

Apesar de haver grandes empresas japonesas já em Portugal, é possível desenvolver mais as relações económicas?

Acredito que sim, até porque Portugal tem um grande potencial, em vários sentidos, desde o económico ao cultural. E na verdade não são tão pequenos como isso. Vi as estatísticas e são o 16.º país com mais população entre 50 da Europa. E os portugueses são reconhecidos como mão-de-obra qualificada e com facilidade em línguas. Assim, ao vir para Portugal como embaixador falei com muitos homens de negócios que ficaram entusiasmados com as possibilidades que o vosso país oferece. Recentemente, a União Europeia e o Japão concluíram um acordo de parceria, uma espécie de acordo de comércio livre mas mais do que isso, o que favorece o estreitamento dos nossos laços económicos. E essa é uma das minhas tarefas mais importantes.

A Revolução Meiji significou um regresso do imperador ao coração da vida japonesa. Passados 150 anos, percebe-se o quanto o imperador é respeitado pela comoção gerada pelo anúncio da abdicação. Qual é o simbolismo do imperador para os japoneses?

O imperador é o símbolo do Estado japonês e da unidade do povo japonês, como diz a Constituição. Segundo a mesma, o conselho e a aprovação do gabinete deverão ser requeridos em todas as ações do imperador em questões de Estado. É neste contexto que o imperador Akihito tem visitado as áreas atingidas por desastres naturais para confortar vítimas, e também os sítios onde ocorreram os combates mais violentos durante a Segunda Guerra Mundial para prestar homenagem aos falecidos durante esse período. Esta atitude do imperador tem obtido do povo japonês um profundo respeito.

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