Franco está no novo cemitério. Terminou a "afronta moral"

Restos mortais do ditador foram levados do Vale dos Caídos para o cemitério de Mingorrubio. Para o primeiro-ministro Pedro Sánchez a Espanha atual "é fruto do perdão, mas não pode ser produto do esquecimento".

Os restos mortais de Francisco Franco já estão no jazigo familiar do cemitério de Mingorrubio - onde a viúva Carmen Polo está enterrada, em El Pardo, nos arredores de Madrid. O corpo do ditador espanhol voltou a ser sepultado esta quinta-feira depois de ter sido exumado do Vale dos Caídos, onde estava há quase 44 anos. Acabou a "afronta moral: o enaltecimento da figura de um ditador num espaço público", considerou Pedro Sánchez, o primeiro-ministro espanhol em funções.

Numa declaração institucional, no Palácio da Moncloa, a residência oficial do governo espanhol, Sánchez afirmou que com a exumação dos restos mortais de Franco dá-se mais um passo "na reconciliação" da sociedade espanhola, na qual a guerra civil e a ditadura de quase quatro décadas continuam a gerar muitas divisões.

A exumação do ditador espanhol decorre após o cumprimento do "mandato do parlamento, uma sentença do Tribunal Supremo e um compromisso do Governo de Espanha", fez notar o primeiro-ministro.

"A Espanha atual é fruto do perdão, mas não pode ser produto do esquecimento", sublinhou o chefe do governo, que lembrou os espanhóis que combateram o fascismo. "Demoramos muito tempo a livrarmo-nos de um regime repressor. E levamos quase o mesmo tempo para remover os restos mortais do seu arquiteto da homenagem pública", afirmou.

Vale dos Caídos será "uma homenagem a todas as vítimas do ódio"

"Uma ofensa à democracia espanhola". É assim que Sánchez classifica Vale dos Caídos, mandado construir pelo próprio Franco. É considerado como um monumento nacionalista de exaltação do franquismo, tendo sido construído graças ao trabalho forçado de 20 mil prisioneiros de guerra republicanos. Estão enterrados no Vale dos Caídos quase 34 mil combatentes dos dois lados da guerra civil.

O primeiro-ministro espanhol referiu ainda que dentro de alguns dias, quando reabrir as suas portas, o Vale dos Caídos "simbolizará algo diferente: a memória de uma dor que nunca deve ser repetida e uma homenagem a todas as vítimas do ódio".

No seu discurso, Sánchez realçou as diferenças entre a ditadura com a Espanha atual, que "está no oposto mais distante que pode haver do regime franquista". "Onde antes havia repressão e ditadura, hoje há liberdade e democracia. Onde havia uniformidade e imposição, hoje há diversidade cultural e territorial. Onde havia isolamento, hoje há Europa. Onde havia machismo e homofobia, hoje há feminismo e tolerância", reforçou o chefe do executivo espanhol.

A decisão de trasladar os restos mortais do antigo ditador foi justificada com o apoio da própria lei espanhola. "Desde o início do processo, o Governo defendeu que os restos mortais do ditador não poderiam continuar num mausoléu público que exaltaria sua figura, algo expressamente proibido pela Lei da Memória Histórica", indicou o executivo.

A trasladação está a ser realizada à porta fechada, apenas com a presença de familiares, da atual ministra da Justiça, Dolores Delgado, e de autoridades. Mas, junto ao cemitério para onde Franco está a ser transportado, foi sentida alguma agitação, com a presença de um grupo de opositores à decisão do governo.

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