Criação de anticorpos em laboratório pode estar à distância de meses

Terapia com anticorpos é uma esperança no combate à covid-19, dado permitir uma imunização temporária à doença. Empresas de biotecnologia apostam nesta via, que pode ser mais rápida que o desenvolvimento de uma vacina.

Vários gigantes da indústria farmacêutica estão a apostar no desenvolvimento de tratamentos com anticorpos, uma forma de combater a covid-19 que, não substituindo a vacina, poderá chegar antes e ajudar a tratar os pacientes do novo coronavírus.

Em causa está o uso de plasma de pessoas que já contraíram a doença e criaram anticorpos contra o vírus. O problema é que esta terapêutica exige grandes quantidades de sangue para se chegar ao plasma que contém as proteínas geradas pelo corpo humano para combater a infeção, e que não é possível de obter com as dádivas de quem já esteve infetado. E é aqui que entra a ciência, com a possível criação destes anticorpos em laboratório.

Este tipo de tratamento está longe de ser definitivo, dado que a imunização se mantém por algum tempo - alguns meses, não se sabe ao certo -, mas não é permanente. Mas pode revelar-se um auxiliar muito útil para proteger grupos mais vulneráveis, como o pessoal médico ou pessoas com doenças crónicas que são, por isso, mais suscetíveis à doença.

De acordo com um trabalho publicado pela CNN, e que cita David Thomas, vice-presidente da associação que representa a indústria da biotecnologia, estão atualmente em desenvolvimento 102 tratamentos diferentes com anticorpos, em diferentes fases de investigação.

"Não imaginei que [a investigação sobre anticorpos] crescesse tanto e tão rápido. Já trabalhei em muitas áreas terapêuticas, do Alzheimer ao cancro, e é espantoso ver algo desta dimensão", diz David Thomas. As várias linhas que estão a ser seguidas têm objetivos diferentes, daquelas que visam o próprio vírus às que se dirigem aos efeitos do Sars-CoV-2. Quatro destas terapêuticas, destinadas a curar ou a prevenir a covid-19, deverão entrar na fase de teste em humanos ainda durante este mês de junho. Para o que é habitual, diz David Thomas, estes processos estão a decorrer "à velocidade da luz".

Não é só nos Estados Unidos que avança a investigação em torno da terapêutica com anticorpos. Ainda em maio, cientistas holandeses e anunciaram ter identificado e testado anticorpos capazes de travar a infeção pelo novo coronavírus, considerando então que esta terapia pode estar à distância de alguns meses, talvez meio ano.

Várias empresas da área da biotecnologia também estão à espera de resultados nos próximos meses. A Regeneron, uma empresa sedeada em Nova Iorque, está a dar os primeiros passos para passar à fase deteste em humanos e espera ter dados preliminares dentro de um mês ou dois. Outra empresa desta área, a Tychan, de Singapura, já lançou a primeira fase de ensaios clínicos em pacientes hospitalizados. Se tudo correr bem, as empresas apontam para resultados definitivos no outono.

Mas há a hipótese, nada improvável, de não correr tudo bem. "Muitas vezes os anticorpos que funcionam em laboratório não são tão eficazes quando se testam depois em animais e humanos" diz à CNN Phyllis Kanki, professora de imunologia e doenças infecciosas na escola de saúde pública da Universidade de Harvard. "É sempre um pouco complicado" até acertar no cocktail certo de anticorpos.

Portugal também está a acompanhar a evolução desta terapêutica, que começou a ser testada na China e depois em países como a Itália e a Espanha. Ainda em abril a presidente do Instituto Português do Sangue e Transplantação (IPST), Maria Antónia Escoval, avançava ao DN que Portugal estava também a dar os primeiros passos no sentido de vir a usar plasma convalescente como terapêutica experimental.

Se a ciência procura agora dar o passo seguinte, para conseguir que a imunização através dos anticorpos possa dar uma resposta em massa - ainda que temporária - à pandemia de covid-19, a verdade é que esta está longe de ser uma estratégia nova: foi utilizada há 100 anos, na pandemia da gripe pneumónica que matou mais de 50 milhões de pessoas em todo o mundo - mais do dobro das que morreram na primeira Guerra Mundial. Mas é ainda mais antiga: foi desenvolvida em 1890 como tratamento contra a difteria por Emil von Behring, um imunologista alemão que viria a ganhar o prémio Nobel da Medicina em 1901.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG