Depois das regionais, e agora?

Partidos já pensam no próximo desafio: as presidenciais de 2017

Depois das regionais, onde nenhum partido pode clamar vitória, é hora de balanços já a pensar no próximo desafio: as presidenciais de 2017.

Os adversários de Sarkozy nas primárias d'Os Republicanos não perdem tempo a marcar posição. A derrota socialista foi menos grave do que o previsto e o presidente Hollande pode sair beneficiado. E Le Pen, apesar de não ter ganho nenhuma região, espera que a Frente Nacional continue a crescer.

Sarkozy afasta a n.º 2 e prepara debate n'Os Republicanos

Os Republicanos, de Nicolas Sarkozy, podem ter ganho as eleições regionais, conquistando sete regiões e 40,2% dos votos. Mas na sede do partido, o ambiente não era ontem de festa, com o ex-presidente a anunciar a entrada de uma nova equipa dirigente já a partir de janeiro - numa tentativa de preparar o caminho para as presidenciais de 2017. As primárias para escolher o candidato da direita são em novembro de 2016, mas há quem já fale em antecipar esse voto.

O principal alvo da limpeza pós-eleitoral foi a número dois do partido, Nathalie Kosciusko-Morizet (NKM, como é conhecida), no cargo há um ano. A ex-ministra da Ecologia criticou, entre as duas voltas, a decisão de Sarkozy de não apoiar os candidatos socialistas nas regiões onde estes tinham mais votos do que Os Republicanos para impedir a vitória da Frente Nacional (a chamada política ni-ni).

É preciso "uma nova equipa" por "uma questão de coerência", afirmou ontem o ex-presidente. "Preferimos que os responsáveis do movimento expliquem as posições do movimento e não outra coisa", acrescentou, após uma reunião do gabinete político do partido. "Expulsar no momento em que se lança um debate é uma velha ideia estalinista", reagiu NKM. Na primeira reação aos resultados, Sarkozy tinha deixado claro que a primeira volta das regionais - ganhas pela Frente Nacional -tinham sido "um aviso para todos os políticos", falando na necessidade de fazer um debate sobre as preocupações dos franceses (desemprego, a segurança e a identidade nacional), "que esperam respostas fortes e precisas".

O ex-presidente, que quer regressar ao Eliseu em 2017, tem pela frente inúmeros candidatos - nas primárias participam Os Republicanos, mas também o Modem (centro) e a União dos Democratas e Independentes (centro-direita). Entre os candidatos estão os ex-primeiros-ministros Alain Juppé (que não perdeu tempo e já publicou o manifesto "A minha ideia de França") e François Fillon, o ex-ministro Bruno Le Maire e até, quem sabe, a própria NKM.

Hollande em silêncio dá prioridade à luta contra o desemprego

Há um mês, a vitória socialista em cinco regiões francesas parecia impossível e a previsão era que todo o mapa ficasse azul. Isso não significa contudo que o resultado da segunda volta das regionais seja motivo para o presidente François Hollande e o primeiro-ministro Manuel Valls estarem felizes. Mas também não há tempo a perder. Pela frente há um desafio ainda maior: garantir a reeleição de Hollande dentro de 18 meses.

Uma das promessas de campanha socialista em 2012 foi a diminuição do desemprego, mas este atinge já 10% da população ativa (3,59%). Foi Valls que, logo na reação aos resultados das regionais, afirmou que estes "obrigam" a "agir implacavelmente mais rápido" contra o desemprego.

O primeiro-ministro deu ontem uma entrevista à France 2 precisamente para dizer que a luta contra o desemprego é "a prioridade das prioridades" do governo, prometendo "um plano maciço de formação para os desempregados" e fazer "uma aposta na aprendizagem". As medidas concretas serão anunciadas em janeiro, referiu.

O primeiro-ministro lembrou também que não é hora de "triunfalismos". Segundo Valls, a Frente Nacional foi a única derrotada da noite - após a vitória na primeira volta das regionais. E apelou ao trabalho conjunto, "sem luta, sem sectarismo", entre esquerda e direita para fazer face à ameaça que representa o partido de extrema-direita.

O objetivo dos socialistas é evitar qualquer troca de palavras com a direita (às voltas com divisões internas), aproveitando também o facto de a desistência socialista em duas regiões, de forma a apoiar Os Republicanos e impedir a vitória da Frente Nacional, ter sido bem vista pelos eleitores. O "sacrifício" de Hollande poderá garantir-lhe votos nas presidenciais de 2017.

O presidente deixou nas mãos do primeiro-ministro a reação socialista às regionais, remetendo-se ao silêncio - só deverá falar em público antes do Conselho Europeu, previsto para quinta e sexta-feira.

Na derrota, Le Pen mantém vivo sonho de partir "teto de vidro"

"Nada poderá parar-nos." A Frente Nacional pode não ter conseguido conquistar uma região em França, mas Marine le Pen não desiste de querer quebrar o "teto de vidro" que a impediu de concretizar à segunda volta os bons resultados que teve na primeira. É que, como lembrou a sobrinha, Marion Maréchal-Le Pen, ele está cada vez mais próximo: "Esse chamado teto de vidro era de 25% em 2010 e hoje é de 48%. E amanhã?"

A probabilidade de Marine le Pen conseguir chegar à segunda volta das presidenciais de 2017 é cada vez maior, segundo os analistas. Mas face à frente republicana (união entre esquerda e direita para evitar a vitória da extrema-direita), a dificuldade é garantir que um bom resultado na primeira volta se traduz numa vitória na segunda. O velho ditado francês diz que os eleitores votam com o coração na primeira volta e com a cabeça na segunda. Na hora do tudo ou nada, os eleitores também se mobilizam contra as políticas mais extremas (no domingo, a participação foi de 58,53%, mais oito pontos percentuais do que na semana anterior).

Outro problema da Frente Nacional é não conseguir fazer alianças - apesar de numa sondagem de fevereiro um eleitor em cada dois d"Os Republicanos dizer que era favorável a alianças com o partido de Marine le Pen. Mas isso não significa que a atração dos votos da extrema-direita (de ideologia anti-imigração, anti-islâmica e anti-europeia) não tenha forçado os partidos tradicionais a uma política mais restritiva para evitar perder votos.

Se Marine le Pen conseguir chegar à segunda volta das presidenciais, a cor política do adversário será fulcral. Tudo porque os socialistas estão mais abertos a votar na direita para evitar a vitória da extrema-direita (isso viu-se nas regionais), do que os eleitores de direita a votar num socialista. Nas sondagens, a líder da Frente Nacional sai-se melhor (apesar de perder) contra Hollande do que contra Sarkozy ou Juppé, outro possível candidato.

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