Lista de nomes e fotos de jornalistas da BBC divulgada na Rússia

44 jornalistas da BBC na Rússia viram os seus nomes e fotos divulgados online, dias após regulador de media russo ter anunciado uma investigação à BBC, em aparente represália por regulador britânico ter ameaçado retirar licença a canal russo por quebrar regras de imparcialidade na cobertura de caso Skipral.

44 jornalistas, na maioria cidadãos russos, que trabalham para a BBC viram os seus nomes e rostos divulgados online logo após o regulador dos media russo ter anunciado uma investigação à estação pública britânica. A divulgação terá começado pela mão do grupo "Pela Mãe Rússia", numa rede social local, tendo um site noticioso de direita repescado a lista de nomes, juntando-lhe fotos encontradas online, nos perfis de rede social dos jornalistas e noutros locais.

Na primeira publicação, os jornalistas são descritos como "efabuladores e sonhadores da delegação de Moscovo da BBC". A BBC já reagiu à publicação da lista, frisando não haver qualquer motivo para ela. "Estamos desapontados com esta divulgação sem qualquer justificação."

O Guardian põe a hipótese de a divulgação da lista surgir também como retaliação por o jornal britânico The Times ter, na semana passada, publicado uma lista de nomes e fotos de oito repórteres que trabalham para a delegação de Edimburgo da agência noticiosa/rádio Sputnik, pertencente ao Estado russo, o que terá enfurecido o respetivo governo, por considerar que a divulgação põe os jornalistas em perigo.

Os jornalistas são descritos na primeira publicação, no grupo "Pela Mãe Rússia", numa rede social russa, como "efabuladores e sonhadores da delegação de Moscovo da BBC".

No texto que acompanha a divulgação da lista no grupo "Pela Mãe Rússia", o Times é atacado por tentar colocar "pressão psicológica" sobre os jornalistas russos identificados. O autor anónimo do post explica que a lista que por sua vez publica foi obtida através da "combinação de várias fontes."

Ainda de acordo com o Guardian , só são identificados na lista jornalistas com acreditação do governo russo, e com os nomes da identificação legal, que não coincide necessariamente com os nomes com que assinam -- o que leva a crer, conclui o jornal, que a lista provém de documentação oficial.

Represálias em catadupa

Fontes do governo russo reconheceram, por sua vez, que a investigação à BBC anunciada é uma resposta à deliberação do regulador britânico, a Ofcom, sobre o canal russo governamental RT (antes Russia Today). A Ofcom concluiu que o canal violou as regras de imparcialidade na cobertura do caso Skripal -- o envenenamento, a 4 de março, em Salisbury, de um alegado ex espião russo, Sergei Skripal, e a sua filha, que a primeira-ministra britânica atribuiu ao governo russo baseando-se não só na identidade das vítimas (que sobreviveram) como no veneno usado, o agente nervoso Novichok, de origem russa.

A 20 de dezembro, a Ofcom comunicou que a RT tinha quebrado as regras de imparcialidade em sete programas exibidos durante seis semanas -- de 17 de março a 26 de abril. O regulador considera que a estação não deu voz a perspetivas suficientemente variadas sobre o caso Skripal, e considera que se trata de uma violação grave, pelo que pondera aplicar sanções, que podem chegar à retirada da licença.

A RT, cujo lema é "questionar mais", começou a sua emissão internacional em 2005 em inglês, árabe e espanhol, como estação subsidiária da RIA Novosti, uma das estações de TV públicas russas. Começou por se focar no noticiário russo, com o alegado objetivo de melhorar a imagem do país nos EUA. Anos depois, passou a concentrar-se no noticiário americano e a apresentar-se como alternativa aos media americanos e atualmente declara querer dar "a perspetiva russa" sobre os eventos mundiais. Atualmente, emite de Washington, Londres e Paris.

Um país pouco amigo da liberdade de imprensa

Desde que Anna Politkovskaya foi assassinada no lobby do seu apartamento, em 2006, que a Rússia é considerada um país muito perigoso para jornalistas. No décimo aniversário da sua morte, o Comité de Proteção de Jornalistas contabilizou 12 repórteres mortos (entretanto a lista aumentou para 14) e a Freedom House 63 ataques violentos. Aliás em 2016 uma jornalista do Novaya Gazeta, onde Politkovskaya trabalhava quando foi assassinada,foi a Beslan para fazer uma reportagem sobre os 12 anos da tragédia na qual foram mortas 334 pessoas, a maioria das quais (186) crianças, na sequência de um ataque terrorista e em circunstâncias que nunca foram apuradas por uma investigação independente (a Gazeta reportou à época que as forças governamentais teriam usado explosivos e sido responsáveis por uma parte considerável das mortes). A repórter enviada a Beslan em 2016 e o fotógrafo que a acompanhava foram seguidos, intimidados, cobertos em tinta verde e espancados. A jornalista passou uma semana no hospital.

As últimas mortes de jornalistas russos ocorreram a 30 de julho na República Centro Africana. O repórter freelance Orkhan Dzhemal, o realizador Alexander Rastorguyev e o câmara Kirill Radchenko estavam no país a investigar a atividade de uma companhia russa, a Wagner, que acreditavam desenvolver atividade mercenária. Os três estavam ao serviço de um centro de investigação jornalística, o TsUR, financiado pelo oligarca russo Mikhail Khodorkovsky, acusado e condenado por vários crimes económicos na Rússia e atualmente em exílio na Suíça.

A Wagner tem sido associada a Yevgeny Prigozhin, que é regularmente caracterizado nos media como "o cozinheiro de Putin". Este, na sua conferência de imprensa anual, referiu-se à execução dos três repórteres como "uma grande tragédia", certificando que as autoridades russas estão a investigar e que cabe à justiça dizer se a Wagner violou alguma lei.

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