Ex-conselheira de Trump: "Estamos a ficar sem tempo para parar a Rússia"

Durante as audições na Comissão dos Serviços Secretos, Fiona Hill lançou um alerta em relação à interferência de Moscovo na política norte-americana. A presidente da Câmara dos Representantes diz que as provas contra o presidente são claras.

A ex-conselheira para a Rússia do presidente Donald Trump, Fiona Hill, alertou os congressistas contra a promoção de falsidades que minimizam as tentativas da Rússia de interferir nas eleições americanas. Já o conselheiro político na embaixada da Ucrânia David Holmes recordou o telefonema que ouviu entre o embaixador Sondland e o presidente dos EUA. "Trump só se preocupa com coisas muito importantes relacionadas com ele, como a investigação a Biden", disse o embaixador na UE a Holmes.

Fiona Hill disse que durante as sessões da Comissão de Serviços Secretos da Câmara dos Representantes ouviu perguntas e declarações de alguns membros que dão a ideia de que não acreditam que a Rússia dirigiu uma campanha contra os Estados Unidos durante a campanha para as eleições presidenciais de 2016. Alguns congressistas republicanos da comissão têm sido uma caixa de ressonância de Donald Trump ao voltarem a falar sobre uma teoria de conspiração falsa, e usada pelo presidente, de que foi a Ucrânia e não a Rússia que interferiu nas últimas eleições.

"Esta é uma narrativa fictícia que foi perpetrada e propagada pelos próprios serviços de segurança russos", disse Hill, que durante mais de dois anos e até julho foi a diretora de assuntos europeus e russos do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca. "No decurso desta investigação, peço que não promovam, por favor, falsidades politicamente motivadas que promovam tão claramente os interesses russos", declarou.

Fiona Hill, britânica naturalizada norte-americana, alertou os representantes que a Rússia continua a tentar interferir na política interna dos EUA.

"O objetivo do governo russo é enfraquecer o nosso país para diminuir o papel global da América e para neutralizar uma ameaça americana aos interesses russos. O presidente Putin e os serviços de segurança russos pretendem contrariar os objetivos da política externa dos EUA na Europa, incluindo na Ucrânia, onde Moscovo deseja reafirmar o domínio político e económico. Continuo a acreditar que precisamos de procurar caminhos para estabilizar a nossa relação com Moscovo enquanto contrariamos os seus esforços para nos prejudicar. Neste preciso momento, os serviços de segurança russos e os seus agentes estão preparados para repetir a sua interferência nas eleições de 2020. Estamos a ficar sem tempo para os parar", afirmou.

A audiência de Hill e Holmes concluiu as sessões da Comissão de Serviços Secretos da Câmara dos Representantes sobre o papel do presidente ao condicionar o homólogo ucraniano Volodymyr Zelensky para anunciar a abertura de investigações ao filho do ex-vice-presidente Joe Biden, um pré-candidato do campo democrata às eleições de 2020, bem como à teoria da conspiração de que a Ucrânia tinha interferido nas eleições.

Hill recordou uma reunião que decorreu no dia 10 de julho na Casa Branca com altos funcionários ucranianos e americanos, na qual a investigação foi discutida e na qual Gordon Sondland, embaixador na União Europeia, disse que havia um acordo para uma reunião da Casa Branca se a Ucrânia iniciasse certas investigações.

A declaração escrita de Fiona Hill pode ser lida aqui.

"Nunca vi nada assim"

Já David Holmes recordou perante os congressistas os pormenores do telefonema realizado no dia 26 de julho por Sondland a Trump em Kiev. "Então, ele [Zelensky] vai fazer a investigação?", Trump perguntou a Sondland. "Ele vai fazê-lo", respondeu o diplomata, segundo o que Holmes ouviu -- uma ligação não segura através de um telemóvel no meio de um restaurante com o chefe de Estado norte-americano. Sondland acrescentou que o presidente ucraniano faria "qualquer coisa" que Trump lhe pedisse", disse Holmes.

"Nunca vi nada assim", disse Holmes para justificar porque se recorda de todos os pormenores da chamada. E porque questionou Sondland sobre o tema. Ao que o diplomata sem currículo na área -- é um empresário do ramo hoteleiro e foi um doador da campanha de Trump -- respondeu que o presidente não se preocupa com a Ucrânia mas com temas importantes para ele, caso da investigação a Biden.

Trump negou ter cometido irregularidades, bem como negou ter intimidado testemunhas e tem descrito o processo de destituição como uma "caça às bruxas". Perante o testemunho demolidor de Sondland na quarta-feira, Trump afirmou "não conhecer bem" o embaixador durante uma declaração marcada pelo insólito de ter lido em letras garrafais, escritas a marcador, o que terá dito a Sondland num telefonema entre ambos. "Não houve quid pro quo", repetiu.

Como todas as testemunhas indicaram, foi o advogado pessoal do presidente, Rudy Giuliani, quem liderou a equipa e os contactos.

"A partir de março de 2019, a situação na embaixada e na Ucrânia mudou de forma drástica. Especificamente, as três prioridades de segurança, economia e justiça, e o nosso apoio para a resistência democrática ucraniana à agressão russa ficaram ofuscadas por uma agenda política promovida pelo ex-presidente da Câmara de Nova Iorque, Rudy Giuliani, e por um grupo de funcionários a operar com um canal direto para a Casa Branca. Essa mudança começou com o aparecimento de notícias na imprensa críticas em relação à embaixadora Yovanovitch e maquinações do então procurador-geral Lutsenko e outros para descredibilizá-la", declarou Holmes.

O conselheiro recorda outra frase de Sondland, esta durante uma reunião preparatória da cerimónia de tomada de posse de Zelensky. "Raios partam o Rudy. Cada vez que ele se envolve lixa tudo."

As provas são claras, diz Pelosi

"As provas são claras de que o presidente tem usado o seu cargo para seu próprio proveito e, ao fazê-lo, comprometeu a segurança nacional", disse a presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, em conferência de aos jornalistas. "Ele violou o seu juramento."

Pelosi disse que a Câmara ainda não tomou qualquer decisão sobre o calendário para avançar com os artigos de destituição contra Trump. Até porque podem ser ouvidas mais testemunhas. "Ainda não terminámos. O dia ainda não acabou e nunca se sabe se o testemunho de uma pessoa pode levar à necessidade do testemunho de outra."

E deixou um desafio ao presidente para que este se apresente na Câmara para testemunhar. "Parece que os factos são incontestáveis sobre o que aconteceu. No entanto, se tem informações em contrário, e se tem razões para convencer as pessoas de que algo foi diferente, por favor, deixe-nos saber, sob juramento."

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