Quem são os voluntários que acalmam os ânimos na Catalunha? "Somos gente de paz"

Representam vários grupos profissionais independentistas da sociedade civil catalã. Formam cordões humanos para conter a violência entre grupos radicais e as polícias e cuidam dos feridos nas manifestações que querem que sejam pacíficas.

De braço dado, em pé ou sentados, grupos de voluntários tentam atenuar a onda de violência nas manifestações que irromperam na Catalunha desde segunda-feira, após a decisão judicial que condenou a penas de prisão dirigentes independentistas.

Formam verdadeiros cordões humanos, ficam entre a polícia e os grupos radicais, e conseguem atenuar os momentos de tensão nas ruas catalãs. Foi o que se viu no sábado. A sexta noite de protestos em Barcelona foi mais tranquila, ainda assim há registo de feridos e mais de uma dezena de detidos, números inferiores aos registados nos dias anteriores.

"Somos gente de paz", lê-se nos cartazes e ouve-se nas ruas da capital catalã. Mas quem são estes voluntários que promovem a paz, socorrem os feridos num ambiente de tensão, em que os ânimos depressa se exaltam e os confrontos policiais podem levar tudo à frente? Representam vários setores da sociedade civil catalã, como bombeiros, médicos, escuteiros, entre muitos outros. Todos defendem a causa independentista e as mobilizações pacíficas.

Representam, talvez, uma mudança de estratégia nas ruas ou, quem sabe, são apenas uma flor no deserto, escreve o La Vanguardia . Certo é que a atitude pacifista destes cidadãos tem respondido aos apelos que surgem de vários quadrantes para colocar um ponto final aos desacatos que acabam por acontecer nas manifestações que começam pacíficas, mas terminam com imagens de violência.

Profissionais de saúde na linha da frente das manifestações de risco

O presidente do Governo Regional da Catalunha, Quim Torra, por exemplo, afirmou que os atos de violência não representam a causa independentista. Também a autarca de Barcelona fez ouvir a sua voz para pedir o fim dos confrontos numa "cidade de paz" que não merece a destruição de que está a ser alvo nos últimos dias. "Isto não pode continuar assim. Condenamos qualquer tipo de violência", afirmou Ada Colau.

Alguns dos voluntários que tentam acalmar os ânimos dos protestos são dos Bombers per la República, um movimento que surgiu pouco depois da associação independentista Assembleia Nacional Catalã, uma das entidades que organiza desde 2012 as manifestações da Diada, o Dia Nacional da Catalunha. O grupo nasceu na casa de um bombeiro independentista e nos últimos anos tem angariado cada vez mais elementos. São uma espécie de "capacetes brancos" contra as provocações de grupos radicais e defendem a mobilização pacífica para defender a causa.

Há também médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde que socorrem os feridos, e não só, no decorrer dos confrontos entre manifestantes e forças de segurança. São os Sanitaris per la República. "Somos um grupo de profissionais de saúde voluntários e auto-organizados (da medicina à psicologia), que está na primeira linha das manifestações de risco", lê-se na descrição que está no site desta associação. Eles são "o primeiro ponto de referência para pessoas feridas, desorientadas ou que precisam de qualquer tipo de ajuda nessas situações".

Defensores da resistência civil pacifica e não violenta, o movimento En Peu de Pau representa um grupo de cidadãos que, de forma coordenada e organizada, promove a mobilização pela causa independentista catalã. E é essa resposta pacífica que tentam implementar nos cordões humanos que ajudam a formar nas manifestações dos últimos dias da Catalunha.

Entre os voluntários que ajudam a conter os ânimos nos protestos estão, segundo o La Vanguardia, elementos da Open Arms, a organização não-governamental, que se dedica à busca e salvamento dos migrantes que tentar chegar à Europa através do Mediterrâneo. Desta vez o campo de ação é nas ruas catalãs, onde, juntamente com outros cidadãos ajudam a promover a manifestação pacífica contra a condenação dos líderes independentistas.

Elementos da associação Assembleia Nacional de Jovens Independentistas (ANJI), escuteiros, estruturas sindicais que representam vários profissionais da Catalunha foram para as ruas e de braço dado também ajudaram a formar cordões humanos de segurança que visam evitar os conflitos entre manifestantes e as forças de segurança.

Uma forma diferente de lutar pela causa independentista que mereceu o elogio do Governo Regional da Catalunha. "Os cordões preventivos são o outro lado da moeda dos grupo violentos", destacou o presidente do executivo catalão Quim Torra.

"Eles promovem a não-violência, são contra os confrontos e evitam os desacatos", enaltece Miquel Buch, o ministro do Interior catalão, sobre a ação destes grupos de voluntários nas manifestações que levaram milhares às ruas da Catalunha.