Da Starbucks à Casa Branca? Howard Schultz pode avançar contra Trump

Desde que anunciou a sua saída da liderança da cadeia de cafés, em junho, e conhecido por não esconder as suas opiniões políticas, crescem os rumores de que o empresário de 65 anos pode avançar para uma candidatura.

Passaram 35 anos desde que Howard Schultz desenhou a fórmula do moderno Starbucks num café de Milão (a primeira loja abrira 16 anos antes de comprar a cadeia e revolucionar o conceito com a ideia de vender bebidas, além dos grãos) e três meses desde que anunciou que ia retirar-se do board do gigante mundial que fatura mais de 20 mil milhões de dólares anuais. Mas a reforma parece estar mais longe do que nunca para o empresário nova-iorquino. Aos 65 anos, há cada vez mais gente a antecipar que Schultz está à beira de embarcar na maior aventura da sua vida.

Com uma veia política ativa desde sempre bem vincada, uma candidatura às primárias americanas é agora antecipada por alguns como uma probabilidade que ganha força. Mesmo pelas declarações que fez ao New York Times em junho. "Tenho estado crescentemente preocupado com o nosso país, quer pelas divisões internas quer pela nossa posição no mundo", admitiu então, assumindo, quando o questionaram sobe uma possível candidatura, que está disponível para testar se há "um papel que ainda possa desempenhar de forma a devolver algo à comunidade". "Mas ainda não sei em que moldes isso pode acontecer", afirmou. Uma posição bem distinta da que tomara nas eleições anteriores, quando descartou a possibilidade de avançar. "Apesar do apoio e incentivo que tenho recebido nesse sentido, não faço tenções de entrar na corrida às presidenciais", escreveu então, num artigo publicado no mesmo jornal.

Os rumores da sua entrada na política ativa já não é de hoje. Há um ano, um vídeo publicado pela Business Insider mostrava o milionário americano a dizer aos empregados que Donald Trump estava a criar "episódios de aos diários" com graves consequências para a economia. "Nós temos o antídoto para isso", adiantou, defendendo na altura, numa entrevista à CNN, que Hillary Clinton "tem de ser" a próxima presidente dos Estados Unidos.

Momentos como esse, bem como o anúncio de que a Starbucks pretendia contratar 10 mil refugidos, depois de Trump ter emitido uma diretiva que os impedia de entrar nos Estados Unidos, têm contribuído para dar força à ideia de uma candidatura de Schultz às próximas primárias. Mas outros episódios recentes têm-no penalizado. É o caso das acusações de racismo que aconteceram em lojas da Starbucks - dois negros foram expulsos do espaço sem razão aparente, sendo o episódio filmado e divulgado nas redes sociais por outros clientes, indignados - e das acusações de engenharia financeira e pressão sobre os funcionários da cadeia, vindas a público na última semana.

Seja como for, Howard Schultz não parece ainda preparado para trocar as suas ideias pelo que muitos dos democratas defendem e isso tem jogado contra ele - neste verão, o empresário foi duramente criticado na sequência de declarações em que se afirmava insatisfeito pela tendência demasiado esquerdista do partido e por haver tantas vozes a seguir esse sentido. A verdade é que, não há muito tempo, debatia-se nos fóruns sobre a sua inclinação política, para se chegar à conclusão, com base nas suas próprias frases, de que Schultz se encontrava algures no centro político.

Se e como avançará para as primárias e que apoios conseguirá reunir caso avance, ainda está por deslindar. Uma coisa é certa, o dono da Starbucks não deixará de ser uma voz politicamente ativa nos próximos tempos. Chegará para o levar à Casa Branca em 2020?

Ler mais

Premium

Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.