Extrema-direita cai. Verdes crescem. Dinamarca a caminho de uma grande coligação?

Onze dias depois de terem votado para as eleições europeias, os dinamarqueses voltam às urnas para as legislativas. A extrema-direita cai e os liberais e os verdes crescem neste país que faz parte da UE mas não da zona euro.

Tradicionalmente, a política dinamarquesa divide-se em dois blocos: o vermelho, que vai do centro-direita à esquerda radical, e o azul, que vai do centro-direita à extrema-direita. Nos últimos quatro anos, tem governado o segundo, numa coligação entre os conservadores-liberais do Venstre (V), os liberais libertários da Aliança Liberal (LA) e os conservadores do Partido Popular Conservador (KF), apoiada pelo Partido Popular Dinamarquês (DF), formação de extrema-direita.

As sondagens para as legislativas desta quarta-feira na Dinamarca indicam, porém, que será preciso ainda mais imaginação para conseguir formar um governo maioritário neste país que, apesar de pertencer à União Europeia, não é da zona euro (a Dinamarca é, a par do Reino Unido, o único país que tem exclusão em relação à moeda única contida nos tratados). 4,3 milhões de eleitores dinamarqueses são chamados de novo às urnas 11 dias depois da votação para o Parlamento Europeu (nestas, a taxa de participação, de 66%, foi a mais elevada de sempre no país em europeias).

Em primeiro lugar surgem os sociais-democratas (S) de Mette Frederiksen, sucessora de Helle Thorning-Schmidt, que entre outubro de 2011 e 25 de junho de 2015 foi a primeira mulher primeira-ministra da Dinamarca. O mesmo aconteceu em 2015. Mas não chegaram a governar dada aquela coligação liderada por Lars Lokke Rasmussen, do Venstre. Este partido ficará, de acordo com as sondagens, em segundo lugar nas legislativas, em 2015 ficou em terceiro. Esta posição é agora ocupada pelo DF, formação de extrema-direita que há quatro anos causou surpresa ao ficar em segundo. Dos 21,1% conquistados em 2015, o partido surge agora com 9,9% nas previsões das sondagens.

O DF foi ultrapassado nas europeias pelos verdes do SF, que ficaram em terceiro, depois dos S e dos liberais do V. O mesmo poderá vir a acontecer nas legislativas. O SF, que em 2015 obteve 4,2%, surge agora creditado com 8,7%. A troco de poderem vir a apoiar uma eventual coligação liderada pelos S de Mette Frederiksen, integrando o um bloco vermelho, este partido verde exige que a líder dos sociais-democratas tenha uma posição muito mais firme em relação à luta contra as alterações climáticas.

Rara vitória para os sociais-democratas?

Nesta quarta-feira, Frederiksen, de 41 anos, pode conseguir uma vitória para os sociais-democratas, pouco frequente ultimamente na UE, se a isso de descontar as recentes vitórias nas legislativas, europeias e autárquicas do espanhol Pedro Sánchez. Mas as suas políticas não são exatamente iguais às dos típicos sociais-democratas europeus, sobretudo no que respeita à imigração. Tema em relação ao qual o partido tem uma abordagem mais dura do que é habitual nesta família política. O que também poderá explicar em parte a queda das intenções de voto na extrema-direita no país.

"Se apenas a extrema-direita falar dos problemas, então as pessoas só procurarão as soluções na extrema-direita. Se eu fosse um liberal de extrema-direita ou estivesse num país anglo-saxónico, abrir fronteiras não seria um problema. Mas para um Estado social escandinavo como é o nosso a imigração tem de ser controlada", disse ao Financial Times Mattias Tesfaye, que aos 39 anos é porta-voz dos sociais-democratas para as questões da imigração. Tesfaye é, ele próprio, filho de um imigrante, o pai é etíope e a mãe é dinamarquesa.

O S tem indicado que prefere governar em minoria, com o apoio tanto da direita como da esquerda, para fazer avançar políticas na área social, na educação e precisamente na imigração. Porém, um outro cenário é possível, apesar de menos provável. No livro Befrielesens øjeblik (Momento de Libertação), apresentado em meados de maio, o atual primeiro-ministro dinamarquês Rasmussen, de 55 anos, falou na hipótese de uma grande coligação entre V e S.

Tal coligação não seria inédita, pois já aconteceu entre 1978 e 1979, quando o social-democrata Anker Henrik Jørgensen incluiu os liberais no governo. "Há, evidentemente, dilemas naturais, mas ao mesmo tempo não duvido de que é uma opção real. Muitas políticas já são acordadas ao centro. Isso já acontece hoje", diz Rasmussen à autora Kirsten Jacobsen, segundo a versão dinamarquesa do jornal The Local. O líder do V admite que Frederiksen possa ser primeira-ministra. "Acho que tenho muito a oferecer, mas a minha presença não deve interferir, de todo, no que é melhor para a Dinamarca."

Nnos últimos quatro anos, notou o jornal Politiken, sociais-democratas e conservadores-liberais votaram da mesma forma em 90% das 824 propostas legislativas levadas a votação no Parlamento. "Há 12 partidos a concorrer. Isso não é por haver um espectro político mais vasto do que havia anteriormente. Não há mais desacordo. Penso é que os dinamarqueses estão agora mais de acordo do que alguma vez estiveram", acrescentou Rasmussen, numa altura em que as sondagens sugerem que, mesmo havendo uma tal coligação, continuaria a ser necessário o apoio pontual de outros partidos.

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