FHC considera Guterres um dos maiores líderes da atualidade

Fernando Henrique Cardoso, antigo presidente brasileiro, afirma, em livro, que o hoje secretário-geral da ONU teria mais reconhecimento se fosse oriundo de um país maior.

António Guterres é um dos políticos mais elogiados por Fernando Henrique Cardoso no recém publicado no Brasil terceiro volume dos Diários da Presidência, série de livros que o presidente brasileiro de 1995 a 2002 vem lançando com base em gravações feitas à época. O hoje presidente de honra do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) considerava o então primeiro-ministro português pelo PS um dos maiores líderes mundiais a quem faltava apenas governar um país um pouco maior para se tornar referência internacional. Nas gravações, além da sempre intrincada política doméstica, o autor ainda se refere a Bill Clinton, Boris Ieltsin, Hugo Chávez e à então jovem Angela Merkel, entre outros líderes.

"Guterres é um dos maiores líderes do mundo contemporâneo", dizia FHC, as iniciais pelas quais é conhecido no Brasil. "Se não fosse primeiro-ministro de Portugal, se fosse de um país um pouco maior, bastava a Espanha, teria reconhecimento mundial", sentencia o político a propósito do hoje secretário-geral da ONU, com quem se encontrou muitas vezes entre 1999 e 2000, o período a que se refere o livro.

Em visita à Alemanha, Cardoso reuniu-se com o então chanceler Gerhard Schroeder, do SPD, mas impressionou-se mais no contacto com os líderes de outros partidos, nomeadamente a líder da CDU, "a moça que está substituindo o Helmut Kohl". "Ela sabe das coisas, uma pessoa de cabeça organizada e simpática - e quanto esse tipo de mulher ou de homem militante pode ser simpático", afirma a propósito de Angela Merkel.

Com Bill Clinton, relata encontro cordiais e divertidos. Contou-lhe o presidente democrata dos Estados Unidos que Boris Ieltsin, então presidente da Rússia, lhe havia proposto "você cuida do resto do Mundo e deixa a Europa para mim". Clinton disse ainda que o líder russo, falecido em 2007, não tinha "mais do que 45 minutos de lucidez por dia". Finalmente, o marido da candidata derrotada às últimas presidenciais americanas Hillary Clinton contou a FHC que os pais de Slobodan Milosevic se haviam ambos suicidado, razão pela qual o coração do ditador jugoslava era tão duro. "Os americanos são assim, sempre têm uma explicação psicológica para factos sociais", conclui o político do PSDB.

Cardoso muda de opinião sobre o general venezuelano Hugo Chávez num intervalo de dois meses. Primeiro parece-lhe "um homem que tem o sentimento de seu povo e certa visão bolivariana, quem sabe fora de moda, mas que modifica as coisas na Venezuela". Depois, já o considera "um coronelão com generosidade e muito atropelo mas que abre uma janela de esperança para os desavisados ou sem rumo, Lula à frente, já entusiasmado com ele".

Lula da Silva, que perdeu pelo Partido dos Trabalhadores (PT) as eleições presidenciais de 1994 e 1998 para o autor do livro, é um dos mais visados nas partes, maioritárias, em que a obra aborda a política doméstica - tal como Itamar Franco, o seu antecessor no Palácio do Planalto.

Entretanto, na apresentação no Rio de Janeiro do Diários da Presidência, FHC destacou que embora só PT e PSDB tenham apresentado candidatos competitivos às eleições desde a redemocratização, nunca nenhum dos dois dominou o Congresso Nacional. "Isso foi levando cada um desses dois partidos a buscar apoio onde fosse possível e deu no que deu, uma tragédia nacional, com um partido que veio com ideias renovadoras, como o PT, a aderir a práticas tradicionais e a exagerar nelas ao ponto de institucionalizar a corrupção".

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