"Não posso reservar espaço para o ódio. Preciso de espaço para o luto"

A 13 de novembro no Bataclan, em Paris, 90 pessoas morreram num atentado. Hélène Muyal-Leiris, 35 anos, era uma delas. Deixou um filho com 17 meses. O marido, Antoine Leiris, escreveu o livro Não Terão o Meu Ódio

Não odiar é uma reação racional ou emocional?

É racional. Quando se vive uma situação assim quem fala primeiro é o corpo. E o corpo manda sentir raiva. Manda chorar. Manda gritar. Mas, depois dessa primeira reação, conseguimos ligar o cérebro e pô-lo a funcionar. Compreendi que não podia aceitar esses primeiros instintos. Se os aceitasse, eles iriam crescer e ocupar cada vez mais espaço dentro de mim. E não posso deixar que isso aconteça. Preciso de espaço para o luto, para a Hélène, para o Melvil e para a alegria. Não posso reservar espaço para o ódio.

Citando uma passagem do seu livro: "Não perdoo nada, não esqueço nada, não passo por cima de nada e muito menos depressa". Algum dia irá perdoar?

É uma pergunta que não faço a mim próprio. Talvez porque não quero dar uma resposta.

De que forma é possível conjugar em simultâneo esses dois sentimentos: não perdoar e não odiar?

É difícil dar-lhe uma resposta. Não sei. Há muitas emoções que tomam conta de mim ao mesmo tempo e que vivem comigo. Cinco meses pode parecer muito tempo, mas, para mim, tudo aconteceu ontem. É como se tivessem detonado uma bomba atómica nos meus sentimentos e na minha vida. É preciso reconstruir tudo o que tenho cá dentro.

É o Melvil, o seu filho, que lhe dá a força necessária para não odiar?

Foi ele que fez com que eu não me afogasse. Sim, ele dá-me força. Mas o que me leva a não odiar é a reflexão que fiz sobre o que aconteceu. Sim, ele dá-me força, mas digo isto com pinças. Não quero que o Melvil seja obrigado a carregar algo demasiado pesado para os seus ombros tão pequenos. Quero que ele viva como qualquer outra criança.

Alguma vez pensou no que diria se tivesse oportunidade de estar cara a cara com os terroristas responsáveis pelo que aconteceu?

Não faço perguntas a mim próprio quando sei que não tenho resposta para elas. Se um dia me visse nessa circunstância teria de pensar. Agora não o quero fazer.

Deixe-me voltar a citá-lo: "Podia ter sido um condutor irresponsável que se esqueceu de travar, um tumor ligeiramente mais maligno do que os outros ou uma bomba nuclear, a única coisa que importa é que ela já cá não está". Apesar de o luto ser igual, um acidente de viação não seria mais fácil de aceitar?

Dentro de mim não haveria diferença. O que conta é que perdi a Hélène, o amor da minha vida, e que o Melvil perdeu a mãe. Essa perda ocupou todo o espaço. Só depois, vários dias depois, é que me vi obrigado a pensar na história. Tornei-me assistente do processo para conhecer as circunstâncias em que tudo aconteceu, porque sei que o meu filho um dia mais tarde vai querer saber. Mas a única coisa que conta é que a Hélène deixou de estar connosco. Essa dor é independente das circunstâncias. Seria sempre igual.

Escreve que "nessa noite a morte estava à espera da mãe dele". Acredita no destino?

Não. Escrevi essa frase para evitar começar a pensar em todos os "ses". Se a bala tivesse passado dois centímetros ao lado. Se ela não tivesse ido. Se o ataque tivesse acontecido três minutos mais tarde. Se, se, se. Essa espiral de "ses" pode destruir-nos.

Com que palavras disse ao Melvil que a mãe tinha morrido?

Com as palavras reais. Achei que ele devia ouvir as palavras reais: "morreu", "deixou de viver". Quis ser claro com ele. Não quis dizer que a mãe estava no céu entre os anjos. Encostei-o a mim quando lhe disse. Porque eles percebem a forma como o nosso coração bate. Sentem-nos pelo nosso corpo. Peguei numa fotografia da mãe, encostei-o a mim e disse-lhe. Quando a Hélène morreu construí um muro. De um lado fiquei eu e o Melvil. E, do outro, a dimensão colectiva dos acontecimentos. Queria que eu e ele sentíssemos o nosso luto sozinhos. Na nossa privacidade. Sim, é verdade que escrevi um livro sobre o assunto. Talvez seja um paradoxo, não sei.

O que o levou a escrever o livro?

Não tive uma intenção específica. As palavras saíram, ficaram no computador e juntaram-se para formar o livro.

Gostaria que os terroristas que mataram a Hélène o lessem?

Nunca me coloquei essa questão. Até agora nunca tinha imaginado essa hipótese. Não sei.

"O livro não sarará as minhas feridas. Não saramos da morte. Contentamo-nos em domesticá-la. A fera é selvagem". Cinco meses depois, já conseguiu fazer progressos nesta tentativa de domar a besta?

Sim. Pouco a pouco. Passo a passo. A cada dia que passa é maior a compreensão do aspecto definitivo da sua ausência. Mas, por outro lado, a cada dia que passa tenho mais saudades da Hélène. O luto é precioso para mim. Porque este luto é dela e eu quero que ela faça parte da minha vida para sempre. Sei que a Hélène nunca mais irá voltar, apesar de às vezes ainda julgar que ela vai tocar à porta.

De alguma forma tornou-se um homem melhor?

Sou apenas o mesmo homem, com as mesmas dúvidas e fraquezas, a tentar fazer o que me parece certo. Tenho de fazer isso pelo Melvil. Ele precisa que eu esteja lá inteiro. E durante toda a vida vou falar-lhe da mãe. Não quero que a morte seja a única coisa que guardará dela. Vivemos juntos 17 meses muito felizes.

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