Governo populista garante não querer Itália fora do euro

Posse do executivo acontece ao fim de três meses de negociações. Ministro da Economia dá sinal de que o projeto europeu não está em causa e chefe da diplomacia é um europeísta

O presidente italiano Sergio Mattarella desejou "as maiores felicidades" ao novo governo que ontem tomou posse, uma inédita aliança entre antissistema e extrema-direita. Na próxima semana, o executivo de Giuseppe Conte vai ter de passar a última barreira, o voto de confiança parlamentar. O ministro da Economia e das Finanças, Giovanni Tria, acalmou os mais céticos desta solução governativa ao assegurar que "nenhuma força política deseja a Itália fora do euro".

Conte já ganhou um lugar na história: saltou do quase anonimato para o primeiro plano da atualidade como o homem que viu o presidente Sergio Mattarella vetar a composição da sua equipa de governo, sair de cena, e regressar menos de uma semana depois para ocupar, por fim, o cargo de primeiro-ministro. Para trás ficam 88 dias de indefinição pós-eleitoral e notícias pouco abonatórias sobre o seu currículo. De futuro, poucos observadores acreditam nas reais capacidades de alguém sem experiência política se impor aos dois líderes partidários e seus vice-primeiro-ministros, Luigi Di Maio e Matteo Salvini.

O presidente do 5 Estrelas ocupa a partir de ontem o cargo de ministro do Desenvolvimento Económico e do Trabalho, enquanto o dirigente máximo da Liga (ex-Liga Norte) fica com a pasta da Administração Interna. Na primeira reação pública após a confirmação do governo, Di Maio estabeleceu as suas prioridades: "Chegou a hora de um novo começo para o país, deixar de lado a Fornero [lei das reformas], instaurar a renda da cidadania e o salário mínimo, e vamos fazê-lo", escreveu no Facebook.

Já Salvini disse logo na quinta-feira que o "compromisso é com a segurança de 60 milhões de italianos" e que ""vai para casa" vai ser uma das prioridades", em referência aos migrantes. Ontem voltou a falar sobre o tema, ao dizer que vai trabalhar juntamente com a Igreja Católica. "Vamos trabalhar juntos e vamos espantá-los, vamos decididamente encontrar convergências." A Liga quer expulsar 600 mil migrantes de Itália e abrir centros de detenção para pessoas sem documentação pelo país fora.

Salvini referiu-se ainda ao homem que foi responsável pelo veto presidencial, Paolo Savona, agora ministro dos Assuntos Europeus. O economista de 81 anos, autor de afirmações como "os alemães não mudaram a visão do seu papel na Europa depois do fim do nazismo" e que a moeda única é uma "prisão alemã", irá "tentar renegociar certas regras europeias", segundo o novo ministro da Administração Interna.

Si à Europa

Em contraponto a Savona, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Enzo Moavero Milanesi, é um europeísta convicto. E o responsável pela pasta da Economia, Giovanni Tria, garante que ninguém quer sair do euro - ao contrário do que os dois partidos defenderam.

Dos 18 ministros, seis são mulheres. Destaca-se a ministra da Saúde, Giulia Grillo. A médica especializada em medicinal legal está contra o plano de vacinação obrigatório, aprovado no ano passado.

Cronologia

4 de março
> Eleições gerais dão o maior número de votos ao Movimento 5 Estrelas, mas a aliança de centro-direita, na qual a Liga está incluída, é o bloco com mais votos. Nenhuma formação ou aliança tem maioria nas duas câmaras e ambos os líderes reclamam o direito a formar governo

14 de março
> Ao contrário do que afirmou durante a campanha, o líder da Liga, Matteo Salvini, abre a porta a um entendimento com o M5E, desde que incluísse a Forza Italia, partido de Silvio Berlusconi. A proposta foi rejeitada por Di Maio, porque o antigo PM "representa o passado"

9 de maio
> Após três rondas de negociações falhadas, e com o Partido Democrático em definitivo fora de uma solução de governo, M5E e Liga pedem ao presidente 24 horas para formarem governo e, no mesmo dia, Berlusconi anuncia que o seu partido não vai vetar um governo daquelas duas formações

13 de maio
> Acordo de princípio firmado entre Liga e M5E, mas não se entendem quanto às pessoas para formarem o executivo

21 de maio
> Com o programa de governo finalizado e a coligação aprovada pelos militantes do 5 Estrelas e da Liga, é proposto o nome de Giuseppe Conte para primeiro-ministro

27 de maio
> Formação do governo é vetada pelo presidente Mattarella, que não aceita Paolo Savona, defensor da saída do euro, na pasta da Economia

28 de maio
> Chefe de Estado chama o antigo quadro do FMI Carlo Cottarelli para formar um governo de iniciativa presidencial

30 de maio
> Di Maio cede e aceita propor uma pessoa com outro perfil para ministro da Economia, pelo que Mattarella e Cottarelli fazem compasso de espera

31 de maio
> Ronda negocial é concluída com o presidente a aceitar a equipa proposta por Giuseppe Conte e Carlo Cottarelli a anunciar a saída de cena

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