O ex-agente Vladimir Putin ressuscita KGB e envia sinal às elites russas

José Milhazes diz que reestruturação dos serviços serve para o presidente "prevenir qualquer tentativa de provocar desordem". Já para Lívia Franco medida permite menor fiscalização e mais controlo por parte do Kremlin.

O presidente Vladimir Putin estará a preparar a reestruturação das agências de segurança russas de forma a criar um único superorganismo. Este será batizado com o nome da antiga polícia secreta de Estaline - Ministério para a Segurança do Estado (ou MGB como é conhecido) - com os analistas a falarem no renascer do velho KGB, onde o próprio Putin trabalhou entre 1975 e a dissolução, em 1991, após a queda da União Soviética.

Segundo as informações do jornal Kommersant (que não foram negadas oficialmente), o plano de Putin passa por juntar o Serviço Federal de Segurança (FSB, herdeiro do KGB para os assuntos internos) ao Serviço de Inteligência Externo (SVR) e ao Serviço Federal de Proteção (FSO, responsável pela proteção dos dirigentes russos, incluindo do presidente). O MGB não incluirá contudo a Guarda Nacional, uma força de 400 mil membros criada no início deste ano por Putin e que responde diretamente às suas ordens.

O historiador e jornalista José Milhazes, que viveu durante quatro décadas em Moscovo, disse ao DN que a criação do novo superorganismo "é um sinal de Putin para as elites russas: ou obedecem ou a qualquer momento poderão ser alvo de represálias". Nas parlamentares deste mês, o partido Rússia Unida de Putin renovou a maioria na Duma. "A nível de bases, ele tem tudo controlado. As eleições mostraram isso. A chamada oposição extraparlamentar foi completamente esmagada e não houve sequer qualquer tipo de manifestação como houve em 2011", acrescentou.

Segundo Milhazes, "não obstante as eleições alegadamente lhe darem grandes vitórias, o presidente sabe que esses números não correspondem à realidade. E daí que mais vale prevenir do que remediar, tanto mais que Putin é daqueles que acredita que no exterior da Rússia há forças interessadas e a trabalhar para o derrubar". E defendeu que "o objetivo deste reforço dos órgãos de segurança é prevenir qualquer tentativa de provocar desordens ou outro tipo de confusões na Rússia".

Já Lívia Franco, professora e investigadora residente no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, disse que "há uma razão política para a criação deste superministério" e para a "centralização" dos poderes. "Passa por uma menor fiscalização e um menor controlo horizontal entre os diferentes organismos, já que ter os vários serviços de informação e de segurança divididos, num cenário de normalidade democrática, faz com que exista fiscalização mútua", afirmou ao DN. "Por outro lado, a centralização permite um maior controlo vertical. É muito mais fácil ao poder político controlar uma instituição em vez de controlar várias agências", referiu.

Herança estalinista

A nova agência recupera o nome da antiga polícia secreta de Estaline, MGB, que atuou entre 1943 e 1953 (ano da morte do líder soviético), e que daria lugar depois ao KGB. Este não tinha o objetivo de proteger os interesses do país e dos seus cidadãos, mas proteger o regime e quem quer que estivesse no Kremlin, sendo dividido em várias agências após a queda da União Soviética.

"Essa agência do estalinismo era um dos instrumentos mais importantes da repressão interna, por isso tem uma carga simbólica muito pesada", lembrou Lívia Franco. "Se antes de podermos usar esse instrumento, ele pela sua designação e carga simbólica já dissuadir certos comportamentos, melhor ainda. Do ponto de vista da eficiência, é sempre melhor não fazer nada", acrescentou a professora da Universidade Católica. "O nome MGB é psicológico. Faz parte da tática de criação de um ambiente de receio e de medo, que já começou há vários anos na Rússia, sendo uma forma de fazer lembrar aos russos os piores tempos do estalinismo. Lembrar-lhes não, fazer com que não se esqueçam", indicou Milhazes.

Em 2004, Putin disse que "não existe isso de um ex-agente do KGB". Desde que está no Kremlin, o presidente colocou vários antigos membros do KGB em posições chave em instituições estatais e empresas. Além disso, devolveu poderes ao FSB (que chegou a liderar antes de ir para a presidência) e fez várias tentativas de reformar e controlar a agência. "Na noite de 18 para 19 de setembro [após as parlamentares e ter sido revelado o plano para criar o MGB], o país passou do autoritarismo ao totalitarismo", escreveu o ex-deputado liberal Gennady Gudkov no Facebook.

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