Mette Frederiksen e a nova social-democracia na Dinamarca

Frederiksen, de 41 anos, conjuga defesa do Estado social com medidas duras para imigrantes e refugiados. Assim venceu as legislativas de dia 5 e conseguiu que a extrema-direita caísse de 21,1% para 8,7%

Greta Thunberg tinha 15 anos quando fez a sua primeira greve às aulas para alertar para as alterações climáticas. O movimento espalhou-se e, um ano mais tarde, a jovem sueca tornou-se uma estrela mundial. Quinze anos precisamente tinha Mette Frederikssen quando integrou a juventude social-democrata na Dinamarca, pagando uma quota para apoiar a luta do Congresso Nacional Africano (ANC) de Nelson Mandela contra o regime do Apartheid na África do Sul. Sempre precoce, a atual líder dos sociais-democratas dinamarqueses tornou-se deputada aos 24 anos e, se chegar a primeira-ministra, será a mais jovem chefe do governo daquele país nórdico. Divorciada, mãe de duas filhas adolescentes, Frederikssen tem 41 anos.

Sob a sua liderança, os sociais-democratas venceram as legislativas do passado dia 5 de junho, devendo agora entrar em conversações com os restantes membros do chamado Bloco Vermelho. Este é composto pelos sociais-democratas, pelos socialistas liberais, pelos socialistas populares e pela Aliança Vermelha-Verde. Juntos garantiram a maioria absoluta com 91 dos 179 deputados no Parlamento da Dinamarca e conduziram à demissão do primeiro-ministro, Lars Lokke Rasmussen, líder dos liberais do Venstre, partido que ficou em segundo lugar, a seguir aos sociais-democratas e encabeçava o chamado Bloco Azul de partidos de centro, liberais e extrema-direita. Antes da votação, este tinha falado na hipótese de uma Grande Coligação na Dinamarca, como a que existiu no final dos anos 1970, mas esse cenário parece estar afastado.

Frederikssen pretende governar em minoria com o apoio das restantes formações do Bloco Vermelho. Mas a própria reconheceu que as negociações levarão tempo e não se adivinham fáceis. Seja como for, esta filha de um tipógrafo e de uma professora, natural de Aalborg, formada em Ciências Sociais, liderada aquilo a que muitos chamam a nova social-democracia, tentando conjugar políticas rígidas para a imigração e asilo, com a defesa do Estado social. Por essa razão conseguiu que o Partido Popular da Dinamarca, de extrema-direita, caísse de 21,1% dos votos em 2015 para 8,7%. "Estas eleições foram sobre o Estado social, o veredicto dos eleitores é muito claro, o Estado social passará a ser a prioridade", disse Frederikssen, citada pela Reuters, numa altura em que os dinamarqueses são dos cidadãos que mais impostos pagam em todo o mundo e em que a austeridade gerou anticorpos pelos receios de que ameaçasse os sistemas de saúde, de educação e de pensões de que o país europeu goza.

A líder social-democrata, escreveu o jornal Politiken, citado pela AFP, "recusou fazer promessas, exceto no que toca à imigração". Há uma mudança, em relação a 2000, quando denunciava as políticas de imigração do seu país "como as mais duras da Europa". Hoje em dia, 19 anos passados, o seu partido apoia uma abordagem radical. Tiveram o seu aval medidas como a proibição do uso em público da burqa ou do niqab e a chamada "lei das joias", que permite à polícia apreender valores que encontrem na posse de refugiados para ajudar a pagar as suas despesas no país.

"Simplesmente notei que 75% dos deputados apoiam medidas mais duras no que toca à imigração", disse Frederikssen, em "A Political Portrait" (Um Retrato Político), livro de entrevistas, publicado esta primavera. "Para mim, tornou-se claro que a globalização não regulada, a imigração em massa e a livre circulação de trabalhadores está a ser paga pelas classes mais baixas", refere a líder social-democrata, que defende uma quota para imigrantes "não ocidentais", a expulsão de requerentes de asilo para centros no norte de África e a obrigação de trabalhar 37 horas por semana para os refugiados para ajudar a pagar as suas despesas pela estada em território dinamarquês.

A questão é que uma tal abordagem pode deixar reticentes os restantes partidos do Bloco Vermelho, nomeadamente os socialistas populares e os socialistas liberais. Estes últimos foram, no passado, liderados por Margrethe Vestager, atual comissária europeia da Concorrência e candidata dos liberais europeus à presidência da Comissão Europeia. Os Verdes, que se encontram a surfar a onda do ativismo contra as alterações climáticas e do efeito Greta Thunberg, também querem ver medidas e ações mais duras por parte da social-democrata em relação à defesa do planeta.

A chegar a primeira-ministra, Frederikssen será a segunda mulher a assumir o cargo na Dinamarca. A primeira foi Helle Thorning-Schmidt. Também social-democrata. E, sim, a da polémica da selfie com Barack Obama no funeral de Nelson Mandela em 2013. Thorning-Schmidt, que até chegou a ser falada para ocupar cargos de topo na UE, viu os socialistas populares retirarem-lhe o apoio em 2014, quando o seu governo propôs a venda de ações da companhia petrolífera DONG Energy à Goldman Sachs. Thorning-Schmidt viu o seu partido vencer as legislativas de 2015, mas ao contrário do que aconteceu agora, o Bloco Vermelho não obteve maioria absoluta e foi ultrapassado, pela direita, pelo Bloco Azul.

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