"EUA e UE devem unir-se para travar a China"

Com Brexit ou sem, Gordon Sondland, embaixador dos EUA junto da UE, diz que é preciso redefinir a relação com os europeus para estabelecer um código de conduta a nível global face à crescente influência da China

Gordon Sondland, embaixador dos EUA junto da UE, admite que, desde a eleição de Donald Trump, falar sobre certos assuntos tornou-se muito difícil, mas que é preciso que haja uma boa parceira entre os dois blocos. "Queremos que a União Europeia seja um bom parceiro", disse esta semana o diplomata, num encontro com jornalistas em Madrid, citado pela agência Efe.

No entender do embaixador, por causa das diferenças com o presidente republicano, os EUA não têm sido tratados por Bruxelas como "o melhor amigo" e declarou-se "dececionado com isso". Sondland espera que "a nova liderança" da Comissão Europeia e das restantes instituições europeias contribuem para "endireitar" a relação bilateral.

"O verdadeiro objetivo aqui é a China, o verdadeiro objetivo é que os EUA e a UE devem unir-se para travar a China. para estabelecermos juntos um sistema global onde nós fixemos os standards e as normas de conduta e a China nos siga e não o contrário", argumentou o responsável norte-americano, defendendo um "debate comercial mais produtivo" com a UE, quer haja Brexit ou não.

Em meados de junho, numa entrevista ao site especializado em assuntos europeus Euractiv.com, o embaixador dos EUA junto da UE afirmou: "Acho que ambos questionamos as intenções da China. Nos últimos 30 anos eles construíram o seu país com base no roubo de propriedade intelectual e transferência forçada de tecnologia. Fizeram-no à moda antiga - roubaram. Não se faz isso aos outros e não queremos um mundo que opere dessa forma. Por isso, acho que temos que ser parceiros em lidar com a China para, assim, sermos mais fortes".

Relativamente à Huwaei e às disputas sobre o desenvolvimento da rede 5G, o diplomata aconselha os europeus a apostar em tecnologia desenvolvida pelos ocidentais e a deixar cair a Huwaei. "A UE deveria subscrever o que está a ser agora desenvolvido como aquilo a que eu chamaria tecnologia ocidental, que tem uma boa certificação. Está a ser produzida uma lista de critérios que um país que está a considerar comprar um equipamento tem que cumprir e esses critérios têm que ver com o assumir de um compromisso de boas práticas. Enquanto os países comprarem equipamentos ou se comprometerem com empresas que respeitam essa lista, está tudo bem. E haverá muitas empresas dispostas a cumprir com essa lista".

Os presidentes dos EUA e da China, Donald Trump e Xi Jinping, respetivamente, vão encontrar-se este sábado em Osaka, onde decorre a cimeira do G20. Os dois líderes estarão interessados em anunciar um acordo, ainda que provisório, depois de meses de tensão e pressão em relação à Huwaei e ameaças de imposição de taxas alfandegárias. Segundo o South China Morning Post, que cita fontes próximas das duas delegações em Osaka, o acordo prevê o adiamento da aplicação de mais taxas alfandegárias por parte dos EUA, no valor de 300 mil milhões de dólares. Pequim quer que Washington acabe com as sanções à empresa de telecomunicações Huawei e em troca compromete-se a comprar mais produtos norte-americanos - o setor agrícola dos EUA, por exemplo, foi bastante afetado com a guerra comercial.

O jornal de Hong Kong revela que o adiamento da imposição das tarifas adicionais foi a condição imposta pelo presidente chinês, Xi Jinping, para se reunir com o homólogo norte-americano, Donald Trump, durante o G20. O objetivo desta trégua, que as fontes sugerem que durará cerca de seis meses, seria retomar as negociações, visando pôr fim à guerra comercial que começou no verão passado.

No entanto, e tendo em conta o temperamento de Donald Trump, as fontes citadas pelo jornal temem que o presidente dos EUA mude de ideias a qualquer momento. Na quarta-feira anunciara estar "preparado" para impor novas taxas alfandegárias, caso as negociações fracassem. O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Steven Mnuchin, garantiu que um acordo comercial entre a China e os Estados Unidos está concluído em 90%.

Na quinta-feira, Xi Jinping encontrou-se com o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe. "Os dois líderes concordaram em desenvolver um sistema de comércio livre e justo", disse no final o vice-secretário do gabinete nipónico. Ambos os países estão envolvidos numa disputa comercial com os Estados Unidos, já que a maior economia do mundo ameaça com tarifas para reverter o que o presidente Donald Trump diz serem desequilíbrios injustos que prejudicam a economia dos EUA.

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