"Digo aos meus filhos que vivem num espaço de democracia e respeito pelos direitos fundamentais pelo qual vale a pena lutar"

Entrevista a Sofia Colares Alves, chefe da Representação da Comissão Europeia em Portugal, que fala do seu europeísmo despertado numa viagem nesse ano revolucionário de 1989, da necessidade de fazer passar aos jovens, incluindo os três filhos, a importância de vivermos num espaço de democracia que não está garantido e ainda dessa má notícia que dá pelo nome de Brexit.

Se tivesse de dizer aos seus filhos quais são as duas ou três grandes vantagens de serem cidadãos desta União Europeia, do que é que se lembraria?
A primeira vantagem é o facto de eles viverem num espaço de democracia e respeito pelos direitos fundamentais, que era uma coisa que nós achávamos garantida para o resto da vida e que chegámos à conclusão nos últimos anos de que não é um dado adquirido e que os três têm de continuar a lutar, que é fantástico que vivam numa sociedade e numa comunidade que respeita a liberdade individual mas que têm de lutar por ela. Depois, um tema que acho muito importante e uma vantagem de que muitos jovens não se apercebem, é a livre circulação. Por exemplo, a minha filha de 14 anos, a Inês, apercebeu-se há pouco tempo, de que gosta muito da Coreia, que quer ir estudar para a Coreia, que não pode simplesmente aparecer na Coreia sem visto de estudante, sem autorização para estudar e não pode residir na Coreia como bem lhe apetece. Isto contrariamente àquilo a que está habituada aqui na União Europeia, que é circular e poder ir estudar e escolher o país onde se vai estudar, sem ter essas burocracias, essas dificuldades de vistos, de autorizações de residência. Portanto, a livre circulação é um dado muito importante, uma vantagem muito importante, e os jovens estão habituados a ela na União Europeia e nem sequer sabem que fora não existe. Depois ainda, acho que a proteção do ambiente é algo que preocupa os meus filhos, preocupa os jovens e preocupa-nos a nós Comissão Europeia. E terem consciência de que lutamos pela biodiversidade para que eles tenham uma coisa tão simples como água potável em casa ou que haja reciclagem dos resíduos. Combatemos também as alterações climáticas e isto é uma política pela qual a União Europeia tem lutado muito, tem colocado standards muito altos de promoção e proteção do nosso ambiente, e somos agora um exemplo para o resto do mundo. É algo do que gostaria que os meus filhos estivessem orgulhosos.

Nasceu em África, numa época em que havia um Portugal muito diferente, que ainda tinha um império, e a Europa não era a prioridade dos nossos governantes. Como é que alguém dessa geração se torna europeísta?
Bom, eu acho que talvez o meu passado tenha muito que ver com uma coisa que é muito especifica a Portugal, que é esta singularidade de ser capaz de fazer pontes, de estar na Europa e também estar em África. Eu sou de uma geração em que muitos portugueses nasceram em África, os meus pais cresceram, conheceram-se e casaram-se em África, em vários países, eles estiveram em São Tomé, em Moçambique e em Angola, e depois tiveram uma geração de filhas de que uma delas, pelo menos, acabou na Europa. E isto tem que ver com o facto de Portugal ser uma plataforma entre a Europa e os países onde nós estivemos presentes no passado, os países africanos e também o Brasil. O meu interesse específico pela Europa começou talvez em 1989. Fiz a minha primeira viagem pela Europa, na altura Europa Ocidental, mas nesse verão de 1989 já começava a vislumbrar-se a inquietação e a revolução que iria desencadear a queda do Muro de Berlim. Já havia, penso que na antiga Checoslováquia e na Hungria, vários cidadãos a pedirem asilo político nas embaixadas dos países ocidentais, havia imagens na televisão de comboios cheios de cidadãos da Europa de Leste a tentar passar a fronteira e vislumbrava-se que algo muito importante estava a acontecer na Europa. E penso que foi aí que o bichinho me mordeu e eu vim para Portugal, comecei a estudar nesse ano, mas sempre tive a ideia e o sonho muito definido de querer conhecer mais sobre a União Europeia e depois fui para Bruges, na Bélgica, onde fiz uma pós-graduação e então aí confirmei o meu desejo de fazer parte deste projeto europeu.

Está ligada à Comissão Europeia há quase duas décadas, na Bélgica, como disse. Quando estava na Bélgica houve aquele grande alargamento a Leste em que de repente a União Europeia ganhou dez novos membros. Sentiu essa diversidade da Europa a chegar? E até que ponto é que foi um desafio ao próprio projeto europeu então a 15 e que se iniciou só com um núcleo duro de seis países em 1957?
Sim, o alargamento a Leste em 2004 foi um enorme salto na integração na União Europeia e como todos os grandes saltos também tem sido um grande desafio. Neste ano celebramos os 15 anos dessa adesão e também os dez da nossa parceria estratégica a Leste, que no fundo abrange os países que são nossos vizinhos a leste, como a Ucrânia, a Moldávia, a Geórgia, a Arménia, o Azerbaijão e a Bielorrússia. Temos já acordos de parceria aprofundados com três destes países. Porque foi 2004 um salto tão importante? Era absolutamente necessário, é a primeira coisa que convém dizer. Era um salto absolutamente necessário fazer para estabilizarmos a paz na União Europeia, ter estes países dentro da própria União Europeia, fazendo parte deste projeto, evoluindo connosco. Por outro lado, foi e é um desafio, pelo número de países que aderiram ao mesmo tempo, pelas implicações na modificação da forma como as instituições trabalham, mas também porque obviamente quantos mais países somos na União Europeia, mais são os interesses que estão em jogo e esses interesses não são sempre comuns. Nós partilhamos alguns interesses estratégicos com esses países de Leste, porque somos uma economia também menos desenvolvida. Partilhamos, por exemplo, os interesses na convergência da coesão social e da convergência económica, mas temos outros interesses que são diferentes desses países e, portanto, é mais difícil. Quanto mais Estados membros, mais são os interesses que estão em cima da mesa, nomeadamente quando se vai a voto no Conselho Europeu ou quando tem de se tomar uma decisão no Conselho Europeu. É mais difícil encontrarem-se compromissos, consensos. E é essa dificuldade cada vez maior de se fazer compromissos na União Europeia que leva a uma certa estagnação e que nós agora temos de arranjar maneira de ultrapassar.

Em sentido completamente contrário, o Brexit cria uma situação inédita, a saída de um Estado membro, a passagem de 28 a 27. A decisão do Reino Unido desanima quem está envolvido no projeto europeu?
Bom, o Brexit não é uma boa notícia, não o é para ninguém. É sem dúvida um recuo neste nosso processo de integração europeia, sobretudo sendo um país que tem um passado histórico na defesa da paz do nosso continente. Obviamente que a Grã-Bretanha teve um papel muito importante na Europa na Primeira e na Segunda Guerra Mundial e, por isso, continuará sempre a fazer parte. Vai sair da União Europeia, mas não vai sair da Europa. Estou confiante de que vamos conseguir encontrar uma forma de continuar a cooperar e termos uma relação de estabilidade e de cooperação com o Reino Unido, mesmo que os britânicos saiam da União Europeia, porque não podemos apagar a história, temos muitos interesses comuns em jogo, fazem parte da nossa geografia e, portanto, continuarão a ser muito importantes para a Europa.

Neste mês há eleições europeias. Em Portugal, nomeadamente, acha que os temas europeus têm sido suficientemente tratados ou a agenda política nacional acaba por abafar tudo?
Infelizmente os temas europeus não são suficientemente tratados, não são tratados sobretudo com a clareza e o detalhe que merecem. A contaminação de temas nacionais nestas eleições europeias acontece sempre e é de certa maneira natural, o que eu gostava é que houvesse uma discussão construtiva, porque obviamente os candidatos têm de explicar às pessoas como é que a União Europeia impacta nas suas vidas e isto é muito importante desde logo para combater a abstenção que é altíssima em Portugal para as eleições europeias. Os candidatos têm a responsabilidade de explicar como é que a União Europeia impacta no dia-a-dia das pessoas, e de explicar também que nós neste momento temos vários desafios pela frente, se queremos uma Europa, por exemplo, que assegure a sua defesa, promova maior esperança para os cidadãos, onde é que temos de investir, quais são as propostas. Se queremos uma Europa mais justa, que assegure uma melhor distribuição de riqueza, com mais justiça fiscal, por exemplo, temos também de arrecadar mais dinheiro para o Orçamento da União Europeia. Como é que vamos fazer? Quais são as alternativas que estão em cima da mesa? A Comissão Europeia, por exemplo, relativamente ao Orçamento da União Europeia, fez uma proposta em maio do ano passado que foi considerada pouco ambiciosa por parte de alguns partidos, criticada por outros, mas eu continuo, também enquanto cidadã, à espera de que me expliquem como é que nós então vamos resolver esta quadratura do circulo que é termos um orçamento com menos contribuintes, porque o Reino Unido vai sair, portanto teremos menos dinheiro à disposição dos Estados Membros? É uma discussão que é muito importante, sabermos como é que vamos conseguir ter dinheiro para cobrir todas as políticas e cobrir todas as necessidades dos cidadãos desde defesa e segurança e gestão e migrações, mais dinheiro para a ciência e inovação, mais dinheiro para a educação e para o Erasmus, e continuar a ter uma politica agrícola comum com o orçamento que temos, uma politica de coesão e de convergência social. A Comissão fez a proposta em maio do ano passado, e além de críticas não ouvi muitas alternativas, portanto, se o dinheiro é pouco, se acham que o dinheiro é pouco, então como é que vamos conseguir arrecadar mais dinheiro para a União Europeia e qual a melhor forma de o fazer? E são estas questões que precisam de ser debatidas, entre outras.

Apesar da alta abstenção das eleições europeias que citou, os portugueses continuam entre os euroentusiastas, não é?
Os portugueses são euroentusiastas e uma larga maioria dos portugueses - 78% - dizem-se sentir cidadãos da União Europeia e para mim isto é uma vitória fantástica, uma notícia fantástica, porque é muito importante. Nós só conseguimos tomar decisões difíceis e chegar aos tais compromissos de que eu falava há pouco se as pessoas sentirem que a União Europeia vale a pena. E esta maioria passa, penso, para 91% quando falamos dos jovens que se sentem cidadãos da União Europeia. Isto é uma notícia absolutamente fantástica, é para isso que nós trabalhamos, para que esta maioria que se sente já cidadãos europeus olhem para as suas instituições e pensem "bom, eles de facto estão lá para defender os nossos interesses, estão lá para fazer políticas que são benéficas para nós e, por isso, nós sentimo-nos orgulhosos de ser cidadãos europeus.

Neste ano em Portugal as celebrações do Dia da Europa em Portugal são em Braga. Quais são os pontos altos?
Bom, primeiro aconteceu em Braga porque nós queremos que todo o país se sinta europeu e tenha a oportunidade também de celebrar a União Europeia. Por isso decidimos sair de Lisboa, é já um objetivo que tinha há alguns anos e conseguimos neste ano fazê-lo. Eu penso que o momento alto é ter juntado personalidades tão diferentes com Carlos Moedas, Hugo van der Ding, Kátia Guerreiro e Rui Veloso e pô-los a celebrar juntos, a celebrar a União Europeia com as pessoas que se vão juntar a nós em Braga e será um dia cheio de momentos altos e espero que seja, francamente, um dia de festa porque temos muitas razões para celebrar.

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