Índia evacua localidades na fronteira com o Paquistão

Mais de dez mil pessoas já deixaram as áreas de risco. Islamabad desmente carácter "cirúrgico" do ataque de quinta-feira.

Forças do Paquistão e da Índia envolveram-se ontem em trocas de tiros que se prolongaram por várias horas na fronteira comum em Caxemira, dois dias depois de Nova Deli ter anunciado a realização de "ataques cirúrgicos" contra grupos "terroristas" na parte paquistanesa desta região.

"Tropas paquistanesas responderam de modo adequado a disparos indianos", que teriam começado às 00.00 em Portugal continental (04.00, hora local), e que não teriam provocado vítimas. Uma porta-voz do governo de Jammu e Caxemira, o setor da região sob administração da Índia, admitiu a existência de confrontos, mas sem adiantar quaisquer outros detalhes.

O incidente de ontem ocorreu um dia depois de as autoridades de Nova Deli terem reconhecido que procederam à evacuação das localidades situadas junto da denominada Linha de Controlo (LoC, na sigla em inglês), a fronteira de facto entre a Índia e o Paquistão em Caxemira, numa extensão em profundidade de dez quilómetros. A BBC revelava, por outro lado, que muitos residentes nestas áreas deixaram-nas por iniciativa e vontade próprias, mal surgiram as primeiras notícias da operação militar. Até ao final do dia de ontem, cerca de dez mil pessoas teriam abandonado as localidades do lado indiano da fronteira.

A evacuação daquelas localidades parece antecipar um cenário de escalada bélica entre os dois poderes nucleares do subcontinente, que já travaram sucessivos conflitos diretos em 1947, 1965 e 1999 na região, e onde estão ativos diferentes grupos islamitas que reivindicam os cerca de 43% de Caxemira sob controlo da Índia. Foram três destes grupos os visados nos "ataques cirúrgicos" de quinta-feira, que terão causado dezenas de mortos entre os islamitas, segundo a versão indiana.

Nova Deli justificou a operação em território paquistanês com o ataque sucedido a 18 de setembro contra uma base militar, na cidade de Uri, onde perderam a vida 18 militares indianos. O ataque foi o mais mortífero em anos recentes na Caxemira indiana.

Caxemira tem 43% do seu território sob controlo de Nova Deli, 37% sob controlo de Islamabad, tendo os restantes 20% sido cedidos pelo Paquistão à República Popular da China em 1963.

A operação das forças especiais indianas, que Islamabad nega ter sucedido nos termos descritos pelos comunicados militares divulgados em Nova Deli, está a ter repercussões algo inesperadas, com os cinemas das principais cidades paquistanesas a anunciarem a suspensão das exibições de filmes da Índia.

Uma decisão que foi seguida do anúncio de que os canais televisivos indianos passam a estar bloqueados no Paquistão e que atores paquistaneses, por iniciativa da associação dos produtores cinematográficos indianos, passam a estar interditos de trabalharem na indústria cinematográfica deste último país.

A decisão dos proprietários das salas de cinema paquistanesas estará em vigor por algumas semanas, admitindo-se que, caso se agravem ainda mais as tensões, a suspensão de filmes indianos - muito populares no Paquistão - será prolongada.

Islamabad nega

O governo do primeiro-ministro Nawaz Sharif divulgou um comunicado em que se afirma "repudiar em absoluto a reivindicação indiana de ter realizado "ataques cirúrgicos" em solo paquistanês". No mesmo comunicado, lê-se que o país "está em condições de contrariar os desígnios agressivos" de Nova Deli.

O relevo desta afirmação é o de que, a ter ocorrido nos termos descritos pela Índia, a operação em território paquistanês revela alguma debilidade deste país na matéria, para mais numa região tão fortemente militarizada como é a de Caxemira. O porta-voz das forças armadas paquistanesas, tenente-general Asim Saleem Bajwa, tentou minimizar o alcance desta interpretação, afirmando que as forças de Nova Deli teriam sofrido baixas, que estavam a ocultar, e que o desígnio real é uma escalada do conflito.

No território da Caxemira indiana lavra desde julho uma vaga de protestos que tiveram origem na morte de um ativista islamita. Desde então, são recorrentes as manifestações, tendo morrido já mais de 80 pessoas.

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