Depois do inferno, as cheias. Chuva não chega para apagar fogos na Austrália

A precipitação de quarta e quinta-feira trouxe alívio aos moradores das regiões mais afetadas pelos incêndios, mas as fortes tempestades causaram inundações em Melbourne.

Depois dos incêndios, que ainda lavram principalmente no leste do país, a Austrália recebeu com alegria as chuvas que caíram nos estados de Victoria e de Nova Gales do Sul (NSW), as regiões mais afetadas pelos fogos. A precipitação de quarta e quinta-feira não ajudou, no entanto, a controlar as chamas e as fortes tempestades causaram inundações em Melbourne.

Continuam por extinguir 80 incêndios em NSW e 18 em Victoria e esta quinta-feira começaram dois novos incêndios no parque nacional Great Otway de Victoria, na costa sul do estado, escreve o The Guardian.

O Serviço de Bombeiros Rural de NSW e as autoridades de Victoria disseram que a chuva que caiu não foi suficiente para apagar os incêndios, mas que ajudou a conter as chamas.

A temporada de incêndios florestais sem precedentes da Austrália já destruiu mais de 10 milhões de hectares de terra, causou 28 vítimas mortais e destruiu milhares de casas em todo o país.

Está prevista mais chuva para esta quinta e sexta-feira, nomeadamente em Albury, perto do gigantesco incêndio que está a atingir o NSW Snowy Valley e em Omeo, em East Gippsland.

Emitidos alertas severos de tempestade em quase todo o leste de NSW

Em Melbourne, onde a qualidade do ar foi classificada de "perigosa" e que levou à emissão de avisos de saúde, os fumos foram substituídos quarta-feira à tarde por fortes tempestades e pela possibilidade de granizo.

A chuva trouxe alegria aos bombeiros, agricultores e a moradores de todo o estado, mesmo que em algumas zonas a quantidade de precipitação tenha sido muito pequena,

Na terça-feira, o Bureau of Meteorology - o agência de meteorologia do país - tinha alertado para a possibilidade de chuvas fortes e súbitas que poderiam ser "uma faca de dois gumes": tanto poderiam ajudar os bombeiros, como aumentar o estado de alerta, uma vez que poderiam causar inundações e deslizamentos de terra em áreas devastadas pelo fogo.

A agência Lusa dá conta de como a chuva mudou o estado de espírito dos moradores das áreas afetadas pelos fogos

"O fogo varreu 15 quilómetros em 25 minutos", conta a funcionária de um café em Braidwood, uma pequena vila histórica, já depois dos montes, onde o parque nacional deu lugar a planície e o fogo não chegou.

Dos dois lados da estrada, praticamente só se vê árvores queimadas, marcas de um fogo que galgou aceleradamente os altos e baixos dos montes do que é um dos maiores parques desta região.

"É uma tragédia", diz, enquanto serve 'cappuccinos' e 'lattes' a clientes, a maioria residentes. São poucos os turistas no que é a época alta do ano por estas bandas.

Praticamente deserta - a Kings Highway reabriu na terça-feira, mas só esta quinta-feira começou a ter mais trânsito -, a principal via de ligação entre a capital australiana e a costa, é um símbolo da devastação dos fogos australianos.

Aqui e ali alguns habitantes - as casas foram poupadas às chamas que queimaram quase tudo à sua volta - estavam hoje em limpezas, empilhando troncos carbonizados e restos de árvores.

Uma limpeza antes da chuva que chegou esta quinta-feira à região, infelizmente tarde para os fogos e insuficiente para evitar novos incêndios se o tempo seco voltar.

Várias estradas rurais continuam com sinais de proibição de passagem e algumas equipas de funcionários autárquicos, com camiões e retroescavadoras, removem restos de árvores mais próximo da estrada.

Esta zona, e especialmente mais para sudeste daqui, ao longo de toda a costa do estado de Nova Gales do Sul e da vizinha Victoria, foi das mais afetadas pelos incêndios.

E quase parece ironia que seja dias depois de alguns dos grandes focos de incêndio terem sido apagados, num intenso combate de bombeiros e residentes, que a chuva finalmente chega: tempestades fortes e muita chuva, em alguns locais, durante a madrugada.

A chuva que hoje chegou à zona leste da Austrália encheu a imprensa e as redes sociais de imagens de celebração.

A ABC Rádio Rural entrevistou Nick Andrews, um tosquiador de lã numa propriedade em Broken Hill, no interior de Nova Gales do Sul (NSW), que tinha prometido deixar crescer a barba até que chovesse mais de um milímetro num dia.

Entre quarta e quinta-feira a propriedade recebeu 35 milímetros: o homem cortou a barba, que a seca tinha obrigado a deixar crescer 21 meses.

Em zonas como Coonamble, onde também choveu a sério pela primeira vez em longos meses, crianças e adultos vieram para a rua apanhar chuva.

Mas nem tudo foram boas notícias. A chuva levantou preocupações sobre o impacto que a água com cinzas arrastadas pode ter nas bacias hidrográficas.

Em algumas zonas, a chuva só serviu para tirar o pó a áreas onde o solo estava, em alguns casos, gretado pela seca. Seriam precisos muitos dias consecutivos de chuva assim.

Fontes dos serviços de emergência confirmaram à Lusa que em Victoria ardem 18 fogos e 80 em NSW e que no Parque Nacional de Grande Otway (Victoria) a trovoada provocou dois novos fogos.

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