"Isto é um monstro" - furacão Florence atinge esta quinta-feira a costa leste dos EUA

O governador da Carolina do Norte, Roy Cooper, classificou como "monstro" o Florence. Costa Alves, metereologista português, diz que poderá ser "potencialmente muito grave" em termos de efeitos

Joana CapuchoPatrícia Viegas
"Rezem por Wilmington" lê-se numa placa de madeira usada para proteger uma loja naquela cidade da Carolina do Norte que espera a chegada do Florence | foto REUTERS/Ernest Scheyder
Residentes da Carolina do Norte correram a abastecer os carros de combustível antes da chegada do Florence | foto REUTERS/Anna Driver
Os donos do The Dive Restaurant em Carolina Beach preparam-se para a chegada do Florence | foto EPA/CAITLIN PENNA
Muitos residentes das zonas que serão afetadas pelo furacão já deixaram as suas casa | foto REUTERS/Chris Keane
Mais de um milhão de pessoas já foram retiradas das suas casas | foto EPA/CAITLIN PENNA
As prateleiras dos supermercados estão vazias após os residentes encherem as despensas na perspetiva da chegada do Florence
Residentes de Surfside Beach, na Carolina do Sul, já protegeram as casas | foto REUTERS/Randall Hill
Presidente dos EUA Donald Trump durante um briefing sobre o Florence na Casa Branca | foto REUTERS/Leah Millis
Gráfico sobre a hora de chegada dos ventos do National Hurricane Centre | foto D.R.
Gráfico do National Hurficane Center sobre a evolução do Florence | foto D.R.

O furacão Florence deverá atingir esta quinta-feira a costa leste dos EUA, segundo o National Hurricane Center, temendo os especialistas que este deixe um rasto de destruição e possa até causar várias mortes à sua passagem.

"Isto é um monstro. É grande. É um furacão extremamente perigoso, ameaçador, histórico", declarou em conferência de imprensa o governador da Carolina do Norte, Roy Cooper, sublinhando: "As ondas que vai trazer podem ser qualquer coisa nunca antes vista. Esta tempestade é diferente. Não arrisquem a vossa vida à frente deste monstro".

O Florence está a caminho de ser a pior tempestade de categoria 4 a atingir a Carolina do Norte em cem anos e as autoridades americanas já mandaram retirar de casa mais de um milhão de pessoas. Os responsáveis esperam ventos na ordem dos 256 km/h e até seis metros de chuva nas zonas costeiras. Segundo Ken Graham, diretor do National Hurricane Center, explicou à CNN, qualquer tempestade que provoque 3,6 metros de chuva já é considerada "potencialmente mortífera".

Ao DN, o meteorologista Costa Alves diz que, "se atingir a Carolina do Norte e a Carolina do Sul com grau 4 [numa escola composta por cinco níveis], embora as previsões indiquem que poderá passar para grau 3, o Florence poderá ser potencialmente muito grave em termos de efeitos".

Na opinião do especialista não será, no entanto, um dos mais destruidores das últimas décadas, como tem sido anunciado. "Se o compararmos com ciclones tropicais no passado e nos EUA, é claro que não é. Há furacões, como o Katrina e outros, que arrasaram as Caraíbas e a zona do Golfo do México".

A Carolina do Norte e a Carolina do Sul, explica o meteorologista, ficam numa "região muito exposta aos ciclones tropicais que infletem para norte na zona da Florida e varrem a costa leste dos EUA". Desde 1950, quatro furacões de intensidade 3 ou mais atingiram terra firme na zona entre Norfolk, Virgínia e Savannah, Georgia.

A agravar a situação, adianta Costa Alves, "existe muita chuva e os problemas da agitação marítima, onde a tempestade pode ser gerada". Na região da Carolina do Norte e da Pensilvânia, segundo o Washington Post, já choveu entre 150 a 300% do que é normal para esta altura.

Entre os efeitos esperados da passagem do Florence pela costa americana estão a formação de ondas com mais de cinco metros, inundações devido a chuvas, queda de árvores e danos nas portas, janelas e telhados das casas.

As autoridades da Carolina do Norte, Carolina do Sul, da Virgínia e Delaware pediram a 1,5 milhões de pessoas que deixem as suas casas. O presidente norte-americano, Donald Trump, pediu aos cidadãos que sigam as instruções oficiais.

"Fui informado de que esta é uma das piores tempestades a atingir a costa leste em muitos anos. E vai atingir diretamente a Carolina do Norte, Carolina do Sul, Virgínia. Por favor, estejam preparados, tenham cuidado e mantenham-se SEGUROS!", escreveu o chefe do Estado norte-americano na sua conta de Twitter.

Trump gravou, inclusivamente um vídeo, colocado no Twitter da Casa Branca, a reforçar esse apelo: "O furacão Florence está a aproximar-se rapidamente. Estamos preparados. Somos capazes de lidar com a situação. Saiam da frente dele, não joguem jogos com ele, é dos grandes, talvez dos maiores já vistos, com grandes quantidades de água. Apesar de tudo, podem acontecer coisas más, sabem como é, é a Mãe Natureza, nunca se sabe. Estejam prontos. Que Deus vos Abençoe".

De acordo com a investigação que tem sido feita, a tendência é para os furacões de maior intensidade, e consequentemente mais destruidores, serem cada vez mais frequentes. "Pensa-se que o aumento da temperatura nas camadas superficiais do oceano, aumentam as condições para que se gerem ciclogeneses, as condições iniciais de um furacão", explica Costa Alves.

A culpa, indica o meteorologista, é do aquecimento global, que faz aumentar a temperatura da atmosfera e das camadas superficiais do oceano. Pode haver, segundo o mesmo, "uma diferença na distribuição das áreas de ar quente, que são ciclogenéticas mais a norte". Tudo isto "pode refletir-se em maior número de ciclones tropicais no Atlântico e de maior intensidade".

Neste momento, existem outros dois furacões a movimentar-se no Atlântico: o Helene, de categoria 2 (com ventos até 175 km/hora), e o Isaac, de categoria 1 (com ventos de 110 km/hora).

Relativamente aos nomes dos furacões, Costa Alves recorda que "durante muito tempo, a Organização Meteorológica Mundial era machista e inspirava-se na ideia de que a mulher em casa era tempestuosa, razão pela qual lhes dava nomes femininos". Contudo, em 1970 começaram a ser usados também nomes masculinos, para acabar com a desigualdade de género.

Há uma lista atualizada periodicamente pela Organização Meteorológica Mundial e pela ONU, mas cada região possui a sua própria lista. Há nomes que são mais familiares no Atlântico, enquanto outros são mais comuns no Pacífico. Os nomes de furacões muito violentos não podem, no entanto, voltar a ser usados. É o caso do Katrina, por exemplo, que atingiu os EUA em 2005, provocando quase duas mil mortes, sobretudo em Nova Orleães, onde os diques que protegem a cidade cederam, provocando inundações.