Eixo franco-alemão toma a iniciativa contra o tráfico humano

Encontro União Africana-União Europeia dominado pelo tema das redes criminosas que exploram os fluxos migratórios

Atuaram em separado, mas unidos pelo mesmo objetivo: Angela Merkel e Emmanuel Macron encararam o problema da imigração ilegal e o drama do trabalho escravo na Cimeira União Africana-União Europeia. As migrações e o tráfico de seres humanos passaram para primeiro plano deste encontro de alto nível, que hoje termina na capital da Costa do Marfim.

Na Alemanha foi castigada nas urnas pela abertura que manifestou à entrada de refugiados e migrantes. Ontem, em Abidjan, a chanceler Angela Merkel destacou a importância de acabar com o tráfico de seres humanos e a escravatura com a criação de uma rota legal para que os africanos cheguem à Europa. “Existe um interesse comum em acabar com a imigração ilegal. Esta questão ganhou nova preponderância em todo o continente africano porque há relatos de que jovens africanos estão a ser vendidos como escravos na Líbia”, disse Merkel.

A governante alemã sublinhou a importância do apoio europeu para pôr travão na imigração ilegal, “para que as pessoas não sofram em campos horríveis na Líbia ou inclusive acabem por ser transacionadas”.

Também presente na cimeira, o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, o social-democrata Sigmar Gabriel, sugeriu o acolhimento de centenas de milhares de africanos todos os anos na Europa, na condição de regressarem ao país de origem ao fim de três ou quatro anos.

Ontem à noite, à margem da cimeira, e sob a iniciativa do presidente francês Emmanuel Macron, reuniram-se dirigentes do Níger e do Chade (países a sul da Líbia), ONU, União Africana, União Europeia e França. É objetivo do Eliseu “concretizar a proposta de impor sanções contra os traficantes, desmantelar as redes e libertar as pessoas em risco”.

Uma reportagem da CNN mostrou a existência de um mercado de escravos na Líbia e noticiou a existência de outros. Trípoli, que “condena e recusa este tipo de práticas desumanas”, diz-se alvo de um ataque externo (ver texto ao lado).

Facto é que as notícias desencadearam reações indignadas e manifestações em várias cidades europeias. Alguns líderes africanos quebraram o silêncio. “É horrível que alguns nigerianos estejam a ser vendidos como cabras por meia dúzia de dólares na Líbia”, disse o presidente nigeriano, Muhammadu Bihari.

Para o presidente da Comissão da União Africana, Moussa Faki Mahamat, o desemprego e a pobreza são a raiz do problema: “Atiram dezenas de milhares para as estradas que os levam à morte e à escravidão. Falo-vos horrorizado e assombrado pelas imagens de migrantes africanos vendidos em leilão.”

Em entrevista à Lusa, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres declarou a existência de “uma consciência internacional” sobre a crise migratória que é “algo de profundamente errado que tem de ser corrigido”, quer nas políticas de migração, quer nas políticas de desenvolvimento africano. Já o primeiro-ministro português António Costa afirmou que os “jovens não devem ser obrigados a emigrar, mas sim ter a oportunidade de poder contribuir para o desenvolvimento do continente”.

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