De Trump para a Rússia com amor, apesar das tensões com Moscovo

Novo presidente diz que os dois países vão cooperar para resolver problemas do mundo, apesar de CIA e FBI darem como provado que Rússia interferiu nas eleições. Obama sublinha que Putin não joga na mesma equipa

Já lá vão quase 25 anos. Foi a 2 de fevereiro de 1992 que os presidentes da Rússia e dos Estados Unidos, Boris Ieltsin e George Bush, anunciaram formalmente em Camp David o fim da Guerra Fria. Os dois verbalizaram a necessidade de inaugurar uma nova era de "amizade e cooperação". Ainda que por outras palavras, Vladimir Putin e Donald Trump têm vindo a dizer mais ou menos o mesmo.

Daqui a menos de duas semanas, a 20 de janeiro, o presidente eleito dos EUA irá tomar posse. Não há dúvida de que será o início de um novo ciclo. Resta saber se será soalheiro ou de borrasca diplomática. Para já, os dois líderes parecem dispostos a cair nos braços um do outro e Trump vai lançando piropos no Twitter. "Sempre soube que ele era muito esperto", escreveu o futuro presidente dos EUA depois de Putin ter anunciado que não iria retaliar à decisão de expulsar 35 diplomatas russos tomada por Barack Obama.

A alegada interferência nas eleições norte-americanas levada a cabo por piratas informáticas russos elevou a tensão entre os dois países nos últimos meses. Os serviços secretos e as agências de informações dos EUA concluíram que os hackers tentaram influenciar o resultado da contenda eleitoral, denegrindo a imagem da candidata democrata Hillary Clinton, adversária de Trump na corrida à Casa Branca.

Depois de a CIA, o FBI e a NSA (Agência de Segurança Nacional) terem apontado o dedo à Rússia, Obama entendeu que não podia ficar de braços cruzados e respondeu com a expulsão dos diplomatas. O normal, como manda a tradição nos meandros da diplomacia em situações semelhantes, teria sido que Putin retaliasse olho por olho e dente por dente. E foi essa a recomendação de Sergei Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros. Mas o presidente russo baralhou as cartas. Preferiu ignorar Obama e esperar para ver qual será a posição de Trump. "Grande jogada esta de atrasar a resposta", escreveu Trump no Twitter, acrescentando depois o já referido elogio à sagacidade do líder russo.

"Putin está a desafiar o presidente eleito para que ele prove que está a falar a sério quando diz que quer melhorar as relações entre os dois países", pode ler-se no Politico. Agora a bola está do lado dos EUA. É a vez de Donald Trump reposicionar as peças no tabuleiro de xadrez. Irá ele desfazer o que fez Barack Obama e chamar de volta os diplomatas proscritos? Para a próxima quarta-feira está marcada uma conferência de imprensa em que o quase presidente terá certamente que responder a perguntas sobre o caso da espionagem russa.

Ontem, o futuro presidente dos EUA voltou a usar o Twitter para reduzir as distâncias entre Washington e Moscovo: "Ter uma boa relação com a Rússia é uma coisa boa. Só os estúpidos ou tontos podem pensar que é má. Quando eu for presidente, a Rússia irá respeitar-nos muito mais do que respeita agora". No último de três tweets consecutivos dedicados a Vladimir Putin, Donald Trump foi ainda mais longe na política de mão estendida a Moscovo: "Os dois países irão talvez trabalhar juntos para resolver alguns dos grandes problemas do mundo".

Dan Balz, veterano jornalista do The Washington Post, questiona até que ponto Trump estará a ser sincero nas boas intenções e se não haverá interesses comerciais escondidos na sedução que tem vindo a dedicar à Rússia. "Estará ele a dar graxa a Putin com uma intenção estratégica? Deverá Vladimir Putin estar nervoso por estar quase a receber aquilo que sempre desejou - uma presidência Trump?"

Durante o ano de 2016 a corda esticou. Além dos hackers russos, as negociações sobre a Síria fizeram extremar posições, nomeadamente nas reuniões do Conselho de Segurança da ONU. "Não há literalmente nada que vos envergonhe? Não há morte de criança que vos arrepie?", afirmou Samantha Powers, a embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, atacando a Síria, o Irão e a Rússia a propósito da situação em Aleppo. Moscovo apoia Bashar al-Assad. E até agora Washington queria pôr um ponto final no regime do presidente sírio. Feitas as contas, a evacuação de Aleppo foi negociada entre Rússia e Turquia assim como os contactos entre Damasco e a oposição. Os EUA ficaram de fora.

Hoje, na estação televisiva ABC, irá para o ar uma entrevista em que Obama deixa um recado a Trump. O presidente cessante lamenta que haja republicanos e comentadores que confiem mais em Putin do que nos democratas: "É preciso termos presente que estamos no mesmo barco e que Vladimir Putin não faz parte da nossa equipa".

Não vai ser fácil para Trump continuar em clima de lua-de-mel com o presidente russo. É verdade que ambos podem proclamar união, por exemplo, no combate ao terrorismo. A grande incógnita é saber qual será a posição do presidente dos EUA quando os assuntos forem aqueles que, em teoria, colocam o Kremlin e a Casa Branca em trincheiras opostas, como a Síria ou o conflito na Ucrânia. Em muitos momentos, não hostilizar Putin poderá significar não dar a mão a aliados como a Europa ou a NATO.

"Estou muito impressionado com a sua sabedoria e talento", disse Ieltsin sobre Bush em Camp David. "Sempre soube que ele era muito esperto", escreveu Trump sobre Putin no Twitter. A partir de dia 20 começará um novo capítulo na relação entre Washington e Moscovo. Será o fim da guerrilha fria que marcou o último ano?

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