"Lesão hepática grave." Bolsonaro esfaqueado em ação de campanha

"Perdeu muito sangue, chegou no hospital com pressão de 10/3, quase morto", informou o filho do candidato à presidência nas redes sociais.

O candidato à presidência do Brasil, Jair Bolsonaro, foi esfaqueado a meio da tarde (16.00 no Brasil) desta quinta-feira numa ação de campanha em Juiz de Fora. Segundo o filho, Flavio Bolsonaro, referira no seguimento da agressão o ferimento foi superficial mas ao ser observado no hospital os médicos tiveram que operar de urgência o candidato, que sofreu uma lesão hepática grave.

Bolsonaro foi transportado de imediato para o hospital e segundo uma fonte da família está livre de perigo e a sentir-se bem. No Twitter, Flavio Bolsonaro publicou um post a informar o que aconteceu ao pai: "Infelizmente foi mais grave que esperávamos. A perfuração atingiu parte do fígado, do pulmão e da alça do intestino. Perdeu muito sangue, chegou no hospital com pressão de 10/3, quase morto... Seu estado agora parece estabilizado. Orem, por favor!"

Segundo assessores de Bolsonaro, este sofreu uma "uma lesão por material perfurocortante na região do abdómen' e foi necessária uma transfusão de sangue. O prognóstico é favorável, mas não existe previsão de alta hospitalar. Segundo o jornal "Gazeta do Povo", o hospital confirma que Bolsonaro sofreu "uma lesão hepática grave, passou por um ultrassom e foi encaminhado para o centro cirúrgico, sendo que o estado de saúde é considerado estável".

No decurso desta agressão, a agenda do candidato foi interrompida. Segundo a Polícia Federal, vai ser instaurado um inquérito para apurar a agressão que aconteceu enquanto o candidato era carregado por apoiantes no momento em que sofreu o ataque. A Polícia Militar anunciou que o suspeito do crime já foi detido e posteriormente revelou a sua identidade, Adélio Bispo de Oliveira, de 40 anos. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral o agressor foi filiado do PSOL entre 2007 e 2014 e o partido já se manifestou contra a agressão.

A Polícia Federal tinha referido que "o agressor foi preso em flagrante e conduzido para a Delegacia naquele município", mas os vídeos postos nas redes sociais mostram Bolsonaro sob vários ângulos e a contorcer-se de dores após o esfaqueamento, após o que os correlegionários do candidato, ao aperceberem-se do ato, agridem violentamente Adélio Bispo de Oliveira.

O atual presidente, Michel Temer, declarou ser 'intolerável' a agressão a Jair Bolsonaro. Dilma Rousseff também reagiu ao atentado: "O Brasil é um país que não gosta do ódio. Nós temos que recompor a nossa capacidade de diálogo. O ódio, quando se planta, você colhe tempestade. Foi assim em qualquer lugar do mundo. Quando se radicaliza, se incentiva a perseguição. Lamento muito que estas coisas tenham acontecido", afirmou Dilma.

Os restantes candidatos às eleições presidenciais de outubro condenaram o ataque com arma branca sofrido por Jair Bolsonaro durante a ação de campanha. Segundo uma compilação feita pelo jornal "A Folha de São Paulo", que reúne os testemunhos dos vários candidatos, o representante do PT, Fernando Haddad, classificou como "absurdo" e "lastimável" o incidente dirigido ao candidato de extrema-direita. "Nós, democratas, temos que garantir o processo tranquilo e pacífico e reforçar o papel das instituições", declarou Haddad, ao ser informado sobre o episódio, durante entrevista ao canal MyNews.

O candidato pelo PSDB, João Doria, enviou uma nota oficial afirmando que o atentado a Jair Bolsonaro foi um ato de covardia: "Transmito a minha solidariedade ao deputado Jair Bolsonaro e aos seus familiares. Eleição não se faz com agressão. A covardia de um ato que agride um candidato deve ser condenada com veemência".

Já o candidato do PDT, Ciro Gomes, usou o Twitter para classificar o ataque como uma "barbárie": "Acabo de ser informado em Caruaru, Pernambuco, onde estou, que o deputado Jair Bolsonaro sofreu um ferimento a faca. Repudio a violência como linguagem politica, solidarizo-me com meu opositor e exijo que as autoridades identifiquem e punam o ou os responsáveis por esta barbárie".

Também Geraldo Alckmin (PSDB) condenou o ataque a Bolsonarro: "Política se faz com diálogo e convencimento, jamais com ódio. Qualquer ato de violência é deplorável. Esperamos que a investigação sobre o ataque ao deputado Jair Bolsonaro seja rápida, e a punição, exemplar". O candidato João Amoêdo disse que é lamentável e inaceitável o que aconteceu. "Independentemente de divergências políticas, não é possível aceitar nenhum ato de violência. O Brasil lutou muito para voltar à democracia e a ter eleições limpas e livres. A violência não pode colocar essas conquistas em risco. Que o agressor sofra as devidas punições. Meus votos de melhoras para o candidato".

"A violência contra Bolsonaro é inadmissível', disse também a candidata Marina Silva, acrescentando que "configura um duplo atentado: contra sua integridade física e contra a democracia. Neste momento difícil que atravessa o Brasil, é preciso zelar com rigor pela defesa da vida humana e pela defesa da vida democrática e institucional do nosso País. Este atentado deve ser investigado e punido com todo rigor. A sociedade deve refutar energicamente qualquer uso da violência como manifestação política", finalizou a candidata.

Há já vários vídeos do momento do ataque

Segundo a Polícia Federal, que é responsável pela integridade dos candidatos, Bolsonaro fizera questão em ser acompanhado pela força policial. A Polícia considera que o "ferimento é superficial", mas garantiu que ia acompanhar atentamente o que acontecera devido à sua gravidade.

Em comunicado oficial, a Polícia Federal resumiu assim o episódio: "A Polícia Federal informa que o candidato à Presidência da República, Jair Messias Bolsonaro, contava com a escolta de policiais federais quando foi atingido por uma faca durante um ato público na cidade de Juiz de Fora/Minas Gerais. O agressor foi preso em flagrante e conduzido para a Delegacia da PF naquele município. Foi instaurado inquérito policial para apurar as circunstâncias do fato."

"A mando de Deus"

O homem suspeito de ter esfaqueado o candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro (PSL) disse à polícia, durante o interrogatório após ser preso, que o crime "foi a mando de Deus", de acordo com O Globo, que teve acesso ao boletim da ocorrência.

"Nos afirmou ainda que o motivo do intento se deu por motivos pessoais, os quais não iríamos entender, dizendo também em certos momentos que foi a mando de Deus. As testemunhas disseram à polícia que 'o candidato estava sobre os ombros de um homem, momento em que o autor aproximou com a faca em uma das mãos, enrolada aparentemente em uma camisa de cor clara'", pode ler-se no boletim da polícia Civil de Minas Gerais. As autoridades, entretanto, já fizeram buscas à residência do suspeito, em Montes Claros, no Estado de Minas gerais.

De acordo com relatos da imprensa brasileira, o suspeito já mostrara várias vezes distúrbios mentais. De acordo com um familiar, Adélio já teria mesmo ameaçado elementos da própria família, que devido a falta de condições financeiras nunca o puderam submeter a tratamentos. São ainda conhecidas várias fotografias do agressor em manifestações contra políticos, nomeadamente uma onde surge ao lado de um cartaz onde se lê que os "políticos são inúteis".

Em alta nas sondagens

A agressão a Jair Bolsonaro (PSL) acontece no dia em que foram anunciadas as sondagens mais recentes. O candidato continua a liderar as sondagens num cenário sem a presença de Lula da Silva, cuja candidatura foi indeferida pelo Tribunal Superior Eleitoral nesta semana. O deputado e capitão do exército na reserva, de extrema-direita, soma 22%, mais dois pontos do que na anterior pesquisa. Seguem-no, rigorosamente empatados, Marina Silva (Rede), de centro, que não subiu face à última sondagem do Instituto Ibope, e Ciro Gomes (PDT), de centro-esquerda, com aumento de três pontos nas intenções de voto, ambos na casa dos 12%.

No quarto lugar está Geraldo Alckmin (PSDB), de centro direita, com nove pontos, mais dois do que na pesquisa de 20 de agosto. Em quinto, também com subida de dois pontos e agora com 6%, está Fernando Haddad, de centro-esquerda, o substituto de Lula ainda não oficializado pelo PT.

Em contrapartida, Bolsonaro é também o presidenciável mais rejeitado: 44% dos 2200 ouvidos pelo Ibope não votariam "de forma alguma" no deputado. Os outros principais candidatos têm taxas de rejeição entre os 20% e os 26%, sendo que Haddad passou de 16 para 23 pontos.

O liberal João Amoêdo (Novo) continua a subir, chegando agora a 3%, tantos quantos Álvaro Dias (Podemos), de centro-direita, e mais um do que Henrique Meirelles (MDB), também da mesma área política.

O Instituto de sondagens Ibope divulgou entretanto um comunicado a explicar que, como a pesquisa foi efetuada entre os dias 1 e 3 de setembro, já depois do Tribunal Superior Eleitoral ter vetado Lula, decidiu não incluir o seu nome. Manuela D'Ávila, do PCdoB, eventual candidata a vice-presidente de Haddad, reagiu pelas redes sociais dizendo que "primeiro prenderam o Lula e ele continuou a subir nas sondagens, agora prenderam as sondagens".

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