Estas nações eram exemplos de sucesso no combate ao vírus. Agora já não são

Hong Kong, Japão, Austrália e Israel eram elogiados pela eficácia com que lidaram com o novo coronavírus. Mas quando passaram à normalidade, os casos voltam a assustar e as restrições, até mais rigorosas, voltam a ser impostas.

Muitos países que foram elogiados pela resposta eficaz à pandemia estão agora a lidar com novos casos de covid-19 e alguns estão mesmo a braços com surtos de grande dimensão. É a prova que a pandemia pode ser controlada apenas de forma temporária e é difícil prever quando algum país conseguirá mesmo a ter zero casos, até haver uma vacina.

Nos Estados Unidos da América, a abordagem e a falta de medidas rigorosas para conter o surto reflete-se no maior número de casos e mortes no mundo e a CNN fez uma comparação com os países que pareciam ter tudo sob controlo até muito recentemente.

Hong Kong

Hong Kong foi elogiada pela rápida resposta em janeiro, quando implementou medidas que incluíram rastreamento de vírus, distanciamento social, incentivo à lavagem das mãos e outras medidas de proteção.

O governo tomou medidas adicionais para conter uma segunda onda em março, quando os residentes de Hong Kong começaram a regressar à cidade, transportando o vírus. As autoridades impediram os não residentes de entrar em Hong Kong, condicionaram o trânsito no aeroporto da cidade e implementaram quarentena e testes rigorosos nas chegadas.

Durante muitas semanas, os casos diários foram reduzidos a um dígito e às vezes zero.

Contudo, a região enfrenta uma "terceira onda" de infeções desde 6 de julho, com as autoridades a alertar para o potencial "crescimento exponencial" dos casos. Esta sexta-feira, a cidade confirmou 123 casos, o maior aumento num único dia desde o início da pandemia, segundo as autoridades de saúde. Reuniões públicas foram limitadas a quatro pessoas novamente depois de o limite ter subido para 50, academias foram fechadas e os viajantes que chegam agora devem apresentar um teste negativo.

A cidade introduziu uma obrigatoriedade de máscara pela primeira vez, embora muitos dos cidadãos já usassem de qualquer maneira. No total, a cidade registou 2.372 casos e as pessoas agora estão a ser instadas a ficar em casa.

Austrália

A Austrália era outro país considerado exemplar pela sua resposta à pandemia. Em 1 de fevereiro, a Austrália decidiu fechar as fronteiras a visitantes estrangeiros que tinham estado recentemente na China. Quando o vírus se espalhou, proibiu entradas do Irão, Coreia do Sul e Itália no início de março, antes de encerrar as suas fronteiras a todos os estrangeiros e não residentes em 19 de março.

O país proibiu reuniões públicas e viagens não essenciais como parte de uma série de restrições no final de março e o surto foi considerado amplamente sob controlo. Em 8 de maio, o primeiro-ministro australiano Scott Morrison anunciou um plano para reabrir o país até julho, quando o governo começou a suspender as medidas de distanciamento social, com os casos relatados no país a serem quase 7.000, com 97 mortes.

William Haseltine, presidente do grupo de reflexão ACCESS Health International, considerou a Austrália um exemplo para os EUA. Considerou que o país, junto com a China e a Nova Zelândia, lidou efetivamente com graves surtos do coronavírus e, através de testes, rastreamento de contactos e orientações claras, reduziu os casos a um dígito.

Mas tudo mudou e a a Austrália foi forçada a isolar 6,6 milhões de pessoas no estado de Victoria do resto do país em 7 de julho, após um surto na cidade de Melbourne. A fronteira entre Victoria e Nova Gales do Sul - os dois estados mais populosos da Austrália - foi encerrada pela primeira vez, o isolamento foi reimposto e as máscaras tornaram-se obrigatórias. Comprar comida, fazer exercício, ir trabalhar e tratar da saúde são as únicas exceções ao pedido de permanência em casa para Melbourne e a área circundante.

Victoria registou 403 novos casos de covid-19 na quarta-feira, o terceiro maior aumento diário de casos desde o início da pandemia, um pouco abaixo do recorde de 484 novos casos na terça-feira. A Austrália agora tem mais de 13.000 casos e 140 mortes.

Japão

O Japão também parecia ser dos melhores no combate ao vírus. Em 25 de maio, o primeiro-ministro Shinzo Abe suspendeu o estado de emergência, dizendo que o país tinha conseguido "travar o surto em cerca de um mês e meio".

As atividades comerciais e sociais recomeçaram e o governador de Tóquio, Yuriko Koike, disse que os museus e as instalações desportivas reabririam com condições de segurança, e que a escolarização seria reativada.

Mas as infeções começaram a aumentar e o Japão registou a maior contagem diária de 981 casos na quinta-feira, segundo o Ministério da Saúde, junto com duas mortes. O número total de casos no Japão é agora quase 29.000, com 994 mortes.

Várias das maiores cidades também registaram números recordes na quinta-feira.

Israel

Durante semanas, Israel também surgiu como um modelo internacional de sucesso. Com as restrições precoces de viagens e os amplos isolamentos, o país continha a disseminação do vírus, registando uma taxa de mortalidade melhor do que muitos países do mundo ocidental. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu falou muitas vezes sobre esse sucesso, alertando sobre os mais novos desafios e assumindo o crédito pelas vitórias.

Em 18 de abril, quase exatamente dois meses depois de Israel descobrir o seu primeiro caso, Netanyahu declarou que o país tinha conseguido vencer, estabelecendo um exemplo global "para salvaguardar a vida e bloquear o surto da pandemia". Previa que Israel também seria um exemplo no reinício da economia.

Mas a segunda vaga está aí. Apenas algumas semanas após a reabertura de restaurantes, shoppings e praias, Israel estava a ter um aumento de 50 vezes nos casos de coronavírus, de aproximadamente 20 novos casos por dia em meados de maio para mais de 1.000 casos diários, menos de dois meses depois.

No início de julho, Netanyahu anunciou que academias, piscinas, salas de eventos, bares e muito mais fechariam indefinidamente, enquanto restaurantes e locais de culto operariam com número limitado. A 17 de julho, Israel impôs uma série de limitações, aproximando o país de um segundo bloqueio completo, com os casos a atingirem outro recorde diário.

O governo anunciou que os restaurantes seriam limitados a serviço de entrega, as reuniões limitadas a 10 pessoas em ambientes fechados e as lojas, shoppings, museus e salões fecham aos fins de semana. A partir desta sexta-feira, as praias também encerram aos sábados e domingos.

Na quinta-feira, Israel atingiu um novo recorde de 1.819 novos casos em 24 horas. O recorde anterior de 1.758 foi estabelecido um dia antes.

As manifestações contra o governo têm aumentado em tamanho e frequência, com os manifestantes a protestar contra a corrupção, bem como a ação do governo na pandemia e o seu grave impacto económico.

República Checa

Em 1 de julho, na capital da república Checa, Praga, os habitantes construíram uma mesa gigante para realizar um enorme jantar público e comemorar o fim do coronavírus no país.

O país impôs regras e uso de máscaras muito cedo, que se tornaram obrigatórias para todos em qualquer lugar fora de casa a partir de 19 de março. Resultou. Mas um aumento dos casos durante a flexibilização das restrições levou a várias medidas serem de novo impostas. Os checos têm de novo usar máscaras em ambientes fechados, em todos os eventos com mais de 100 pessoas, incluindo casamentos e funerais, a partir do sábado. Todos estes eventos serão limitados a 500 pessoas, contra 1.000 anteriormente, anunciou o Ministério da Saúde checo esta sexta-feira.

Em Praga, as pessoas devem usar máscaras novamente em todas as instalações médicas, incluindo consultórios e farmácias. O país já registou 14.800 casos e 365 mortes.

Embora os novos números de casos permaneçam baixos em muitos destes países, em comparação com os países onde a pandemia está desenfreada - como EUA e Brasil -, os especialistas dizem que o aumento mais recente de casos mostra que, apesar dos controlos mais rigorosos, o vírus ainda representa uma ameaça.

E como o distanciamento social e as mudanças comportamentais não são uma ciência exata, os ressurgimentos realçam que erradicar completamente o risco pode ser impossível até que uma vacina seja encontrada.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG